Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2003 - Vol.8 - Nº 2

Psiquiatria, outros olhares

Concurso de Chiquitita

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina/UFCe, autor de O Ciúme Patológico e Drogas, Esse Barato Sai Caro (Ed. Record)

Essa semana houve muito tumulto numa emissora local de televisão. Eram milhares de meninos e meninas tentando ser chiquititas ou paquitas, nem sei direito...

Dá para entender?

Atirados pelo anúncio de que a produção estava selecionando novos mini-atores, as crianças acorreram de todos os cantos da cidade. Em Fortaleza, eles foram castigados pelo sol e pela chuva. Pouco importa. A glória estava ali muito perto e por que não arriscar?

O antropólogo Gilberto Vasconcellos escreveu um violento libelo de acusação sobre o tema, no livro intitulado: O Cabaré das Crianças.(1) Nesta obra ele disseca uma grave mazela que assusta a quem entende de cultura e psicologia.

Os programas de TV para criança estão feminilizando precocemente as nossas meninas. Ele diz: "Estamos vivendo num país neném, ou melhor, um país com pornô neném na comunicação de massa. A forma infantilizada da comunicação reveste-se paradoxal-mente de um conteúdo adulto: o de provocar a genitalidade prematura da criançada - batom, minissaia, brincos, balangandãs. Assim, a garota de oito anos já vivencia, na indumentária, o fim da puberdade. A fantasia, reduzida e caretamente canalizada, antecipa as regras da maturidade sexual, sobretudo o sexy da moda."

E ainda mais contundente: "A Xuxa antecipa a menstruação das meninas, preparando o mais rápido possível seu ingresso na organização genital, mercantil da adolescência. Nessa organização genital reificada, o sangue menstrual precoce, cuja metonímia é o batom ou o saltinho alto, consagra o sonho americano consumista da paquita ágrafa e analfabeta na periferia do capitalismo video-financeiro".  Para concluir: "Família nenhuma segura o caminho da filha que cresce vendo programa da tevê."

Como a escola é quase sempre um fracasso, fabrica-se um povo que não lê e não pensa. Sem senso crítico, a informação entra fácil pelos ouvidos e pelas imagens maquiladas.

Nesse sentido, não fica difícil entender o sucesso da Xuxa - a Rainha Mãe e suas paquitas, da Carla Perez, da loura do Tchan e da Tiazinha. Elas são expressões "vencedoras" desse novo modelo nacional. A mulher sexual, consumível e descartável! E, definitivamente suspensa a possibilidade de uma menina ser só menina e um menino ser só menino.

A família deixa de ser o principal agente da socialização do indivíduo. "A aceitação coletiva desse padrão de qualidade veicula evidentemente um tipo de estética com determinados valores ideológicos." Em outras palavras: já não se fazem mulheres com os mesmos valores de nossas mães!

Nem assusta que estas crianças venham aos milhares disputar essa remota chance. Elas acreditam, posto que insistentemente ensinadas, que o mito constrói-se desse modo, pela mágica dos segundos. Que a Nave Platinada, de onde sai a nova Deusa, está acoplada à telinha da sala de visitas.

Pobre país que vende até suas crianças à prostituição colorida.

UMA FERIDA QUE SANGRA

Nesse debate sobre a prostituição infantil há muita idéia adequada, bem como verdades absolutamente improcedentes.

Não dá para reduzir o problema da prostituição infantil a uma dimensão meramente econômica.  Há muitas outras crianças num quadro gritante de necessidades e que nem por isso vão se prostituir. Com isso não negamos as situações de vulnerabilidade. Pai desempregado, mãe sendo obrigada a sair de casa para ganhar alguns trocados fazendo biscates. Filhos deixados na rua, sem escola. Nesse cenário tão comum pode prosperar a marginalidade. Mas, atenção, nem todo pobre é bandido.

É preconceituoso atribuir o problema da prostituição infantil unicamente a conduta de alguns gringos safados. Isso não é verdade. Boa parte dessas meninas que se prostituem, inauguraram uma vida sexual precoce em suas próprias casas, com pai ou padrasto, um irmão, primo ou parente. Ou, talvez, em casa de "família" onde vão trabalhar como domésticas. Os filhos da patroa - piedosa mãe cristã - ou até mesmo o marido, forçam estas pequenas à prática de um sexo roubado.

Vindas do Interior, sem proteção e orientação, tornam-se presas fáceis dessa iniciação sexual estúpida. Surpreendidas com uma gravidez, com abortos arranjados e mal resolvidos, elas se deixam levar pelos (des)caminhos da prostituição. O corpo vai ser vendido. Repartido. O que tem os gringos a ver com isso tudo?

Muitas situações desse problema nasce em nossa própria cozinha, ou melhor, nas alcovas dessas famílias exemplarmente cristãs... Essa condenação, exclusiva e excludente, ao que vem "de fora" é uma forma de exorcizar o que se passa "aqui dentro". Aponta-se o outro. O forasteiro passa a ser o bandido. Igualmente não se pode generalizar. Há gringo safado, explorador, mentalmente enfermo e que somente através de práticas sexuais estúpidas conseguem obter algum tipo de prazer. Mas há também muita gente honesta que deseja apenas conhecer nossa realidade e ter contato com o nosso povo.

Nesse mundo cão, cabe qualquer tipo de sentimento. Há até mesmo aquele estrangeiro carente de afeto, de "coisa" humana e que se deixa envolver pelos encantos de alguma dessas "meninas", vindo a constituir família. José de Alencar, com um século de antecedência, já construía a ode desse idílio - Iracema, a índia mulher, Soares Moreno o forasteiro conquistador e o filho - Moacir - símbolo dessa tentativa de imortalizar o amor entre oceanos. Não é coisa desconhecida de nós mesmos.(2)

A grande inquietação é que essas relações tornaram-se perigosamente patológicas. Não significam amor, nem mesmo a tênua expectativa de que o amanhã será melhor. No desespero, desfila o séquito das desgraças: as drogas, o crime, os assaltos, os abortos e a morte com a boca escancarada.

A prostituição atual chama atenção por ser um fenômeno muito amplo e forte. Não se trata de episódios isolados, mas uma prática que multiplica as vítimas desse retrato cada vez mais violento. Um banquete do qual nossas adolescentes não foram convidadas.

Dançando com o gringo ela reinventa a globalidade. Tomando o lanche no McDonald ela sente o que seria a vida, se fosse.

A prostituição é um puzzle difícil de montar e entender.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. VASCONCELLOS, G. Felisberto - O Cabaré das Crianças, Rio de Janeiro, Ed. Espaço e Tempo, 1998;
  2. ALENCAR, J. de - Iracema, Fortaleza, Ed. ABC, 2000;

Referências Bibliográficas

  • - CARVALHO, Ma. Avelina - Tô Vivu, histórias dos meninos de rua, 2a ed., Cegraf - UFG, 1991;
  • - Perfil Estatístico de crianças e mães no Brasil: aspectos sócio-econômicos da mortalidade infantil em áreas urbanas/ Fundação IBGE, Rio de Janeiro, 2000;
  • - Cadernos de Saúde Pública - O impacto da violência social sobre a saúde, vol. 10, suplemento 1, 1994

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