Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2003 - Vol.8 - Nº 1

Psiquiatria, outros olhares

A família do esquizofrênico (*)

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina/UFCe, autor de O Ciúme Patológico e Drogas, Esse Barato Sai Caro (Ed. Record)

Vamos falar sobre os problemas que a família enfrenta quando um dos seus membros apresenta o transtorno mental chamado esquizofrenia.

Apesar de termos como referência a ciência, é muito curioso que uma das patologias mais acendradamente psiquiátrica, que é a esquizofrenia, tenha passado, em tempos tão breves, e ainda hoje, por referências etiológicas tão díspares.

Tudo começa com Kraepelin (1896) com a designação de "dementia praecox" ou Bleuler (1911) chamando-a de esquizofrenia, que significa mente fendida ou estilhaçada.

Temos um discurso extremamente consistente da esquizofrenia como uma patologia do ponto de vista genético. Estão ai, para demonstrar, os levantamento epidemiológicos com seus detalhes inquestionáveis. Igual pensamento é sustentado pela bioquímica. Muitas reações químicas e distúrbios de neuro-transmissores são apontados como causa verdadeira do transtorno. Inúmeras mesas redondas, em todos os congressos, registram muitos comunicados sobre estes temas. Estas hipóteses são trabalhadas com afinco em numerosos grupos de pesquisa em todo o mundo. E, constitui-se um grande desafio para a indústria farmacêutica.

Doutra parte, não podemos esquecer a etiologia psicológica. De um lado a grande dinâmica emprestada pela psicanálise, sobre a questão do conflito edipiano não resolvido. Inclusive o termo empregado pela Dra. Frieda Fromm-Reichman, que falava de mãe esquizofrenogênica,(1) dando origem a toda uma literatura científica sobre o tema. Outros autores, reforçaram essa hipótese, como Ronald Laing(2), quando fala dessa mãe, sobretudo na dimensão psicológica. Muitos textos e referências continuam sendo produzidos pela Psicologia, Psicodinâmica e Psicanálise.

Um outro enfoque que deve-se mencionar, ainda inspirado nas dinâmicas psicológicas, é o da terapia familiar sistêmica. Esta, debruça-se sobre a dinâmica psicológica. A esquizofrenia seria uma manifestação (doença) na/da estrutura familiar. Existe aquele que expressa o mal-estar - paciente designado - mas, a unidade familiar é que está doente. Temos Gregory Bateson, Wawzlacick(3) e inúmeras outros grupos espalhados pelo mundo. Roma, com Maurizio Andolfi(4); Milão, como Mara Selvini, e tantos outros que fazem essas coberturas...

Poderíamos citar a etiologia sociológica. Que também trouxe uma grande contribuição teórica. Faria referência, en passant, ao clássico filme: "A Classe Operária Vai ao Paraíso" , em que essa dimensão fica bem demonstrada. A doença seria resultado da intensa luta de classes.

Essa tendência viveu um relevante momento quando foi difundida a idéia da anti-psiquiatria, tendo em Franco Basaglia um dos seus ardorosos defensores.

A doença mental é gestada no próprio seio da sociedade, e ela precisa cuidar dos doentes que fabrica. Não podem ser isolados em hospitais, mas soltos na cidade. Ela procura entender a manifestação num contexto existencial e social em que se insere. "Quem fabrica seus loucos que deles cuide."

Poderia fazer referência a teoria cultural, a etnopsiquiatria, dando destaque as idéias de George Devereux(5) e Tobie Nathan(6). Este último coordena, inclusive, um centro de tratamento para transtornos mentais, dentre outros a esquizofrenia, sendo a instrumentalização da cura realizada através das "ferramentas" de defesa emprestadas pela cultura. No referido centro atuam equipes de terapeutas, formadas a partir das referências culturais de cada um deles.

Essa rápida reflexão tenta mostrar que toda etiologia relacionada com a esquizofrenia, que é tão estudada e pesquisada em Psiquiatria, assenta-se num grande caleidoscópio ideológico. A qual ideologia nos reportamos, quando defendemos determinado ponto de vista? Se esquecemos isso, estamos incorrendo num grave impasse epistemológico. O que pode distorcer sobejamente a tal neutralidade científica, levando a equívocos de percepção e verdadeiros desastres terapêuticos.

A FAMÍLIA

Kleimann, em 1980, assinalava que era impossível trabalhar a questão da esquizofrenia, sem levar em conta a família. As intervenções familiares concretas e práticas são fundamentais, também o papel da educação e da prevenção. Não podemos trabalhar a questão terapêutica da esquizofrenia, sem nos lembrarmos da família.

A Associação Mundial de Psiquiatria, em 1999, escolhe o Programa Open the Doors(7), destacando a importância de um trabalho comunitário mais amplo. A esquizofrenia é um evento tão sério que não pode ficar apenas em mãos dos psiquiatras.

TRABALHANDO COM FAMÍLIA

Uma lembrança bem importante, logo que se começa a trabalhar com família de esquizofrênicos e que se deva abordar a questão da etiologia (causa), é importante lembrar que ela costuma ser associada, imediatamente, a idéia de culpa. Causa chama culpa. As famílias alimentam, naturalmente, um sentimento vago de culpa, posto numa frase muito comum: "doutor, quando foi ou onde foi que nós erramos?" Esse sentimento precisa ser trabalhado com a família.

Outro aspecto importante, para a família, é a questão do futuro. Os pais preocupam-me muito quando estiverem mais idosos ou mesmo já falecidos? "Quem vai cuidar dele?"

Os pais gostam de construir projetos para os filhos. No mais das vezes esses filhos esquizofrênicos são possuidores de destacada inteligência e a doença não lhes permite uma carreira profissional de sucesso. "A crise instalou-se quando tinha acabado de passar no vestibular."... "Estava iniciando uma brilhante carreira acadêmica, quando vieram os primeiros eventos." Isto a família precisa trabalhar, porque essa consciência é um elemento importante no processo psicológico. A grande questão é: como ser autônomo, possuindo uma patologia dessa natureza?

As crises continuadas, gerando situações recidivantes, suscitam interrogações dilacerantes: "será que nós vamos passar por isso novamente, doutor...? Será que ele ainda vai voltar a ter crises?" E, com o passar do tempo, a questão da fadiga familiar. Algo assim: "a gente não aguenta mais!" Sem deixar de mencionar a situação econômica. "Como é que a gente vai manter esse filho que não pode se sustentar?" Parece que nós, enquanto profissionais, abstraimos essas dimensões. Estamos fazendo Psiquiatria num país que não tem realidade ou contexto sócio-econômico?

Precisamos nos ocupar não apenas da gerência farmacológica - a pura administração de drogas! - do contrôle dos surtos e das crises, mas levando em conta esse contexto familiar e social. A família deve ser promovida na ajuda desse processo terapêutico.

REFLEXÃO FINAL

Os colegas infectologistas fizeram um trabalho estupendo, em relação a DSTs e AIDS, ao ponto desse programa do Brasil ser considerado hoje modelo para o mundo. Os endocrinologistas promovem campanhas em relação ao diabetes. Para não falar dos cardiologistas que vivem alertando a população para os riscos da hipertensão, do colesterol, do tabagismo. A pediatria, igualmente, realiza uma mobilização espetacular, em relação às vacinas e a mortalidade infantil.

O que nós, psiquiatras, temos feito por nossos pacientes esquizofrênicos? Nos limitamos a discutir o efeito de tal droga, a dosagem de tal outra, e pronto! Tal como o Alienista de Machado de Assis, não nos apercebemos que o mundo é vário, que existem muitas outras questões a nos percutir. O Brasil tem em torno de 1,7 milhões de esquizofrênicos. O que temos feito por eles? E o que podemos fazer?

Podemos lutar por mais verbas, tentando pressionar por políticas públicas mais concretas em relação às doenças mentais. Precisamos sensibilizar a sociedade, em paralelo, com a necessidade de dismistificarmos a esquizofrenia, que não raro, é impregnada de tantos preconceitos.

Nossas associações não podem ser tão omissas e passivas. Como se isso não fosse da nossa responsabilidade e competência profissional.

Finalmente, criarmos parcerias com a sociedade, com destaque para as famílias dos portadores de transtornos mentais. Temos uma tarefa que transcende as salas fechadas dos nossos consultórios. Senão, nós não seremos úteis a estas famílias que tanto sofrem, ou que sofrem até mais que os próprios pacientes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. FROMM-REICHMAN, F. Psicoterapia intensiva en la esquizofrenia, Ed. Hormé, Buenos Aires in Shirakawa, I. - O Ajustamento Social na Esquizofrenia, São Paulo, Ed. Lemos, 1999, 3a ed.;
  2. LAING, Ronald - O eu dividido, Petrópolis, Ed. Vozes.
  3. WATZLAWICK, P. et alii. Pragmática da comunicação humana. São Paulo, Editora Cultrix, 1988;
  4. ANDOLFI et alii. Por trás da máscara familiar. Porto Alegre, Editora Artes Médicas, 1984;
  5. DEVEREUX, G. - Essais d'ethnopsychiatrie générale - Paris, Gallimard, 1970
  6. NATHAN, Tobie et Pierre Pichot (1998 - 2) - Quel avenir pour la psychiatrie et la psychothérapie - Paris, Synthélabo, 1998.
  7. <www.proesq.org.br> / informações sobre "Open The Doors".

(*) Trabalho Apresentado em Mesa Redonda "Esquizofrenia" – Congresso Brasileiro de Psiquiatria, Florianópolis, 2002


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