Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2003 - Vol.8 - Nº 11

Psiquiatria, outros olhares...

O mundo Psi na obra de Bastide (*)

Antonio Mourão Cavalcante

Introdução

A obra de Roger Bastide é extremamente vasta para que possamos abordá-la em tão breve espaço. Isso, porém, não nos impede de destacar alguns aspectos que nos parecem fundamentais para a compreensão de suas idéias. Referimo-nos particularmente aos aspectos relacionados com a Psicologia Social e a Psiquiatria Social.

1º Roger Bastide insiste na necessidade de introduzir a Psicologia na compreensão da dinâmica social, a partir do estudo do indivíduo. O indivíduo seria ao mesmo tempo um ser pessoal e um ser social. Ser pessoal, quando apresenta uma história particular, própria, única e ser social quando pertence a uma cultura e participa de sua dinâmica;

2º Roger Bastide reage à noção de racionalidade contrapondo-se a uma irracionalidade primitiva, como se existisse um primado da primeira sobre a segunda. Considerava esta tendência como uma atitude etnocêntrica. Como refere M.I. Pereira de Queiroz: “cada sociedade possui sua lógica, uma forma de razão que lhe é própria.”(1);

3º Roger Bastide defende a multidisciplinaridade, fazendo um apelo a todas as perspectivas possíveis do problema, através de análises e críticas das diversas contribuições;

4º Roger Bastide defende uma postura metodológica que leve em conta a intuição, a observação participante e a observação controlada, fazendo parte de uma mesma dinâmica. Compreende a intuição como sendo um ato criativo e inconsciente: “só se descobre aquilo que não se busca”(2). Termina-se por encontrar o que não era previsto. Pensando-se na influência que Bastide teria sofrido da Psicanálise, podemos falar, neste caso da associação livre de Freud, aplicada na técnica psicanalítica. A observação participante como a capacidade de transcender para ascender à compreensão do fato. Nos lembramos aqui de G. Devereux quando ele destaca em “De l'angoisse à la méthode”: “o homem observa o rato, mas o rato também observa o homem”(3). Quanto à observação controlada, esta seria a preocupação de tudo em estando dentro, não perder a sua própria identidade, não se fundindo nem confundindo-se com o objeto. Um não pode perder-se no outro. Mais uma vez, nos lembramos da Psicanálise que fala em transferência e contra-transferência.

Cultura e Loucura

Essas características do pensamento de Roger Bastide permitiram uma maior abertura para a compreensão dos fenômenos ligados à cultura como um todo e a questão da loucura em particular.

Isso parece mais evidente quando lemos o prefácio de Roger Bastide ao livro de G. Devereux: “Essais d'Ethnopsychiatrie générale”(4). Com efeito, algumas idéias chaves são retomadas pelo mestre que permanecem muito pertinentes e atuais.

Primeiro, o problema da cooperação multidisciplinar alertando para “os riscos de não transformá-la em uma atmosfera de confusão, de choques e atritos ou de casamentos seguidos de desilusões entre ciências e perspectivas, no lugar de uma lógica da pluridisciplinaridade, sem a qual não há cooperação possível, nem reencontro fecundo, nem finalmente, o que é mais grave, a unificação das ciências do homem”(5). Neste sentido, o perigo levantado não está tanto numa crescente especialização, tal como ocorre atualmente, não se trata tampouco da falta de uma perspectiva de universalidade, mas do perigo exposto de totalidade do saber que se expõem tantos cientistas, de suas pretensões a um “saber total”(Jaspers). Como afirma Viktor Frankl:”desde que a ciência exprime esta pretensão, ela deixa de ser uma ciência e passa a ser uma ideologia. No que concerne às ciências do homem, em particular a Biologia se transforma em biologismo, a Psicologia em psicologismo e a Sociologia em sociologismo. O perigo não reside tanto que os pesquisadores se especializem, mas que os especialistas generalizem. Nós conhecemos todos estes terríveis simplificadores; e ao lado destes, os terríveis generalizadores”. (6)

Segundo, que seria dispensável determinar de maneira clara, desde o início, a noção de cultura e a noção de doença mental, evitando que diante de determinada situação estudada, o etnólogo não considere como normal o que na realidade é patológico e nem o psiquiatra a tentação de rotular toda a cultura como patológica.

Nossa Experiência

Um dos fenômenos mais conhecidos no Nordeste Brasileiro é o do curandeirismo, do qual nos ocupamos particularmente desde o início dos anos 80. Temos orientado nossos trabalhos por uma dupla análise do curandeirismo. Por uma perspectiva etnológica de uma parte, e psiquiátrica de outra, procurando revelar a natureza da relação de complementariedade entre estes dois sistemas de explicação. A partir deste “duplo” discurso explicativo temos procurado trazer algumas elucidações ao referido fenômeno.

A abordagem etnológica tem-nos permitido compreender o contexto sócio-cultural em que este fenômeno se inscreve. Geralmente presente em populações marginalizadas, traumatizadas, sofrendo tensões sociais graves, sem acesso aos benefícios ofertados pela cultura dominante e seus mecanismos de defesa. Trata-se de populações, como refere F. Laplantine em “Les trois voix de l'imaginaire”- “ameaçadas seja de dentro de si mesmas pelas suas próprias transformações sócio-econômicas, seja pelas agressões externas”. (7)

Essas populações têm nos curandeiros aqueles que absorvem o desespero e o sofrimento transfigurando-os em mensagens de esperança.

No caso específico do Nordeste, dois elementos são extremamente importantes: a seca e as implicações dela decorrentes, assim como o problema da terra que geram o fenômeno migratório, desagregador das instituições sociais, tais como a família, o clã e as comunidades.

A abordagem etnológica nos permite entender a função social relevante do curandeiro para estas comunidades, que se revela, sobretudo, agregadora, redimensionando as tensões do grupo e uma perspectiva redentora, geralmente de conteúdo místico-religioso.

A visão psicológica nos permite compreender a formação, a evolução e a dinâmica da personalidade do curandeiro. Geralmente indivíduos apresentando uma certa fragilidade do EGO, tendo vivido uma infância especial, com uma vida fantasmática extremamente rica com adaptação social difícil, com evidente incapacidade de adaptação ao grupo. É freqüente ainda que na adolescência apresentem um surto brutal, que nos faz pensar em uma descompensação psicótica evocando uma bouffée delirante. Estes elementos sumariamente descritos constituem fortes argumentos no sentido de uma estruturação desarmônica de sua personalidade.

É neste momento que um conflito pessoal pode emprestar da cultura formas que sejam socialmente valorizadas. Sua necessidade residual de se integrar ao grupo leva-o a uma estruturação convencional. É, portanto, pela estruturação convencional de seus conflitos e de seus sintomas que o curandeiro se diferencia do neurótico ou do psicótico comum. Em um indivíduo “comum” a estruturação dos elementos seria do tipo não convencional, idiossincrático.

Segundo Devereux: “cada desenvolvimento intrapsíquico mobiliza certos imperativos culturais que o reforçam, da mesma forma como cada reação cultural, mobiliza motivos e processos subjetivos que a reforçam”. (8)

Temos a impressão que para o curandeiro as crenças locais tornam-se nele experiências subjetivas. De tal modo que às vezes provamos o sentimento de estarmos diante de uma personalidade com um EGO extremamente instável, formando uma espécie de amálgama de crenças tradicionais introspectadas e transformadas em experiências subjetivas. “É como se o curandeiro não conseguisse existir ou guardar uma certa autonomia sem fazer apelo a algo convencionalmente estruturado com as crenças e as convicções tradicionais.” (8)

Lembremo-nos, porém, que apesar da função social que o curandeirismo possui, e sua aparente integração ao grupo, para nós, permanece clara a questão de uma desordem psíquica em latência.

Conclusão

Decorridos estes anos, podemos hoje melhor apreciar a pertinência das idéias de Roger Bastide.

Uma análise completa do fenômeno social, não pode prescindir do estudo do comportamento do indivíduo, bem como esta abordagem não pode excluir outras visões complementares do fenômeno.

Esta proposta adquire maior consistência em nosso meio, por sermos uma diversidade cultural e étnica.

Neste sentido, em nossa prática, temos nos esforçado em evitar um julgamento redutor e excludente, procurando dimensionar cada fenômeno ao contexto cultural e a realidade psíquica que lhes são próprias.

Os resultados têm sido positivos, de modo que o pensamento de Roger Bastide continua presente nestas diversas tentativas de compreensão do homem brasileiro e de sua cultura. Trata-se de uma obra que continua viva entre nós e nossas práticas profissionais.

Referências Bibliográficas

  1. PEREIRA DE QUEIROZ, M.I. - Roger Bastide - Ed. Ática;
  2. BASTIDE, R. - Lê revê, la transe et la folie - Flammarion, Paris;
  3. DEVEREUX, G. - De l'angoisse à la méthode - Flammarion, Paris, 1980;
  4. DEVEREUX, G. - Essais d'Ethnopsychiatrie générale - Ed. Gallimard, 1977;
  5. BASTIDE, R. - prefácio de Essais d'Ethnopsychiatrie générale, Ed. Gallimard, 1977;
  6. FRANKL, V. - La psychothérapie et son image de l'homme - Ed. Centurion, Paris, 1970;
  7. LAPLANTINE, F. - Les trois voix de l'imaginaire - Ed. Universitaires, 1974;
  8. BARRETO, A. - Discours et pratique d'um guérisseur brésilien - Revista Ethnopsychiatrica, No 3/81.

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(*) ROGER BASTIDE (1/3/1898-10/4/1974) - nasceu em Nîmes e passou a infância nas Cévennes, interior da França, uma região rude e severa. Pertencia a uma família protestante, portanto, a uma comunidade minoritária num país católico, a um grupo cuja história está marcada pelas perseguições aos camisards, calvinistas de sua região que lutaram contra Luis XIV. Talvez esteja aí uma das causas de seu interesse por outras culturas. Aliou à formação familiar austera o calor do Mediterrâneo, cuja proximidade permitiu-lhe a convivência.

Seguiu estudos regulares no liceu de Nîmes (1908-15), e depois da guerra (1ª Guerra Mundial), obteve uma bolsa para inscrever-se, em 1919, no curso de filosofia da Faculdade de Bordeaux. Iniciou uma carreira de professor de filosofia no secundário, lecionando de 1924 a 1938, colaborando em várias revistas como Revue du Christianisme Social, Revue Internationale de Sociologie, Grande Revue, Cahiers du Sud, nas quais escrevia sobre sociologia, geral e religiosa, misticismo e literatura.

Em 1938, foi convidado pelo professor Georges Dumas para ocupar a vaga deixada por Levi-Strauss e lecionar sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, no quadro de professores estrangeiros contratados por ocasião da fundação da Faculdade de Filosofia. Instalou-se em São Paulo com a família, onde viveu até 1954, quando voltou para a França para ocupar o posto de titular de Etnologia Social e Religiosa na Sorbonne. Lecionou também na École Pratique des Hautes Études e no Institut des Hautes Études d'Amérique Latine. Criou, em 1961, um Centro de Psiquiatria Social que dirigiu até sua morte.


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