Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Dezembro de 2003 - Vol.8 - Nº 12

No Paiz dos Yankees

O Futuro da Pesquisa Médica: a visão de Betesda.

Dr. Erick Messias

O Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos Estados Unidos é o principal financiador de pesquisa médica do país. De sua sede em Betesda, no estado de Maryland, o NIH comanda um orçamento de mais de 20 bilhões de dólares anuais, que compõe a espinha dorsal da pesquisa em saúde americana. Assim sendo, para onde o NIH voltar suas atenções nos próximos anos, há de haver investimentos em projetos que poderão dar forma ao nosso entendimento biológico nas próximas décadas. Acredito que, como brasileiros, devemos estar atentos a essas planejamentos, não para copiar ou imitar o que faz o Tio Sam, mas para pensarmos nossas prioridades, e buscarmos a nossa solução. Vejamos então o que pensa Betesda sobre os caminhos da pesquisa médica do futuro.

Os rumos da pesquisa médica nos Estados Unidos foram estruturados num documento lançado em setembro de 2003, produto de um longo processo de discussão que envolveu mais de 300 líderes da academia, da indústria, do governo, e do público. Esse documento foi entitulado NIH Roadmap - que pode ser traduzido como o Direções do Instituto Nacional de Saúde.

O objetivo do processo era identificar oportunidades no atual cenário do conhecimento biológico, e recomendar os próximos passos. O resultado foi um conjunto de 28 iniciativas que foram organizadas em três grandes temas: novas veredas para a descoberta, equipes de pesquisa do futuro, e redesenhando a pesquisa clínica.

Sob o tema novas veredas para a descoberta o documento procura abordar o entendimento dos sistemas biológicos complexos. Esse tema procura desenhar os próximos passos a partir da conclusão do mapeamento do genoma humano. Aqui o foco pode se deslocar do gene para as proteínas, e para as interações moleculares, entre genes e ambiente. Nesse sentido há também um forte interesse em imagem molecular, e celular. As iniciativas desse tema ficaram agrupadas nos seguintes grupos de interesse:

  • Bibliotecas e imagens moleculares
  • Bioinformática e biologia computacional
  • Nanomedicina
  • Biologia estrutural
  • Elementos constitutivos e processos.

Sob o tema equipes de pesquisa do futuro o grupo procurou identificar maneiras de combinar especialidades e especialistas em equipes que pudessem solucionar os complexos e multideterminados problemas da biologia moderna. Aqui o enfoque se desenvolveu em torno de coordenar conhecimentos, e gerar equipes interdisciplinares, e multi-institucionais, de modo a estudar hipóteses de diversos ângulos. Aqui as iniciativas se organizaram em torno de 3 pontos:

  • Projetos de alto risco, com mecanismo próprio de financiamento.
  • Pesquisa interdisciplinar
  • Parceria público-privado.

Finalmente, sobre o tema re-desenhando a pesquisa clínica o instituto se propõe a acelerar o passo de tradução de descobertas científicas para prática clínica.

  • Regulamentação da pesquisa clínica
  • Integração das redes de pesquisa clínica
  • Melhora do treinamento em pesquisa na prática clínica.
  • Investimento em informática voltada para pesquisa clínica: National Electronic Clinical Trials and Research Network (NECTAR)
  • Tradução de descobertas para prática, inclusive com a criação de centros dedicados.
  • Criação de tecnologias para melhorar a avaliação de resultados clínicos.

Em que medida esse documento interessa à nós, interessados em desenvolver pesquisas no Brasil? Acredito que há interesse baseado em três aspectos: no conteúdo, nos paralelos, e finalmente no processo. Em relação ao conteúdo, temos aí as diretrizes que o governo americano está disposto a investir nos próximos anos. Assim podemos prever, com todo o risco que tal atividade nos traz, para onde vai andar o desenvolvimento da medicina e da biologia nas próximas décadas. Quanto aos paralelos, devemos ter em mente que há algumas semelhanças entre o Brasil e os EUA, e que algumas dessas prioridades podem ser aplicadas no nosso meio. Penso primeiramente no tamanho continental dos dois países, o que leva à necessidade de investimento em cooperação entre centros de pesquisa. Essa colaboração tem que acontecer pois por mais investimento que se faça em centros no Sudeste do país, as soluções ai encontradas podem não se aplicar no nordeste, e vice-versa. Desse modo é importante que o governo federal, e o NIH é fruto do governo federal americano, estimule a colaboração entre os centros de pesquisa do Sudeste, com os do Nordeste, do Norte, do Centro-Oeste, e do Sul, a fim de aumentar a capacidade de produção científica e melhorar relevância nacional das pesquisas. Nem o atual estágio do conhecimento, nem nossa geografia permitem pesquisas em instituição única. Finalmente, o processo de construção desse documento pode ser utilizado num esforço semelhante de pensarmos nossos problemas de saúde, nossos desafios enquanto nação, e construirmos nós mesmos as “direções para a pesquisa de saúde” no Brasil.

Informações mais detalhadas sobre o NIH Roadmap, incluindo o próprio documento na íntegra, podem ser encontradas em http://nihroadmap.nih.gov/


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