Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2003 - Vol.8 - Nº 9

No Paiz dos Yankees

Comentário ao livro Psiquiatria Cultural: Guia para o Clínico [Clinician's Guide to Cultural Psychiatry], de Wen-Shing Tseng.

Dr. Erick Messias

Sob o risco de perder uma parte dos leitores, vou começar esse texto com uma referência ao 11 de setembro (ao de Nova Iorque, não ao de Santiago). Os ataques aos EUA trouxeram ao público americano a constatação de que não é possível ignorar a existência de dissidentes à ordem mundial. Desde então inúmeras explicações têm sido propostas para o comportamento dos terroristas, variando desde a determinação econômica, baseada frouxamente na teoria marxista, até o aspecto fálico das torres gêmeas, numa leitura superficial de Freud. Entre os extremos de determinação social e determinação inconsciente, inúmeras teorias rolaram ladeira abaixo, a maioria com um potencia explicativo diminuto e parcial num fenômeno tão complexo e sobredeterminado.

Mesmo assim a pergunta fica no ar: porque um grupo de jovens, adotando um discurso radical e ortodoxo, decidiu destruir a própria vida, levando consigo milhares de pessoas que provavelmente nem sequer conheciam pessoalmente? Como entender esse padrão de comportamento tão alheio ao nosso cotidiano apreço à vida, própria e à do próximo? Acredito que parte dessa resposta venha do entendimento das diferentes culturas humanas - tomando aqui como definição de cultura todo o arcabouço de modos e modas que criamos coletivamente no dia-a-dia. Nesse contexto é natural, e previsível, o interesse por psiquiatria cultural.

Recebi então o livro Psiquiatria Cultural: Guia para o Clínico [Clinician's Guide to Cultural Psychiatry], de Wen-Shing Tseng, para revisão. O livro é um derivativo do Handbook of Cultural Psychiatry que o autor editou, com a colaboração de diversos profissionais. Já o pequeno guia é voltado para aspectos práticos, e uma rápida revisão dos conceitos e fatos pertinentes à psiquiatria cultural, conforme definida pelo autor. Esse é o primeiro problema que vejo com a obra, a saber a definição muito restrita de cultura, e psiquiatria cultural. Conforma a definição do autor, psiquiatria cultural seria primariamente etnopsiquiatria, o que não condiz com o conceito de cultura que citei acima. Ainda assim acredito que o Guia seja um passo na direção de um maior interesse pela pesquisa do papel da cultura na formação e delineamento do sintoma e das síndromes comportamentais. Outra qualidade do livro é a riqueza de casos clínicos apresentados de maneira sucinta e distribuídos nos diferentes capítulos, com a finalidade de ilustrar os pontos teóricos.

O livro no entanto apresenta dois problemas que diminuem sua utilidade. O primeiro é de natureza específica, e aponta para a área de concentração do autor, que seja a Asia oriental, particularmente a China, o Japão, e o sudoeste asiático. Dos 29 casos clínicos apresentados no Guia, 22 são asiáticos. Esse viés diminui a utilidade do livro para psiquiatras de outras áreas do planeta, o que diminui sua utilidade para nós no Brasil, que lidamos com uma diversidade de culturas dentro do nosso país, continental, multicultural, e multiracial.

O outro problema é de natureza genérica, e aponta para uma falha, um ponto cego, na estrutura epistemológica contemporânea. Uma leitura atenta do livro detecta a inexistência de uma teoria para a psiquiatria cultural. O livro descreve inúmeras situações, vários casos, mas não há uma teoria capaz de amarrar a dinâmica cultural. De certo modo o livro se inscreve, e talvez denuncie um problema geral do nosso momento histórico, na tradição indutiva, e não na lógica dedutiva. Esse debate, e essa tensão, entre as grandes tradições do conhecimento é importante e não deve ser deixado de lado. Lendo livro atento às grandes teorias do século XX, tal como o Marxismo e o Freudismo, deixa um mal-estar que de uma lado demonstra a falta que faz uma teoria do humano, e de outro um alívio pelo liberação que é conhecer a miríade de pequenas anedotas que compõem o mosaico antropológico na porteira do século XXI.

Em suma, o livro Psiquiatria Cultural: Guia para o Clínico [Clinician's Guide to Cultural Psychiatry], de Wen-Shing Tseng, aponta para um caminho que precisamos conhecer e estudar, mas deixa a desejar tanto no aspecto especifico, como no genérico. Mas como dizia o velho Pessoa., O Esforço é Grande, a obra imperfeita.


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