Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2003 - Vol.8 - Nº 7

No Paiz dos Yankees

Adolf Meyer e o departamento de psiquiatria da Johns Hopkins

Dr. Erick Messias

Não há como escapar de Adolf Meyer no departamento de psiquiatria da Johns Hopkins. O próprio prédio que abriga o departamento é o Meyer Building. As unidades de internação e os andares são chamados Meyer 1, 2, 3, e 4. A biblioteca do departamento, que guarda os jornais psiquiátricos, é a Meyer Library. O prédio inaugural do departamento é uma pequena pérola de arquitetura - cujo desenho foi feito sob as orientações de Adolf Meyer depois de uma viagem de observação pelas clínicas européias - chamado Phipps Clinic - hoje ocupado somente para administração. O nome vem do filantropo Henry Phipps, sócio de Andrew Carnegie no aço, que doou o dinheiro para a criação do departamento de psiquiatria na Hopkins em 1908. A clínica seria inaugurada por Meyer em 1913, numa cerimonia que contou com a presença do próprio Phipps assim como das grandes figuras fundadoras da universidade como Welch, Cushing, e Osler - esta último já havia deixado a Hopkins por Oxford em 1905, não sem antes propor a criação de um departamento de psiquiatria. Entre os nomes internacionais da psiquiatria moderna, estavam presentes: Eugen Bleuler de Zurique, e Ernest Jones, então em Toronto.

Além do nome nos prédios e nas unidades, a influência de Meyer pode ser encontrada na maneira de se fazer psiquiatria nos serviços do hospital. A nota de admissão da psiquiatria ainda hoje segue o padrão proposto por Meyer de linha de vida. Essa maneira de colher a história do paciente é o oposto daquela usada pela maioria dos clínicos, onde começamos com a queixa principal e seguimos do presente até o passado. Para Meyer a história deveria seguir a cronologia dos fatos, começando no passado e se desenvolvendo até o momento da entrevista. Desse modo o esquema de história psiquiátrica utilizado na Hopkins começa com a identificação do paciente, passa para a história familiar, a história do desenvolvimento, a história social, a história médica, a psiquiátrica, chagando então à queixa principal.

Mais do que nas estruturas, sejam físicas ou de serviço, a abordagem de Meyer deixou uma marca no fazer na Hopkins, particularmente durante a administração de Paul McHugh, que deixou a direção do departamento em 2001 - para detalhes na perspectiva de McHugh veja esta coluna de setembro de 2001. A chamada psicobiologia de Meyer pode ser notada em muitos das abordagens da Hopkins.

Meyer entendia a psicobiologia como alternativa à visão de Kraepelin, baseada na identificação de categorias homogenias, e à de Freud e seus mecanismos inconscientes de geração do sintoma. Para Meyer o paciente reagia a partir de sua constituição aos desafios propostos pelo ambiente, tanto o familiar como o social, e o psiquiatra deveria estar sintonizado para identificar essas reações. O interesse pelas reações do paciente pode ser visto na perspectiva de história de vida - uma das quatro propostas por McHugh e Slavney para o entendimento dos transtornos mentais.

Outra contribuição de Meyer foi a consolidação do movimento de higiene mental. Na época seu grande promotor era Beers, autor de A Mind that found itself, que acredito ter sido traduzido para o português pelo Manoel Bandeira. Meyer deu a sanção acadêmica e profissional ao movimento. Por conta disso a secretaria de saúde do estado até hoje se chama Department of Health and Mental Hygiene. E o departamento da escola de saúde pública, comandado hoje por William Eaton, devotado ao estudo da epidemiologia dos distúrbios mental, era chamado de Mental Hygiene - mudou ano passado para Mental Health.

Enfim, o estado de Maryland possui uma história rica de contribuições para a psiquiatria americana. Harry Sullivan desenvolveu suas teorias no Sheppard Pratt, o hospital psiquiátrico de Towson, Adolf Meyer ensinou e escreveu por décadas na Johns Hopkins em Baltimore, e em Rockville ficava o Chestnut Lodge, onde Frieda Fromm trabalhou e escreveu.

Adolf Meyer também gostava de chamar sua abordagem de common sense psychiatry que pode ser traduzida como psiquiatria do bom senso. Nesse sentido ele buscava evitar o excessivo uso de jargão e procurava tornar a relação médico-paciente mais autêntica. Particularmente sobre esse último aspecto, acredito que ainda temos o que aprender com o pensamento de Adolf Meyer.

Nota biográfica

Adolf Meyer nasceu na paróquia de Niederweningen, próximo de Zurique, na Suíça, em 13 de setembro de 1866. Seu pai, Rudolf Meyer era ministro protestante, e iniciou o filho nas letras, sob o signo do liberalismo e da reflexão. Um tio materno, médico, provavelmente influenciou na escolha da medicina como profissão - em oposição à vida clerical. Aos 26 anos ele recebeu seu título de doutor de medicina, pela universidade de Zurique. Após ser recusado para a posição de professor assistente naquela universidade, Meyer decidiu procurar a oportunidade para a vida acadêmica nos Estados Unidos.

Depois de tentar conseguir uma posição na recém-criada universidade de Chicago, Meyer acabou aceitando uma posição humilde no hospital estatal para insanos em Kankakee, Illinois. A grande vantagem dessa colocação era o acesso ilimitado aos cérebro dos paciente, visto que seu ofício então era de patologista. De Kankakee ele partiu para Worchester e de lá para o instituto de psiquiatria em Nova Iorque. De lá foi recrutado pelo comitê que buscava um nome de peso para a inauguração do departamento de psiquiatria da Johns Hopkins. Em Baltimore ele solidificou seu esquema através do treinamento de toda uma geração de psiquiatras que iria influenciar o curso da psiquiatria norte-americana no século XX. Meyer encerrou sua carreira na Hopkins, de onde se aposentou em 1940.


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