Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Maio de 2003 - Vol.8 - Nº 5

No Paiz dos Yankees

Ainda sobre Invisibilidade Social

Ralph Ellison e seu Invisible Man

Dr. Erick Messias

Mais de uma vez nas últimas semanas, apareceu em diversas lista de discussão na internet uma entrevista sobre invisibilidade social baseada numa recente dissertação de mestrado. A discussão foi iniciada a partir da notícia sobre uma tese recentemente defendida no Instituto de Psicologia da USP entitulada Garis - um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública. Segundo a página de notícias da USP o estudo foi conduzido por Fernando Braga da Costa, que trabalhou como gari no Campus da Cidade Universitária da Capital Paulista. Essa informação provocou um debate interessante na nossa lista de psiquiatria, inclusive com algumas críticas importantes, e válidas, sobre originalidade, tempo e valor científico. Os argumentos utilizados nas críticas são legítimos, mas legítima também é a necessidade de continuarmos discutindo esse tema que insiste em se colocar na nossa sociedade. Na coluna desse mês, no entanto, não vou fazer crítica da crítica. Gostaria de falar sobre um livro entitulado Invisible Man, publicado nos Estados Unidos nos anos 50, mas que mantem sua atualidade até hoje, e gira em torno do conceito de invisibilidade social.

A narrativa

Nunca sabemos o nome do protagonista da história, apesar de ter diversos nomes durante a narrativa. Partindo de uma infância no sul dos Estados Unidos, o protagonista recebe uma bolsa para uma universidade de negros - até hoje existem por aqui `black colleges' que hoje aceitam diversos estudantes mas mantem uma maioria de estudantes negros, em Washington DC, por exemplo, há a Howard University. Dessa universidade o protagista parte para New York, depois de ser expulso por ter levado um doador branco, e milionário, a uma àrea vergonhosa da comunidade negra local. Em Nova Iorque ele passa por diversas situações, incluindo uma reunião de sindicato, e desencontros para conseguir emprego. Finalmente ele se estabelece no Harlem - o histórico bairro negro, um universo por si só - onde ele acaba envolvido com reuniões secretas e articulações do partido comunista!

Como vocês podem imaginar o livro é riquíssimo, escrito com uma linguagem poética e trabalhada, onde cada paragrafo lembra aqueles detalhes barrocos das igrejas do Aleijadinho. Por vezes o estilo lembra o do José Saramago. Traduzi alguns trechos, para que se tenha uma idéia da riquesa desse texto.

Trechos

Primeiro paragrafo do livro

Eu sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um dos seus ectoplasma de Hollywood. Sou um homem de material, de carne e osso, fibras e líquidos - e pode ser até que eu possua uma mente. Sou invisível, entenda, simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como essas cabeças sem corpo que você vê as vezes nos espetáculos de circo, é como se eu estivesse cercado de espelhos de um vidro duro, que distorce a imagem. Quando eles se aproximam de mim eles vêem apenas meus arredores, eles mesmos, ou pedaços de sua própria imaginação - de fato, tudo e qualquer coisa, menos eu.

First paragraph of Prologue page 3

"I am an invisible man. No, I am not a spook like those who haunted Edgar Allan Poe; nor am I one of your Hollywood-movie ectoplasm. I am a man of substance, of flesh and bon, fiber and liquids - and I might even be said to possess mind. I am invisible, understand, simply because people refuse to see me. Like the bodiless heads you see sometimes in circus sideshows, it is as though I have been surrounded by mirrors of hard, distorting glass. When they approach me they see only my surroundings, themselves, or fragments of their imagination - indeed, everything and anything except me."

O que eles pensam sobre nós, os transitórios? [...] aves de arribação, obscuros demais para classificação sistemática, silenciosos demais para os mais potentes gravadores de sons, de natureza demasiada ambígua para a mais ambígua palavra, e muito distantes dos centros de decisão histórica para assinar, ou pelo menos aplaudir os signatários dos documentos históricos? Nós que não escrevemos romances, ou história, ou qualquer livro?

On transitories: page 439

" What did they ever think of us transitory ones?[...] birds of passage who were too obscure for learned classificationm too silent for the most sensitive recoders of sound; of natures too ambiguos for the most ambiguous word, and too distant from the centers of historical decision to sign or even aplaude the signers of historical documents? we who write no novel, histories or other books.

Utimo paragrafo do livro

Sendo invisível e sem material, como se fora uma voz desencarnada, que mais posso fazer? Que mais senão tentar lhes dizer o que está realmente acontecendo quando seus olhos estão vendo através de mim? E isso é o que me assusta: quem sabe se, nas freqüências mais baixas, eu não falo por você?

Last paragraph of the Epilogue

"being invisible and without substance, a disembodied voice, as it were, what else could I do? What else but try to tell you what was really happening when your eyes were looking through? And it is this which frightens me: who knows but that, on the lower frequencies, I speak for you?"

Em português

O livro foi publicado em português pela Marco Zero Editora em 1990. No entanto, segundo a página da Livraria Cultura na internet o título está esgotado.

Conclusão

O livro é excepcional. Como obra literária e como ensaio humanístico vale a pena a leitura e o estudo. Ele nós lembra de que certos assuntos não são novos, no entanto não perdem a atualidade. Há várias formas de invisibilidade social: econômica, racial, sexual, etária, entre outras. Está consciente da existência das mesmas, creio, é o primeiro passo para retirarmos os antolhos que cada sociedade nos coloca - esperando que o uso dos mesmos por tanto tempo não nos tenha feito cegos, ou que estejam pegados à cara.


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