Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2003 - Vol.8 - Nº 1

No Paiz dos Yankees

Versões e Pervesões: A tradução de Freud para o inglês

Dr. Erick Messias

Ainda na faculdade de medicina, embaixo das mangueiras da Universidade Federal do Ceará, li com prazer a coletânea entitulada "A Viena de Freud e Outros Ensaios". Seu autor, Bruno Bettelheim, ganhou proeminência em psiquiatria infantil, mas acabou caindo em desgraça nos últimos anos, como um dos notórios acusadores de pais. Seus ensaios, no entanto, são bem escritos e saborosos de se ler; suas memórias da Viena do começo do século são preciosas, inclusive para que se entenda mais do ambiente que gerou a psicanálise – nesse sentido deve-se ler também Stephen Sweig, que migrou e morreu no Brasil, e Arthur Schnitzler, cuja obra inspirou o filme Eyes Wide Shut – título de tradução impossível (penso que em português ficou De Olhos Bem Fechados... tradução literal e limitada).

Esses mesmos problemas acerca de tradução cercam a obra de Freud, e no ‘Viena de Freud’ Bettelheim cita alguns problemas da versão de Freud em inglês e menciona um livrinho que ele mesmo havia publicado sobre essas dificuldades. O livrinho se chama "Freud e a Alma Humana" – publicado em português pela Cultrix – e ocorreu que me deparei com uma cópia usada, em formato de bolso, num sebo aqui de Baltimore que distribui livros gratuitamente. Eis que passei o primeiro final de semana de 2003 lendo sobre as versões, e perversões, de Freud em inglês.

Bettelheim inicia sua diatribe contra o Freud em inglês recordando sua dificuldade em interagir com os colegas norte-americanos quando de sua chegada na universidade de Chicago. A psicanálise que conhecera em Viena era uma doutrina humanística, um corpo de idéias vivas sobre o comportamento humano. Nos EUA Bettelheim se deparou com um discurso analítico científico, cheio de certezas acerca do modelo freudiano. Ao tentar então, ele que lera Freud em alemão quando estudante em Viena, ler o mesmo Freud em inglês, encontrou grandes dificuldades e acabou percebendo uma série de diferenças entre o Dr. Freud alemão e sua versão inglesa. Segundo ele esses problemas se estenderiam inclusive à versão padrão de Freud em inglês, a poderosa Standard Edition, coordenada por James Strachey.

Um dos problemas disseminados na versão inglesa de Freud é a preferência por palavras gregas quando o próprio Freud havia escolhido palavras simples, de alemão corriqueiro, para descrever suas idéias. O grande exemplo dessa tendência são os termos Id, Ego e Super-Ego. Em alemão Freud utilizara o termos "Es", "Ich" e "Uber-Ich". Em alemão Es é o pronome neutro, que ganha maior sentido quando se sabe que em alemão uma criança (das Kind) é tratada como Es. Assim, para o leitor alemão, o Es (o nosso ‘Id’) ganha uma conotação especial, sendo a maneira como tratam, e foram tratados, as crianças pequenas – onde teoricamente o "id" seria a fonte de todos o atos...Aquilo que nos acostumamos a chagar o "Ego" era chamado por Freud pelo singelo nome de "Ich" o pronome ‘eu’ em alemão. Assim quando se discutia sobre os mecanismos do Ego, os salões de Viena na realidade se referiam sempre aos mecanismos do Eu. Desse modo o jargão psicanalítico ficava ao alcance de uma platéia maior e levava a uma ligação direta, e pessoal, com a história de cada um. Bettelheim elogia a versão francesa – assim como a espanhola – por utilizar moi, ça (ou soi) e surmoir para a nossa tríplice grega Id, Ego e Super-Ego.

Uma outra versão interessante para o inglês ocorre com o termo alemão Seele – que Freud muitas vezes utiliza e que acabou sendo traduzido para o inglês como Mind (Mente). Ora, o termo Seele possui um equivalente no inglês: Soul (alma); no entanto esse termo foi omitido na tradução. Na interpretação dos sonhos, por exemplo, Freud escreve que der Traum ein Ergebnis unserer eigenen Seelentatigkeit ist – os sonhos são resultado da atividade de nossa alma. Freud parecia querer falar sobre a alma do homem, provavelmente não porque quisesse dar uma conotação religiosa mas porque entendesse a alma de forma distinta da religião. Será que Freud queria criar uma ciência para a alma humana?

Essa própria questão da ciência provavelmente explica algo sobre as dificuldades de se trazer Freud para nossa maneira de pensar ‘pós moderna’. Na cultura alemão que gerou as idéias de Freud existiam duas grandes perspectivas para o conhecimento, ambas ganhando o nome de Wissenschaften (ciência). Havia a Naturwissenschaft e a Geisteswissenschaften. Esses termos são de difícil tradução – tanto para inglês como para português, mas Renan propôs para o francês os termos la science de l’humanité e la science de la nature. Assim a versão científica de Freud em inglês parece querer trazer para Naturwissenschaft o que Freud imaginava na Geisteswissenschaften: fazendo de Ich, Es e Uber-Ich, Ego, Id e Super-Ego; e fazendo de alma, mente.

Esses problemas são relevantes, não somente para que se entendam algumas das limitações do Freud inglês, mas também para que se tenha o cuidado com a nossa versão brasileira padrão – onde boa parte do material foi ‘traduzido direto do original em inglês’...Enfim, o fato de Freud não ajudar, com sua prosa rica e elegante, a versão para outros idiomas de sua obra, não deve fazer com que tenhamos que aprender alemão (coisa que tentei com resultados irregulares por 4 anos na casa de cultura alemã); devemos no entanto nos manter atento para a limitações de traduções e manter na lembrança o provérbio latino

Traduttore, traditore.


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