Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2003 - Vol.8 - Nº 11

Artigo do mês

Freud, o hipnotista

Fernando Portela Câmara

É comum ouvir-se dizer ou ler em algum livro sobre história da psicanálise, que Freud era um mau hipnotista e por esta razão foi levado a criar a psicanálise, ou que condenava a hipnose por não curar verdadeiramente os sintomas, levando a recaídas ou deslocamentos, e outras suposições jamais testadas ou provadas. Toda esta ficção desaparece ao lermos seus escritos sobre hipnose e o trabalho que o levou, junto com Breuer, a estabelecer o modelo psicodinâmico para a histeria [4]. Trata-se aqui da psicanálise enquanto uma proposta terapêutica, nada tendo a ver com o Freudismo.

“Em questões científicas, é sempre a experiência e nunca a autoridade, que dá o veredicto final, seja contra ou a favor” [12]. Com estas palavras Freud defendia a hipnose daqueles que a condenavam sem nunca te-la experimentado na clínica. Não se podia condenar a hipnose sem antes saber ser ela uma prática que envolvia muitos fatores pessoais além da técnica: se o médico é recebido como “um salvador em hora de necessidade, ele tem mais possibilidade de influir positivamente no paciente, mas se e recebido com má vontade, não poderá contar muito com a confiança do paciente” [15]. Também “um tratamento hipnótico demorado tende a fracassar porque à medida que o tempo passa e o paciente não vê resultados, suas expectativas diminuem assim como a do médico” [14], e finalmente, “por razões que escapam ao seu controle, [o médico] encontrará sempre alguns pacientes que não conseguirá hipnotizar nas suas condições de experiência, enquanto outro médico poderá consegui-lo sem dificuldade” [14].

Freud era um hipnotista bem sucedido em sua época e um entusiasmado defensor deste método. No seu artigo sobre a hipnose [14] denota conhecer intimamente todos os segredos desta arte e seu alcance terapêutico. Ele concordava com Bernheim ao afirmar que a hipnose curava tanto quanto os demais métodos da medicina (medicamentos, fisioterapia, eletroterapia, etc), e que a cura era permanente quando o que se tratava eram efeitos residuais de um processo patológico já concluído [14]. Portanto, o que os psicanalistas modernos afirmam como sendo a consideração de Freud sobre a hipnose, é apenas mais um equívoco adicionado à sua biografia. Ele sabia que os resultados médicos da hipnose dependem mais das características da pessoa do doente do que de sua doença [13, 14], e que não havia meios precisos de distinguir tais indivíduos a não ser submetendo-os experimentalmente à hipnose. Também chamava a atenção para o fato de que os pacientes histéricos eram altamente hipnotizáveis, enquanto os neurastênicos dificilmente, e os psicóticos e mentalmente retardados não respondiam à hipnose [5, 6, 8, 9, 11].

A hipnose foi a via que permitiu a Freud experimentar a realidade do inconsciente, o fenômenos da dissociação. “Todo aquele que já tenha acumulado algumas experiências pessoais com o hipnotismo há de se lembrar da impressão que lhe causou o fato de, pela primeira vez, poder exercer sobre a vida psíquica de uma pessoa aquilo que até então tinha sido uma influência inimaginável, e de poder efetuar com a mente humana uma experiência que normalmente só é possível faze-lo no organismo de um animal... Se o trabalho de Libeault e seus discípulos (Bernheim, Beaunis, Ligeois) não tivesse produzido nada além do conhecimento desses fenómenos notáveis (do hipnotismo), esse trabalho, mesmo excetuando qualquer alcance prático, já teria assegurado um lugar de destaque entre as descobertas científicas deste século” [13].

Freud criticava os que achavam que a hipnose feria o livre arbítrio das pessoas: “toda educação social dos seres humanos se baseia numa expressão de ideias e motivações impróprias e na sua substituição por outras melhores” (13). Com este argumento, situava o valor da sugestão hipnótica como forma de produzir “o recalque de um sintoma da atenção do paciente pela influência das palavras e poder da personalidade” (13), salientando que isto visava apenas recalcar um sintoma, e não a vida do paciente. Ele com isso contra-argumentava a polêmica do livre arbítrio, criticando a psiquiatria da época: “os psiquiatras estão habituados a sufocar a atividade mental de livre arbítrio de seus pacientes com grandes doses de brometo, morfina, e hidrato de cloral” (13). Ele negava que a hipnose produzisse o enfraquecimento do sistema nervoso das pessoas, crença comum na época, e tinha uma rixa com os hipnotizadores leigos, o que o levava enfatizar a distinção entre “indução do estado hipnótico”, que qualquer pessoa pode fazer, com “tratamento através do estado hipnótico”, que somente um psicoterapeuta experiente pode usar. “Hipnotizar não e uma especialidade médica, já que qualquer pessoa do povo pratica (esta arte)” e arrematava a frase citando Bérillon no original: “on ne s'improvise pas plus médicin hypnotiseur qu'on ne s'improvise oculiste” [13].

Ele não concordava com Bernheim de que a hipnose era uma condição puramente psicológica ou sugestiva, corrente de pensamento conhecida como “Escola de Nancy”, e que antagonizva frontalmente a teoria da “Escola de La Salpètriere”, liderada por Charcot [8]. Freud concordava, como neurologista, que a hipnose também era fisiológica, e citava casos de hipnose espontânea durante exames oftalmoscópicos, otorrinolaringológicos, ruídos bruscos e violentos, etc. Discípulo de Charcot e Bernheim, ele procurava unir as duas escolas inimigas, pois, sabia por experiência, que ambas tinham razão, embora parcialmente [8]. Mas ele era mais inclinado às teses de Charcot, tendendo a aceitar a hipnose mais como um fenômeno fisiológico decorrente de uma sensibilidade nervosa especial a estímulos sensoriais ditos “hipnogênicos” [7]. Para ele, a teoria da sugestão de Bernheim nada explicava, e não se embasava em nenhum mecanismo conhecido a não ser em sua sua própria definição. Lièbeault, Bernheim, Wetterstrand, e outros grandes hipnotistas da época tinham sucesso com a sugestão principalmente porque só hipnotizavam em grupos (o que favorece a hipnose pela identificação inconsciente ou “imitação”), fato que Bernheim mais tarde também reconheceria [2]. O sucesso destes hipnotistas dependia em grande parte da atmosfera sugestiva dos seus ambientes de tratamento, do millieu, do estado receptivo dos pacientes e, finalmente, do prestígio que o hipnotista gozava entre a sua clientela [13].

Considerando sempre que a reação à hipnose é uma característica individual, fato que Bernheim iria concordar posteriormente [2]. Freud indicava a hipnose nas seguintes situações, que continuam sendo válidas até hoje: 1. Em geral, evita-se a hipnose em doenças exclusivamente orgânicas, usando este método preferencialmente nas doenças nervosas de natureza funcional, nos distúrbios psíquicos não psicóticos e na dependência de substâncias tóxicas; 2. Entretanto, numerosos sintomas de origem orgânica são acessíveis à hipnose; 3. A hipnose pode servir para diagnóstico diferencial entre um fenômeno histérico e um processo neurológico lesional [14]. Ele acrescenta, ainda, que a hipnose tinha uma vantagem no tratamento das neuroses, já que permitia que o paciente falasse livremente sobre os seus problemas e recordasse fatos associados a eles, ao mesmo tempo que o médico lhe infundia sugestões de calma e tranqüilidade [14].

Em sua clínica, ele aplicava o tratamento hipnótico nas chamadas neuroses histéricas, reconhecendo não ter o mesmo sucesso nas neurose de angústia e neurastenias, às quais atribuía, respectivamente, como fatores causais, a frustração sexual e a masturbação excessiva (neste ponto Freud não era diferente dos sexólogos da sua época). Somente o histérico sofria de memórias reprimidas: “0 histérico entra em hipnose profunda e, neste estado, pode recordar aquilo que está fora [dissociado] da sua consciência ou seja, a circunstância onde pela primeira vez apareceu o sintoma. Esta única recordação cura o sintoma” [13]. Freud e Breuer defendiam então que o histérico so-fria de reminiscências, e que estas reminiscências eram o elemento traumático na histeria [4]. A preferencia de Freud pela rememoração, que ele achava mais eficaz que a sugestão, levou-o a abandonar gradualmente a terapia sugestiva, à medida que começa a perceber a dinâmica do recalque na formação do inconsciente da histeria e a articulação dos sintomas a partir desta formação. Mais tarde ele constatou que as reminiscéncias traumáticas, frutos da realidade psíquica do paciente e não da realidade em si, podiam ser recordados sem hipnose, através da associação livre dos pensamentos. O paciente relaxava distendido sobre um divã, Freud pousava a mão na sua testa e sugeria relaxamento e afrouxamento dos pensamentos, e em seguida pedindo-lhe para relatar suas problemas ao mesmo tempo que deixava idéias fluírem espontaneamente à medida que falava, pedindo para relatar estas idéias sem censura ou julgamento, mesmo as que julgasse sem importância. Chamou este método de “associação de idéias”, método, aliás, popular na época entre artistas e escritores. Entretanto, o que vemos aí nada mais é que uma indução de hipnose, sem preocupação de transe profundo, mas uma forma de hipnose que só décadas mais tarde seria conhecida [5, 8]. Freud, ainda preso à idéia de que hipnose era uma estado caracterizado por transe profundo e sintomas clássicos deste estado, talvez não tenha percebido que apenas ampliara o conceito deste estado [10], e a sua influência sugestiva, sua presença e seu entorno, permanecia como ingrediente secreto da sua terapia [19].

A psicanálise terapêutica era, portanto, uma forma de hipnose em que a sugestão havia sido abandonada definitivamente e substituída pela livre associação de idéias, mas o influxo sugestivo poderoso do hábil hipnotizador permanecia [20]. A hipnose ortodoxa, método de intervenção autoritária e ativa por parte do médico, cedia lugar a uma terapia onde o paciente era a parte ativa, e o médico apenas uma espécie de guia, passivo. Freud criou a psicoterapia ativa, mas a hipnose continuava, agora como transe superficial, cujo poder terapêutico é tremendo [5, 8, 9, 11]

A arte de um mestre

Freud hipnotizava pela fixação do olhar, e se o paciente não respondesse a este método após cerca de um minuto, ele acrescentava sugestões de relaxamento, sono e repouso. Esta é basicamente a técnica de Braid, o fundador da hipnose moderna [3]. Se o paciente não reagisse a este método, ele partia para outros estratagemas, pois, para se hipnotizar uma pessoa deve-se levá-1o a “fixar sua atenção numa dada sensação persistente e conduzi-lo ao estado de adormecimento por uma seqüência de associações de pensamentos” [14], tais como pálpebras pesadas, vontade de relaxar, distender, etc. Ele recomendava ser breve e seguro ao se fazer um desafio (ex.: impossibilidade de abrir os olhos) durante a indução hipnótica, procurando não dar tempo ao sujeito para testar o que lhe é sugerido. Para despertar o paciente, implantava a sugestão, já na primeira sessão, que assegurava ao paciente que nas próximas sessões despertará sempre bem disposto, calmo e sem dores de cabeça [14]. Para Freud, o único perigo da hipnose era o de neuróticos graves que após serem hipnotizados, poderiam repetir espontaneamente a hipnose e provocar algum acidente (vemos aqui, mais uma vez a influência de Charcot). Para evitar isto, o médico deve proibir-lhes de entrar em estado hipnótico sem o seu conhecimento [14].

Freud recomendava não obrigar o paciente a aceitar a hipnose, pois, sabia como a resistência do paciente ao terapeuta podia malograr todos os esforços dirigidos ao seu tratamento. Se o sujeito teme a hipnose, isto produzirá efeitos desagradáveis decorrentes da angústia e do pânico em sentir que sua vontade está sendo dominada; se ele resiste, deve-se abandonar as tentativas de hipnotizá-lo até que ele aceite a idéia de ser hipnotizado; e se for o caso do paciente declarar não acreditar na hipnose, deve-se pedir-lhe a colaboração e explica-lhe que a hipnose não depende de crença [14]. Freud observa que as pessoas que desejam muito serem hipnotizadas são difíceis de sê-lo, e isto discorda da opinião popular segundo a qual a “fé” é o segredo da hipnose. [14] Finalmente, ele opina que não há vantagem em começar um tratamento médico pela hipnose, sendo mais prudente conquistar a confiança do paciente e deixar que sua desconfiança e criticismo se neutralizem, antes de propor-lhe a hipnose [14]. Estas e outras observações mostra como Freud tinha domínio sobre a hipnose, conhecendo profundamente suas estratégias e limitações, consequentemente, emoldurando uma prática criteriosa e bem sucedida.

Freud não achava necessário avaliar o grau de hipnose do paciente, senão apenas avaliar se ele atingiu o estado hipnótico, usando provas de catalepsia, flexibili-dade, etc. Entretanto, reconhecia que “...não há procedimento conhecido que possa levar o sujeito a este estado, pois, isto depende do paciente, e não do médico” [14]. Em função disso, o médico deveria descartar a terapia hipnótica se “...após três ou seis sessões não se consegue resultados somáticos (catalepsia, flexibilidade, anestesia) que comprovem a hipnose...” [14]. Entretanto, o médico não se deve deixar levar pelas aparências, pois, “mesmo que o paciente reaja e diga que não está hipnotizado, verifique se mesmo assim ele esta cooperando, e se isto estiver ocorrendo, então ele ainda esta sob a influência sugestiva do médico” (14). Por esta razão, o hipnotista não deve se deixar intimidar pelas reações do paciente, nem interpretar isto como resistência, mas ignorar a reação e prosseguir no seu trabalho se o paciente ainda estiver cooperando, ou seja, dispondo-se a seguir suas instruções mesmo que aparentemente contrariado.

Ele, contudo, acreditava que o transe sonambúlico assegurava êxito na sugestão. Para caracterizar o transe sonambúlico, era suficiente verificar se o paciente, ao despertar, retinha ou não a memória do que lhe foi dito durante a hipnose A constatação de amnésia pós-hipnótica era para ele suficiente para caracterizar o transe sonambúlico. As provas de catalepsia, flexibilidade e anestesia, embora comprovassem o estado hipnótico, não certificavam a sugestionabilidade do paciente. Assim, na concepção da época, se o paciente apresentasse amnésia pós-hipnótica, isto assinalava uma maior probabilidade de êxito na sugestão [8]. Ele abandonaria este radicalismo ao constatar que o sucesso da terapia hipnótica não estava ligada à profundidade do transe [Camara].

O interesse de Freud no transe sonambúlico devia-se também aos fenômenos psíquicos e neurológicos que serviam para a investigação experimental do chamado “estado segundo”, expressão popularizada por Azam [1] para designar as personalidade secundária na época comumente observada nos estados histéricos, ou artificialmente produzidas no sonambulismo hipnótico, que Freud e Breuer consideravam uma forma de expressão da mente inconsciente. Freud costumava usar este estado para perguntar ao paciente sobre a origem dos seus sinto-mas e o era preciso fazer para obter a cura. Ora, Freud apenas repetia os experimentos do marquês de Puységur [18] numa dimensão , que em 1784 descobrira o transe sonambúlico e iniciou as observações que culminariam com a formação da doutrina do hipnotismo de James Braid [3], em 1841. Freud não era simpático à sugestão, e procurava elucidar os reais mecanismos psíquicos responsáveis pelos sintomas, os quais, uma vez descobertos, podiam ser desmontados. O tratamento sugestivo era incerto e não se tinha indicação alguma se iria funcionar ou não, o que ameaçava a reputação do médico. Por esta razão ele aconselhava que se tentasse a terapia hipnótica por um período breve, pois, se o tratamento for demorado ele tende a falhar porque diminui as expectativas do paciente em ser curado.

Em sua prática hipnótica, Freud usava a terapia por sugestão ou a terapia por regressão. Se o paciente não fazia um transe sonambúlico, ele optava por sugestões terapêuticas e calmantes, seja por via verbal direta ou indireta, e tinha por método mostrar ao paciente, ainda em hipnose, como os seus sintomas desapareciam, esperando com isso convencê-lo que seu problema era unicamente nervoso. Ele tocava a região afetada com a mão, e condicionava o alívio ao seu toque, perguntando ao paciente se o sintoma tinha melhorado, então, logo após a resposta afirmativa do paciente, respondia que isto ocorrera por que o sintoma era nervoso e não orgânico, e concluía com a sugestão: “e agora que você sabe disso, o [sintoma] não pode mais incomodá-lo”. Nota-se aqui a falta da elucidação da motivação psicogênica, mas a experiência acumulada desde então tem provado que tal forma de terapia é eficaz, sempre que a personalidade do indivíduo não esteja comprometida. Nos sintomas conversivos a sugestão deveria ser dada de imediato, mas nas outras formas de distúrbio, a sugestão deve ter um período de incubação (latência) para dar resultados satisfatórios, particularmente nos sintomas rebeldes (o médico deve definir um período ou uma circunstância em que a cura se concluirá). Finalmente, a sugestão deve ser dada com segurança, uma vez que qualquer indício de dúvida será percebido pelo paciente hipnotizado, que explorará desfavorável mente este ponto [14].

Entretanto, se o paciente apresentava transe sonambúlico, a terapia regressiva estava indicada, ou seja, a ação do hipnotista deveria conduzir seu paciente ao esclarecimento da origem dos seus sintomas, fazendo emergir memórias reprimidas associadas ao mesmo. Pedia-se ao paciente para recordar sob hipnose as lembranças que ele recalcara, e como estas memórias eram protegidas pela amnésia pós-hipnótica (o recalque), dizia-se ao paciente para lembrar-se delas ao sair do transe. Esta recordação esclarecia a causa (motivacional) dos sintomas (fator simbólico), ao mesmo tempo que se abreagia as emoções represadas (fator energético) junto com a lembrança. Esta “psicocatarse” geralmente curava o indivíduo, exceto se a sua personalidade estivesse seriamente comprometida. Freud concluía dizendo ainda a fórmula: “e agora que você sabe disso, o sintoma não pode mais incomodá-lo”.

A existência de memórias reprimidas como suposto fator patogênico na gênese da histeria foi compartilhada por Freud e seu mentor, Joseph Breuer, por algum tempo, resultando numa prolífica colaboração [4]. Esta foi a origem da teoria do trauma, que já no seu início gerou uma controvérsia entre estes dois médicos quanto à sua origem, mesmo quando os princípios da primeira versão da psicodinâmica (o recalque como defesa da angústia; o sintoma como retorno do recalcado) já haviam sido esboçados por ambos no célebre trabalho sobre a histeria [4]. Freud esboçava que a lembrança traumática da histeria devia-se a uma experiência vivenciada na infância sob um afeto negativo muito intenso, enquanto Breuer defendia que isto dependia de estados hipnóticos espontâneos e não necessariamente de uma experiência afetivamente traumática. A teoria de Breuer nunca deixou de existir, e ainda hoje é uma escola hipnológica, mas Freud evoluiria da teoria do trauma infantil como determinante nas neuroses para a sexualidade infantil e o complexo de Édipo, elaborando uma nova teoria das neuroses e estendendo sua nova versão da psicanálise para além do âmbito médico e terapêutico.

Após emancipar-se intelectualmente de Breuer, Freud procurou separar sua doutrina dos conceitos de Pierre Janet, cuja doutrina está presente na sua fase de colaboração com Breuer (“dissociação da consciência”, “automatismos mentais”, “abaissement du niveau mental”, “double conscience”, etc). A diferença essencial entre as teorias de Janet e de Freud era que este não admitia que a histeria fosse uma deficiência da capacidade de integração psíquica das experiências pessoais, mas uma defesa contra um conflito entre uma pulsão instintiva e uma censura convencionalmente estabelecida pela sociedade e educação. Também o método psicocatártico de Breuer e Freud, tinha semelhanças com o método de reassociação de Pierre Janet, cabendo a este a anterioridade do método. Janet acusava Freud de ter transformado “uma observação clínica e um procedimento terapêutico de indicações precisas e limitadas”, em um “enorme sistema de filosofia médica”, a seu ver desnecessário e pedante [17]

Freud e a teoria da sugestão

Na época em que Freud iniciou sua clínica, a hipnose era a única forma de psicoterapia conhecida, e utilizada para tratamento psíquico de qualquer doença, anímica ou orgânica, por meios psíquicos, e não apenas o tratamento de doenças psíquicas [8]. Dominava a sugestão hipnótica como instrumento psicoterapeutico, mas Freud não achava a teoria da sugestão um conceito seguro, pois, na prática, a teoria decepcionava: “enquanto (Bernheim) explica mediante a sugestão todos os fenômenos do hipnotismo, a própria sugestão permanece inteiramente inexplicada e é obscurecida por uma demonstração que não necessita de explicação” [12]. Freud, que foi a Nancy aprender a técnica de Bernheim, explicava que este chamava “sugestão” a “toda influência psíquica eficaz de uma pessoa sobre outra”, e “sugerir” ao uso de “todos os meios possíveis para influir psiquicamente sobre alguém” [13]. Ele criticava Bernheim por dizer que “tudo se explica pela sugestão”, enquanto a sugestão era um conceito que se explicava somente por si mesmo.

Freud, que também foi discípulo de Charcot, e neurologista como seu mestre, não aceitava a universalidade da teoria da sugestionabilidade de Bernheim, sendo taxativo ao afirmar que na hipnose outros fenômenos nervosos estão presentes, além da sugestionabilidade. Com isso ele defendia abertamente Charcot, e acrescentava estar convencido que “os fenômenos histéricos são regidos por leis (neurológicas)”, e que os prin-cipais aspectos da histeria “não são originários de sugestões” [12], como supunha Bernheim. Se isto fosse verdade, como explicar a universalidade dos fenômenos básicos do histerismo, que são os mesmos observados em todas as épocas e países? E até mesmo o transfert que muitos achavam ser um fenômeno sugestivo, Freud considerava como sendo um fenômeno autêntico derivado de uma acentuada polarização da sensibilidade nervosa no histerismo [12]. “Em sua essência, a sintomatologia da histeria é real e objetiva, não sendo forjada pela sugestão por parte do investigador. Isto não significa negar que o mecanismo da histeria seja psíquico, mas não se trata de efeito de sugestão (involuntária) por parte do médico” [6]. Este mecanismo psíquico, e não a sugestão, já era antevisto por Freud, e suas investigações a esse respeito o levaria a descobrir, junto com Breuer, a psicodinãmica da neurose histérica (4).

Freud prossegue sua crítica ao reducionismo de Bernheim citando a hiperexcitabilidade muscular como um autêntico fenômeno neurológico da hipnose, incapaz de ser simulado ou produzido por sugestão, conforme já havia demonstrado Charcot [12]. Também concordava com Preyer e Binswanger que afirmavam poder a hipnose ser induzida por via psíquica ou por via fisiológica (fixação prolongada do olhar, persistência de um som monótono, imobilidade forçada dos animais, etc [12], e citava ainda o fato, bem conhecido dos que praticam a hipnose, que neste estado há uma tendência do sistema muscular à catalepsia, fenômeno de natureza fisiológica, e não psicológica [12].

Ele acreditava haver uma explicação psicodinãmica para a sugestão, e distinguia uma sugestão verbal ou direta, nos moldes de Bernheim, e uma sugestão somática ou indireta, que, embora ele não declare, coincide claramente com a opinião de Charcot sobre a gênese da histeria traumática. Senão vejamos: Freud dizia que um estímulo somático é um meio não verbal para produzir uma auto-sugestão, segundo o estado psíquico em que a pessoa se encontra, e exemplificava isto como a causa das paralisias histéricas segundo a idéia que o sujeito fazia de um trauma banal, exagerando interiormente sua gravidade (esta idéia era compartilhada com Breuer). Isto se evidenciava ainda mais quando se constatava que as paralisias histéricas não afetava a inervação real dos músculos, mas a parte do corpo segundo a idéia que o/a histérico(a) fazia do que seria uma paralisia (realidade psíquica versus realidade em si). Portanto, Freud acreditava que esta tendência para autosugestões inconscientes, geradas por acontecimentos externos, era a base da psicogênese da histeria, e não a sugestionabilidade de Bernheim. Ora, esta era uma idéia de Charcot, compartilhada também por Breuer, e seria o evento inaugural para a psicodinâmica Freudiana. Freud jamais deixaria de reconhecer este débito para com Charcot, mesmo distanciando-se posteriormente de suas idéias embora, talvez, jamais tenha deixado de pensar nelas.

Freud revisaria esta teoria uma vez mais, explicando o histerismo como um estado em que idéias antitéticas reprimidas emergem como espécie de entes autônomos por ocasião de tensão e angústia, apoderando-se da mente e do corpo do paciente, como se fossem demônios [14]. Explicava assim os delírios histerodemonopáticos das religiosas enclausuradas, nas famosas epidemias de possessão na Idade Média e no século XVII, delírios onde blasfêmias vi-olentas, obscenidades e linguagem erótica, eram proferidas justamente por aquelas pessoas reprimidas sob rigorosa moral religiosa. Charcot já havia observado isto, e chamava a atenção para o fato de serem justamente as pessoas mais educadas e bem comportadas que mais sofrem ataques histéricos e que nestes ataques dão vazão a todo tipo de rebeldia, má conduta, ataques verbais, etc, liberando tudo aquilo que são obrigadas a reprimirem. Freud, a partir disto, ampliou o conceito da crise histérica como uma forma de descarga nervosa contra o excesso de tensão (angústia) acumulada [4]. Este foi outro débito para com Charcot.

Notamos, portanto, que a teoria do recalque já estava em estado embrionário nos experimentos de Freud com a hipnose, e foi esta obscura ciência, a magia negra da medicina, com ele gostava de chama-la, a mãe e nutriz da jovem psicanálise. Mas esta mãe, que julgava-se morta após o parto desta criança Edípica, voltava para assombrar o zeloso pai de vez em quando, obsedando alguns de seus discípulos como Ferenczi, que ousou declarar sua paixão pela hipnose ao mestre. O que ele recalcou para edificar sua nova e complexa doutrina, insistia em retornar. A maioria dos seguidores de Freud, em sua época, tinha sido praticante do hipnotismo, e continuava a praticar a “Arx Nigra” longe do olhar do mestre, sempre que a ocasião o pedia. E o próprio Freud, no final de sua jornada, finalmente admitiu que “talvez o ouro puro da análise esteja ligado ao metal mais básico da sugestão” [16].

Bibliografia

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