Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2002 - Vol.7 - Nº 11

História da Psiquiatria

Mulheres na Medicina e na Psiquiatria Brasileira (Primeira Parte)

Dr. Walmor J. Piccinini

É marcante a visibilidade da mulher em todas atividades humanas. Parece a coisa mais natural do mundo. Se olharmos para a História, veremos que isso não aconteceu por acaso. As mulheres tiveram que enfrentar uma árdua luta, em que todas as armas foram contra elas utilizadas. Da fogueira ao desprezo, da violência pura a intimidação, tudo era válido para impedi-las de exercer atividades supostamente pertencentes aos homens. Em 1999 foi publicado robusto volume sobre História das Mulheres no Brasil. Editora da Unifesp e Contexto. Organização da Professora Mary Del Priori e com seleção de textos da Dra Carla Bassanezi. Entre os colaboradores está a Professora de História da U. F. Fluminense Magali Engel com interessante capítulo Psiquiatria e Feminilidade. (Mesmo fazendo restrições às concessões iniciais foucaltianas adotadas por certo grupo ideológico que prefere ver a psiquiatria como uma prática de apropriação da loucura, o artigo é rico nas relações do pensamento médico e o viés cultural). Não é meu objetivo analisar o citado livro, aparentemente foi deixado de lado um aspecto importante da luta das mulheres para a sua emancipação que foi a conquista da Universidade. Não vamos aqui iniciar uma guerra dos sexos, vamos apenas relatar a saga das mulheres para poder exercer a Medicina e mais particularmente a Psiquiatria.

Seguindo uma linha adotada em outros trabalhos, além de material específico, vamos utilizar o Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria e, os trabalhos publicados por mulheres nele registrados. Nessa primeira parte do meu trabalho analisaremos a bibliografia de 1831 a 1979. Temos 4655 trabalhos e apenas 197 por mulheres. Uma constatação inicial é de que as mulheres estiveram ausentes da fase da psiquiatria asilar. Não temos referência de mulher alienista. Os primeiros trabalhos foram em sua maioria por enfermeiras e psicólogas e o enfoque era psicanalítico. Podemos citar: Juana M. Lopes, Anita Barreto Paes em Pernambuco, Helena Antipoff em Minas Gerais, Virgínia Bicudo em São Paulo. Esta última era Assistente Social e psicanalista. As primeiras médicas que aparecem com publicações foram as Dras. Waldyra Almeida e a Doutora Marialzira Perestrello.

Como agradecimento, registro, o nome da poetisa gaúcha Diva Machado Pereira Kaastrup de cujo livro "A mulher na Medicina", extraí muitas informações. O livro foi editado em 1983 pela Martins Livreiro de Porto Alegre e homenageava as médicas gaúchas.

Achei-o numa das minhas visitas a sebos de Porto Alegre, com dedicatória a um tal Donato que a autora considerava "Amigo", pelo menos assim estava escrito na dedicatória. Mal sabia ela que o Donato, ou seus descendentes, seriam meus amigos, colocando o presente à venda e com isso permitindo que descobrisse seu interessante trabalho

O livro é dedicado ao Imperador D.Pedro II por ter aberto as portas das Faculdades Brasileiras à mulher. Decreto 7247 de 19 de abril de 1879. Curiosa coincidência, dia 19 de abril é dia do índio e poderia ser o dia da mulher universitária.

"Muitas mulheres foram estimuladas a cursar a Faculdade, quando em 19 de abril de 1879, através da Reforma Leôncio de Carvalho, o Decreto 7247 - artigo 24 de seu Regulamento, conferiu '''a liberdade e o direito de a mulher freqüentar os cursos das Faculdades e obter título acadêmico.'' (Silva, Dr. Alberto, p.52)"

Vamos nos ater apenas á Medicina e a Psiquiatria

A primeira mulher brasileira formada em medicina foi a Dra. Maria Augusta Generoso Estrela.(1860-1948). Muito jovem, ganhou uma bolsa do Imperador D.Pedro II e foi estudar em Nova York. Maria Augusta nasceu em 10 de abril de 1860, ingressou na Academia de Medicina em 1876 com 16 anos e terminou o curso em 1879. Só pode receber o diploma de médica em 29 de março de 1881 quando completou a maioridade.

Maria Augusta voltou ao Brasil em 1882, revalidou seu diploma e teve intensa atividade médica até sua morte em 1946.

Foi a primeira brasileira e a primeira sul-americana a formar-se em Medicina.

A segunda foi a Dra Eloisa Dias Inzunza do Chile (1866).

A terceira foi a Dra. Rita Lobato Velho Lopes. Ela era natural de Rio Grande, RS e formou-se pela Fac. de Medicina da Bahia em 1887.

A primeira médica Argentina foi a Dra. Cecília Guierson, nascida em Buenos Aires em 1859 e formada pela Universidade de Buenos Aires em 1889.

A primeira médica uruguaia foi a Doutora Paulina Levisé, nascida em 1878 e formada em 9 de março de 1808 pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Montevidéu.

A primeira médica americana, na verdade era uma inglesa, a Dra. Elizabeth Blakwell nascida em Bristol, em 1821 e que foi para os Estados Unidos onde se formou em Nova York. Em 1857, na Filadélfia, ela fundou a primeira Escola de Medicina para Mulheres.

Segundo o Doutor Vanberto Moraes, psiquiatra Pernambucano e autor da "Emancipação da Mulher", a primeira inglesa a graduar-se em Medicina foi a Dra. Elizabeth Garret Anderson (Garret-Smith) em 1880 pela Universidade de Londres. Na Itália a primeira foi a Dra. Maria Montessori formada em 1896. Na Espanha a Dra Marina Castelo y Ballestre em 1882.

A primeira mulher formada por Faculdade oficial teria sido a Doutora Dorotéa Cristina Erxleben em 1754 na Faculdade de Medicina de Halle.

Algumas mulheres famosas na área biomédica não eram médicas e sim enfermeiras. É indiscutível que seu maravilhoso trabalho abriu muitas portas às mulheres, refiro-me a Florence Nightingale (Guerra da Criméia -1855) na Inglaterra e a baiana Ana Nery no Brasil. (Guerra do Paraguai -1865-1870).

As primeiras médicas brasileiras merecem nossa admiração pela tenacidade e competência demonstrada. Não era fácil vencer as barreiras masculinas da época. Vamos lembrar mais alguns nomes e suas histórias.

http://www.fotonadia.art.br/ritalob/rita.htm

Rita Lobato na concepção do artista Vitório Gheno

 
Faculdade de Medicina da Bahia

Como já registramos, a primeira médica a formar-se no Brasil foi a Dra. Rita Lobato Velho Lopes, ela era gaúcha, natural de Rio Grande, nascida em 10 de maio de 1867 e falecida na cidade de Rio Pardo, RS em 6 de janeiro de 1954. Iniciou os estudos médicos no Rio de Janeiro e terminou-os na Fac.De Medicina da Bahia em 1887. (Essa mudança teria sido feita para evitar perseguição política, pois o irmão de Rita era anarquista e mal visto pelos professores no Rio de Janeiro).

Um ano depois, formou-se a Doutora Ermelinda Lajes de Vasconcellos, também, nascida no RS, em Porto Alegre e formada na Fac. do Rio de Janeiro em 1888.

A terceira a formar-se no Brasil foi a Dra, Antonieta Cesar Dias, formada no RJ em 1889.

A primeira médica cearense formada na Bahia em 1890, foi a Dra. Amélia Pedroso Benabien. A Doutora Ephigênia Veiga foi à primeira bahiana a formar-se em Medicina em 1890, pela Fac. de Med. Da Bahia. Também formada na Bahia, a Dra. Maria Amélia Florentino Cavalcanti, foi à primeira pernambucana médica. A Dra. Maria Salce de Macedo foi a primeira médica do Paraná a se formar.

Em São Paulo, em 1913, ocorreu a fundação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, na sua primeira turma de 1919 estavam duas mulheres, as Dras Adélia Ferraz e Odette Nora de Azevedo.

No Rio Grande do Sul a primeira mulher a se formar na Fac. de Medicina de Porto Alegre foi a /dra. Alice Mäffer em 1904. Casou com um colega médico e esse exigiu que ela se dedicasse ao lar e ela assim o fez. Uma mulher notável foi a Dra Maria Renotte (1852-1942), Belga de nascimento, paulista e brasileira pelo coração. Sua história merece um capítulo especial, sugiro que visitem: http://sites.uol.com.br/cucamott/rennotte.htm 

As primeiras médicas

Em 1887 se titulam as primeiras médicas latino-americanas: Eloisa Díaz Insunza de Chile, Rita Lobato Vello Lopes de Brasil y Matilde Montoya de México.

Nome

País

Ano

 

Cecília Gierson

Argentina

1889

Amélia Chopitea Villa

Bolívia

1918

Rita Lobato Velho López

Brasil

1887

Emily Jennings Stove

Canadá

1867

Laura Martínez De Carvajales

Cuba

1889

Eloisa Díaz Insunza

Chile

1887

Elizabeth Blackwell

Estados Unidos

1909

Matilde Montoya

México

1893

Laura Esther Rodríguez

Peru

1900

Paulina Luisi

Uruguai

1908

LYDIA SOGANDARES

PANAMÁ

1934

Datas marcantes sobre a emancipação da mulher podem ser encontradas em: http://www.cedim.rj.gov.br/pesqTexto.asp?ident=5

Nas publicações psiquiátricas, os primeiros trabalhos assinados por mulheres aconteceram na década de 1930. Dividimos em décadas para destacar a progressiva participação das mulheres e deixaremos para uma segunda parte os trabalhos mais recentes.

1930-1949 = 17 artigos

1950-1959 = 28 artigos

1960-1969 = 48 artigos

1970-1979 = 101 artigos.

No final dos anos 50 e início dos anos 60 começam a surgir os Cursos de Formação em Psiquiatria, as Residências Médicas e o aumento explosivo do número de Escolas Médicas.

As publicações, antes restritas a enfermeiras, a psicólogas e a psicanalistas, começa a receber a contribuição de médicas com formação em psiquiatria. Nos anos 80 as pós-graduações alteram de forma definitiva a formação dos especialistas, mas isso será objeto da continuação deste artigo.


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