Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Agosto de 2002 - Vol.7 - Nº 8

História da Psiquiatria

Afrânio Peixoto (1876 – 1947)

Dr. Walmor J. Piccinini

Um psiquiatra na Academia Brasileira de Letras

Introdução

Seria muita pretensão de minha parte estabelecer verdades sobre o passado apenas com as publicações que chegaram ao meu alcance. As biografias, quando existem, são limitadas a elogios ou ataques desproporcionados. Afrânio Peixoto foi um homem de idéias e opiniões apaixonadas. A lucidez, o espírito crítico e a independência de pensamentos foram algumas das qualidades de Afrânio Peixoto. Em certos momentos foi feliz, quando criticou idéias de Lombroso relacionando epilepsia ao crime ou de Legrand du Saulle sobre a graduação penal dos epilépticos. Seu livro Elementos de Medicina Legal de 1911 sistematizou e aplicou as aquisições da psicopatologia geral e da clínica psiquiátrica ao estudos dos doentes mentais. Seu livro de Psicopatologia Forense editado pela Francisco Alves, teve 7 edições em duas décadas e vendeu cerca de 23 mil exemplares. Como presidente da Academia Brasileira de Letras negociou a doação do "Petit Trianon" da França para ABL. Um momento infeliz foi sua disputa com Carlos Chagas ao qual prejudicou diminuindo e desacreditando seu trabalho de pesquisa que redundou na descoberta da Doença de Chagas.

Dados biográficos

No dia 14 de dezembro de 1876 nascia em Lençóis, nas Lavras Diamantinas da Bahia, Júlio Afrânio Peixoto. Na foto aparece a casa onde nasceu e que hoje, é o Museu Afrânio Peixoto. Formou-se em Medicina na Faculdade de Medicina da Bahia e sua tese de doutoramento foi Epilepsia e Crime. O Prof. Isaías Paim em artigo publicado na revista Brasiliense de Psiquiatria Vol.1 (1) 1971 sob o título Desenvolvimento da Psicopatologia forense no Brasil, considera-o como "fundador da psicopatologia forense em nosso país".

Nosso biografado foi um homem múltiplo, alienista, médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista, historiador literário, acadêmico, polemista.

De várias fontes extraímos dados de sua família. Foram seus pais o capitão Francisco Afrânio Peixoto e Virgínia de Morais Peixoto. O pai, comerciante, autodidata, transmitiu ao filho os conhecimentos que auferiu ao longo de sua vida. Lá no interior da Bahia não poderia sequer imaginar que em 1910 o filho seria eleito para a Academia Brasileira de Letras na cadeira de Euclides da Cunha.

Na Faculdade de Medicina da Bahia aproximou-se de Juliano Moreira e em 1902 foi por ele convidado para mudar-se para o Rio de Janeiro. Sua vida, como de tantos outros médicos, oscilava entre a prática clínica e os pendores literários.

"A sua estréia na literatura se deu dentro da atmosfera do simbolismo, com a publicação, em 1900, de Rosa mística, curioso e original drama em cinco atos, luxuosamente impresso em Leipzig, com uma cor para cada ato. O próprio autor renegou essa obra, anotando, no exemplar existente na Biblioteca da Academia, a observação: "incorrigível. Só o fogo."

No Rio de Janeiro, foi inspetor de Saúde Pública (1902).Diretor do Hospital Nacional de Alienados (1904). Após concurso, foi nomeado professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1907) e assumiu os cargos de professor extraordinário da Faculdade de Medicina (1911); diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro (1915); diretor da Instrução Pública do Distrito Federal (1916); deputado federal pela Bahia (1924-1930); professor de História da Educação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (1932). No magistério, chegou a reitor da Universidade do Distrito Federal, em 1935. Após 40 anos de relevantes serviços à formação das novas gerações de seu país, aposentou-se. Faleceu no Rio de Janeiro em 12 de janeiro de 1947.

Entre 1904 e 1906 viajou por vários países da Europa, com o propósito de ali aperfeiçoar seus conhecimentos no campo de sua especialidade, aliando também a curiosidade de arte e turismo ao interesse do estudo. Nessa primeira viagem à Europa travou conhecimento, a bordo, com a família de Alberto de Faria, da qual viria a fazer parte, sete anos depois, ao casar-se com Francisca de Faria Peixoto. Em 1906, submeteu-se às provas do concurso em que ganharia as cadeiras de Medicina Legal e Higiene. Quando da morte de Euclides da Cunha (1909), foi Afrânio Peixoto quem examinou o corpo do escritor assassinado e assinou o laudo respectivo.

Ao vir ao Rio, seu pensamento era de apenas ser médico, tanto que deixara de incursionar pela literatura após a publicação de Rosa mística. Sua obra médico-legal-científica avolumava-se. O romance foi uma implicação a que o autor foi levado em decorrência de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito à revelia, quando se achava no Egito, em sua segunda viagem ao exterior.

Na Academia, teve também intensa atividade. Pertenceu à Comissão de Redação da Revista (1911-1920); à Comissão de Bibliografia (1918) e à Comissão de Lexicografia (1920 e 1922). Presidente da Casa de Machado de Assis em 1923, promoveu, junto ao embaixador da França, Alexandre Conty, a doação pelo governo francês do palácio Petit Trianon, construído para a Exposição da França no Centenário da Independência do Brasil. Ainda em 1923, deu início às publicações da Academia, numa coleção que, em sua homenagem, desde 1931, tem o nome de Coleção Afrânio Peixoto.

Dotado de personalidade fascinante, irradiante, animadora, além de ser um grande causeur e um primoroso conferencista, conquistava pessoas e auditórios pela palavra inteligente e encantadora. Como sucesso de crítica e prestígio popular, poucos escritores se igualaram na época a Afrânio Peixoto.

Afrânio Peixoto procurou resumir sua biografia o seu intenso labor intelectual exercido na cátedra e nas centenas de obras que publicou em dois versos: "Estudou e escreveu, nada mais lhe aconteceu."

Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Nacional de Medicina Legal, do Instituto de Medicina de Madri e de outras instituições.

Principais obras: Rosa mística, drama (1900); Lufada sinistra, novela (1900); A esfinge, romance (1911); Maria Bonita, romance (1914); Minha terra e minha gente, história (1915); Poeira da estrada, crítica (1918); Trovas brasileiras (1919); José Bonifácio, o velho e o moço, biografia (1920); Fruta do mato, romance (1920); Castro Alves, o poeta e o poema (1922); Bugrinha, romance (1922); Dicionário dos Lusíadas, filologia (1924); Camões e o Brasil, crítica (1926); Arte poética, ensaio (1925); As razões do coração, romance (1925); Uma mulher como as outras, romance (1928); História da literatura brasileira (1931); Panorama da literatura brasileira (1940); Pepitas, ensaio (1942); Obras completas (1942); Obras literárias, ed. Jackson, 25 vols. (1944); Romances completos (1962). Além dessas, publicou obras de outros autores e numerosos livros de medicina, história, discursos, prefácios. http://www.academia.org.br/imortais.htm

Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Nacional de Medicina Legal, do Instituto de Medicina de Madri e de outras instituições

Afrânio foi o introdutor no Brasil do Haicai

Arte de Resumir

O ipê florido,

Perdendo todas as folhas,

Fez-se uma flor só.

Perfume Silvestre

As coisas humildes

Têm seu encanto discreto:

O capim melado...

JÚLIO AFRÂNIO PEIXOTO e sua produção literária:

- Rosa mística, 1900;
- Lufada sinistra, 1900;
- A esfinge, 1911;

- Maria Bonita, 1914;
- Minha terra e minha gente, 1915;
- Poeira da estrada, 1918;

- Trovas brasileiras,1919;
- Fruta do mato, 1920;
- José Bonifácio, o velho e o moço, 1920;

- Bugrinha, 1922;
- Castro Alves, 1922;
- Dicionário dos Lusíadas, 1924;

- Arte poética, 1925;

- As razões do coração, 1925;
- Camões e o Brasil, 1926;

- Uma mulher como as outras, 1928;
- História da literatura brasileira, 1931;

- Panorama da literatura brasileira, 1940;
- Obras completas, 1942;

- Pepitas, 1942;

- Obras literárias, 25 vols,1944;

- Romances completos, 1962.

A carreira brilhante de Afrânio Peixoto, e seu prestígio no meio científico foi abalada por sua atitude em relação a Carlos Chagas. Para os interessados sugerimos uma visita no site que trata da polêmica sobre a existência ou não da Doença de Chagas http://www4.prossiga.br/chagas/traj/trajtext/pol/pol1.html

Da Reportagem publicada na Folha de São Paulo em 7 de fevereiro de 1999.

Por Marília Cordeiro. O Nobel Perdido (Carlos Chagas teve quatro indicações ao prêmio máximo da medicina)

O "grupo anti-Chagas"
Cada novo cargo, honraria ou indicação no Brasil reforçava o "grupo anti-Chagas". Não gostavam das idéias de Chagas, dos critérios de mérito que ele e Oswaldo Cruz instituíram, das relações de Chagas com instituições estrangeiras e nem da sua condução dos negócios da saúde pública.
Quando o Departamento de Saúde Pública foi criado, o poderoso Afrânio Peixoto tinha a pretensão de dirigi-lo. Com a nomeação de Chagas, Afrânio tornou-se o mais virulento inimigo do descobridor da tripanossomíase.

Foi Afrânio Peixoto quem, dois anos depois, abriu a chamada "disputa da Academia Nacional de Medicina", em que acusações sérias foram feitas em reunião daquela casa em novembro de 1922.

Chagas solicitou que uma comissão julgasse as acusações que lhe faziam: a de que a doença não era consistente, de que ela não tinha relevância epidemiológica e de que ele próprio não seria nem mesmo o seu descobridor, cabendo o título a Oswaldo Cruz.

A comissão trabalhou de forma turbulenta, de 1922 a 1923. Finalmente, em 6 de dezembro de 1923, a comissão concluiu favoravelmente a Chagas.

Bibliografia psiquiátrica de Afrânio Peixoto no Índice Bibliográfico de Psiquiatria

1. Moreira, Juliano and Peixoto, Afrânio. Classificação das moléstias mentaes do professor Emil Kraepelin. Arq.Bras.De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(2):214-214.

2. Moreira, Juliano and Peixoto, Afrânio. Les Maladie Mentales au Brésil. Comunicação Ao Congresso Int.De Psiquiatria De Amsterdam. 1907.

3. Moreira, Juliano and Peixoto, Afrânio. Les Maladies Mentales dans les Climats Tropicaux(Relatório ao XV Congrès Int. de Médecine). Arq.Bras.De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1927; 2:222-241.

4. Moreira, Juliano and Peixoto, Afrânio. A paranoia e os síndromes paranoides. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(1):5-33.

5. Peixoto, Afrânio. Combate ao alcoolismo e proteção ao álcool motor. Arq. Paulista De Higiene Mental. 1930; 3(5).

6. ---. Crimenes passionales. Archivos De Medicina Legal,Buenos Aires. 1931.

7. ---. Defesa Social contra o Alcoolismo no Brasil. Brasil Médico. 1904; agosto.

8. ---. Epilepsia e Crime. Doutoramento,Tese-Fac.Med.Da Bahia. 1898.

9. ---. Grandes Síndromes Mentais: agitação,depressão,confusão. Form.Bras.Med. 1904.

10. ---. Hospício Nacional de Alienados. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1:106-121.

11. ---. Interdição por toxicomanias. Arq.De Medicina Legal,Lisboa. 1923.

12. ---. Psicopatologia Forense. Rio De Janeiro,Liv.Edit.Francisco Alves. 1938.

13. ---. Violência carnal e mediunidade. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1909; 5(1-2):78-94.

14. Peixoto, Afrânio and Moreira, Juliano. A paranoia e os sintomas paranóides. Brasil Médico. 1904.

15. Peixoto, Afrânio and Moreira, Juliano. La Paranoia légitime, son origene et nature. Relatório Ao 15o Congresso Internacional De Medicina,Lisboa. 1906.


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