Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Abril de 2002 - Vol.7 - Nº 4

História da Psiquiatria

Vivências em Psicogeriatria II: exemplos da literatura e outros

Dr. Walmor J. Piccinini

Neste nosso segundo relato a respeito de idosos e da psicogeriatria, vamos destacar algumas formas de pensar a respeito do assunto. Vamos separá-los por tópicos:

  1. O idoso na literatura e na visão de alguns escritores brasileiros
  2. Algumas opiniões colhidas do Simpósio Regional da World Psychiatric Organization realizado em abril de 1973 no Rio de Janeiro.
  3. A abordagem psiquiátrica e suas transformações.

O idoso na visão de escritores brasileiros

A presença do tema, Idoso, passou a figurar de forma paulatina e crescente na produção psiquiátrica a partir dos anos 70. Isso se devia a maior visibilidade dos idosos, sua concentração nas grandes cidades e sua problemática existencial. A aposentadoria, por exemplo, era apresentada como grande vilã na gênese de processos depressivos no idoso. O tema ceder lugar aos mais jovens, ideais de beleza, capacidade de amar e de realização sexual eram assuntos tanto de literatura como de explicações psicodinâmicas. Vamos dar alguns exemplos de como o assunto aparecia nos meios literatos. A propósito, destaco uma interessante crônica do nosso poeta maior sobre o assunto.

JB. Rio de Janeiro , Quinta – feira , 16 de Janeiro de 1975

Carlos Drummond de Andrade

Aposentados

 

O escritório especializado organizou e está distribuindo uma relação de personalidades brasileiras que se aposentaram pela Previdência Social, são advogados, médicos , jornalistas , artistas de teatro , cantores, economistas, arquitetos, professores, compositores ... que sei eu? È uma parcela grande de inteligência nacional, da nossa criatividade, que recolheu aos seus aposentos, em obediência ao preceito vetusto segundo o qual, apresentar alguém é ¨ desobrigá-lo de servir ao seu ofício , conservando-lhe a paga ¨ . No menor costume , ¨ isso faz-se em satisfação ¨ , e cabe ao aposentado o direito de ¨ exigir alojamento, sal, lenha, etc. ¨

Passo os olhos na nominata ilustre, encontro nomes queridos , figuras de minha total admiração , e não posso eximir-me de susto. Como? Então eles nos privaram de suas luzes, temos que improvisar um jardim-de-infância intelectual para substitui-los de uma hora para a outra , sabe Deus de que maneira.

Não posso me conformar ao ver mestre Alceu Amoroso Lima longe do papel, mestre Lúcio Costa afastado da prancheta . Se Paulo Mendes Campos não faz mais poemas , nem ensaios, nem crônicas , fico danado da vida com ele. Acho muito esquisito que Afonso Arinos de Melo Franco se tenha eclipsado , ele que mantém uma oficina de idéias . Elizeth Cardoso, a Divina, já não canta? Francisco Mignone deixar de compor? Emudece a gaita de Edu ? Como vou fazer , se Pedro Calmon e José Honório Rodrigues deixam de instruir-me sobre a história do meu País ? E que romances irei ler , se Otávio de Faria, Josué Montello e Adonias Filho não mais os escrevem?

Olha ai o Mário Lago, nem mais autor nem mais compositor : aposentado da Silva . Promoverei um abaixo-assinado para que se casse a aposentadoria de Pontes de Miranda e ele volte a iluminar-mos com seu clarão planetário . Pecado: deixar de compor e de cantar Doríval Caími ! de resto , a turma dos compositores fica irremediavelmente comprometida com a deserção de nada menos de 170 aposentados, se bem contei. De Fernando Lobo a Zé Keti, incluindo compositores procedentes de terra , mar e ar, como Antônio Valentim dos Santos, cabeleireiro; Antônio Pedro de Figueiredo , médico; Nilo Xavier Mota, dentista; George Brass, comerciário ; Valdemar Muniz da Silva, feirante; Alexandre de Vita, representante comercial.

E a voz de Paulo Fortes, recolhida a garganta ? e o maestro Alceu Bocchino, deixando a orquestra sem regente ? E Celso Furtado , a economia sem análises e planejamentos? Guilherme Figueiredo não quer mais saber de teatro , Evaristo de Morais Filho fecha o escritório de advocacia , Millôr Fernandes era uma vez o humorismo, que fazia a gente rir até e principalmente de matéria não risonhas . chega; é demais!

Estava eu imerso em estupor e revolta quando, abrindo o jornal, passando em frente a livraria, estacando junto à porta do teatro, pegando um som no ar, e coisa assim, percebi que todos esses cavalheiros essenciais continuavam felizmente a produzir em nosso benefício . Louvado Deus, a aposentadoria não tem mais o sentido de recolher literalmente o cidadão ao quarto da ociosidade. Não é bastante generosa para garantir sustento de ninguém , após 30 anos de labuta bem documentada. E não sendo, mantém viva a chama da criação. Esporeia, Desafia: Ou te virás ou te machucas.

Verdade seja antigamente era bem pior, trabalhador autônomo ou facultativo não se aposentava. Curtia o batente até cair morto ou esclerosado. Agora já pode contar com um guarda-chuva Tênue , meio furadinho, do INPS , em que o ministro Nascimento Silva procura dar uma grande mexida para o bem geral. E de guarda-chuva aberto , vai cuidando da vida, que não está mole , não.

Os preclaros aposentados que me perdoem Ter feito mau juízo deles, supondo que se transformassem em folgados boas-vidas . Continuem na Linha de frente , trabalhadores prestantes . Aposentadoria é isso : dá direito , não a lenha e sal , mas a trabalho.

Drummond toca na questão básica, a aposentadoria não impede ninguém de continuar a produzir e a ser interessado no mundo que o cerca. Um dos aposentados ilustres, o acadêmico Josué Montello publicou em 1972 um livro com o sugestivo título "A Indesejada Aposentadoria" Editora Ebrasa, Brasília 1972. No mesmo ano Adolfo Bioy Casares, ilustre escritor argentino publicou pela Editora Expresão e Cultura, O Diário da Guerra do Porco. O livro trata da dificuldade em aceitar a velhice. Velho são os outros. O fantástico do livro é que êle situa o drama numa Buenos Aires empobrecida, na miséria e que culpa os velhos aposentados por seus males. São feitos "progroms" em que os velhos são o alvo. Quem acompanha o que acontece em Buenos Aires nos dias de hoje fica espantado com a escrita premonitória deste escritor.

Alguns exemplos literários colhidos numa revisão publicada numa publicação do MPAS Uma análise Sucinta da Relação Idoso / Família na Sociedade Brasileira Atual, Através da Literatura. Zally P. V. Queiroz – SESC / GELTI

A figura do patriarca rural brasileiro, intensamente presente no inicio deste século, é muito bem retratada por Jorge Amado, em sua obra ¨ São Jorge dos Ilhéus ¨ , escrita em 1944 , e que tem como cenário o sertão da Bahia . O Coronel Horácio Silveira, personagem que surge no romance anterior de Jorge Amado - ¨ Terras do Sem Fim ¨ , vive os últimos anos de sua vida num crescente processo de decadência física e isolamento, porém sem abdicar do exercício autocrático do poder político e econômico , traços que sempre marcaram a sua personalidade . Algumas passagens de ¨ São Jorge dos Ilhéus ¨ , relatam bem esses aspectos de uma vida voltada inteiramente á conquista de terras, ao acúmulo de riquezas e á ascensão ao poder político: ¨ o Coronel Horácio Silveira andou com dificuldades , apoiado em bengala de castão de ouro, até a varanda da Casa Grande. Em frente se estendiam, num suceder infinito, as roças de cacau. O Coronel parou na soleira porta que abria para a varanda , a luz do sol violento doía-lhe nos olhos quebrados pelos anos. O negro velho, quando o viu aparecer , tirou o chapéu respeitosamente . Não fio ajuda-lo por que todos os trabalhadores sabiam que o coronel não suportava que o ajudassem . Andava meio se arrastando apoiado naquele bengala antiga , o rosto por vez contraído de dor, os olhos apertados , mais não tolerava que lhe tomassem do braço para auxiliá-lo a andar ¨ ... ¨ Estava quase cego também, mas o negava, dizia que enxergava perfeitamente. Quando alguém o vinha visitar ; deixava que o forasteiro falasse até que o reconhecia pela voz . Então conversando muito , relembrava coisas, discutia os tempos presentes , o preço do cacau , a possibilidade de alta, a política. A política continuava sendo a sua grande paixão . Conservava a chefia de um dos partidos tradicionais da zona, agora novamente no governo. E metido na casa grande da sua imensa fazenda , meio paralítico do reumatismo , quase cego, era o dono da terra do cacau , fazendo e desfazendo autoridades, senhor de milhares de votos , rico de incalculável riqueza , rico de fazer medo como diziam em toda a extensão daqueles municípios ¨ .... ¨ Nas festas que ofereceram por ocasião do seu octagésimo aniversário , falaram muito da sua obra , no processo que ele possibilitara aquela zona , chamaram-no de construtor da civilização . Mais Horácio sentiu-se terrivelmente ferido quando a pretexto de fazê-lo descansar , quiseram entregar a chefia do partido a um homem jovem , um advogado , novo na zona , rapaz de grande habilidade e de maior ambição ¨. Respondendo as homenagens recebidas , num momento que deveria ser de agradecimento, o velho patriarca assim se expressa : ¨ Isso não parece banquete de aniversário . Parece mais um enterro de um homem rico com os parentes brigando pela herança . È mesmo o que parece ¨ . O temperamento despótico do Coronel Horácio e o direcionamento da sua vida exclusivamente á conquista da fortuna conduziram-no ao estado de isolamento e solidão em que vive os seus últimos dias : ¨ Sua velhice era amarga por estas coisas e ele se voltava , cada vez mais , para a sua fazenda. Por último, não ia mais a Ilhéus , vivia na casa grande , dirigindo as colheitas , brigando como os trabalhadores , cuidado somente pela mulata felícia , que nunca o deixaria e que substituíra Ester no leito do coronel enquanto este estivera forças para o amor ... ¨

Há quem lamente na cidade de Ilhéus e de Itabuna que o Coronel Horácio Silveira , o homem mais rico da terra do cacau , o senhor todo poderoso da política, vivia solitário na sua fazenda ... ¨. ¨ Horácio sabe o que dizem , como sabia há 30 anos . das histórias que contavam na sacristia e nos cabarés , Mais sabe também que não está sozinho . Está com os seus cacaueiros , sua roças, os animais que nela vivem , até com as cobras e com as onças que restaram. Está no meio do seu mundo , é um pedaço dele , não está sozinho e triste ¨. O parente mais próximo do Coronel é o seu único filho , com o qual não tem qualquer forma de relacionamento , não tem qualquer tipo de admiração e pelo qual se sente ameaçado , no que diz respeito a suas terras, à sua fortuna ; uma ação movido pelo filho no sentido de receber a sua parte da herança da mãe falecida há muito tempo, constitui a última razão de luta para o ancião : ¨ Passara a agitação , o movimento , então o Coronel envelheceu , corpo e também espirito , sentia-se já incapaz de reger o seu mundo de cacaueiro. ¨ . ¨ Depois daquele artificial rejuvenescimento no ardor da luta , como quem se entregava a velhice , sem outros desejos que o de ouvir desde a varanda da casa grande o canto dos trabalhadores nas barcaças e nas estufa ¨ . Um novo processo, o de insanidade mental, movida a ganho de seu filho , determina a morte do patriarca , antes que fosse obrigado a passar a mãos , a seu ver incompetentes , o produto de toda uma vida dedicada ao trabalho.

Uma outra figura do patriarca , esta convivendo no mesmo teto com uma extensa família de três gerações, uma figura mais humana , e socialmente integrada , é a do Coronel José Paulino , personagem de José Lins do Rego em ¨ Menino de Engenho ¨ , escrita em 1932, mostrando a sua vida em um engenho de açúcar , no interior de Pernambuco . As personagens e as ações são descritas sob a forma de memórias de infância: ¨ Meu avô me levava sempre em suas visitas de corregedor às terras de seu engenho. Ia ver, de perto os seus moradores, dar uma visita de senhor em seus campos. O velho José Paulino gostava de percorrer a sua propriedade, de andá-la canto por canto, entrar pelas sua matas olhar a sua nascentes , saber das precisões do seu povo, dar os seus gritos de chefe , ouvir queixas e implantar a ordem. O velho José Paulino tinha este gosto: O de perder a vista nos seus domínios . Gostava de descansar os olhos em horizontes que fossem seus¨.

Mais especificamente em seu relacionamento familiar, assim é descrita a figura desse patriarca: ¨O meu avô costumava , à noite, depois da ceia, conversar para a mesa toda calada . Contava histórias de parentes e de amigos, dando dos fatos ao mais pitorescos detalhes... ¨ Estas histórias do meu avô me prendiam a atenção de um modo bem diferente daquela velha Totonha. Não apelavam para a minha imaginação, para o fantástico . Não tinha a solução milagrosa das outras . Puros fatos diversos, mais que se gravaram na minha memória como incidentes de eu tivesse sentido. Era uma obra de cronista bulindo de realidade¨ . Um outro papel que se destacava no rol dos que eram exercidos pelo velho Coronel José Paulino, estava o de atender ás mazelas da sua pequena comunidade: ¨ O meu avô passava no meu quarto para me ver, não tinha febre, dizia, ia se embora. A febre, para ele era um grande mal, o seu grande remédio as lavagens. As moléstias do engenho tinham o seu diagnóstico e sua medicina certa, sarampo, bexiga - doida , papeira, sangue novo. Saindo dali era febre. O velho José Paulino tratava de tudo, fazia sinapismo de mostarda, banhos quentes , óleo de rícino, jacaratiá para vermes . Curava os negros, os netos, os trabalhadores¨.

O personagem de José Lins do Rego, é bem a figura dos últimos patriarcas da nossa aristocracia rural. A agonia de uma casta, o desmoronamento de um mundo, e desativação dos engenhos, o domínio crescentes das usinas, a desumanização da economia pela mecanização da lavoura pela e assim o fim do patriarca rural, aparecem em momentos das obras de Graciliano Ramos. Em ¨ Angustia¨, romance publicado em 1936, encontramos memória dessa decadência no interior de Alagoas e os reflexos sobre o mais velho: ¨ Volto a ser criança , revejo a figura do meu avô , Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que alcancei velhíssimo . Os negócios da fazenda andava mal, o meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava o dia inteiro manzanzando numa rede armada nos esteios do capiar , cortando palha de milho para cigarro, lendo Carlos Magno, sonhando com vitória no partido que Padre Inácio chefiava¨... ¨O cupim devorava os mourões do curral e as linhas da casa . Nos chiqueiros alguns bichos bodejavam . Um carro de bois apodrecia no baixo das catingueiras sem folhas ¨ ... ¨ Minha avó , Sinhá Germana, passava os dias falando só, xingando as escravas, que não existiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. Às vezes subia a vila, descomposto , um camisão vermelho por cima da ceroula de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri , alpercatas e varopau. Nos dias santos, de volta as igreja, Mestre Domingos, que havia sido escravo dele e agora possuía venda sortida, encontrava o antigo Senhor escorado no balcão de Teotoninho Sabiá , bebendo cachaça e jogando 3-7 com os soldados¨ ... ¨Estava pegando um século quando entrou a caducar . Encolhido na cama de couro cru, mijava-se todo, contava os dedos dos pés e caía na madorna ¨... ¨ Acabou-se numa agonia leve que não queria Ter fim. Enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa família tinha, no cemitério da vila. ¨

Em ¨São Bernardo ¨ , romance publicado em 1934, Graciliano Ramos acrescenta um outro elemento desse processo de decadência do patriarca rural: o abandono dos velhos povoados pela vida no anonimato da cidade grande: ¨ Por este tempo encontrei em Maceió um velho alto, magro , curvado , amarelo, de suíças, chamado Ribeiro ¨... ¨Seu Ribeiro tinha setenta anos e era infeliz , mais havia sido moço e feliz. Na povoação onde ele morava os homens descobriam-se ao visitá-lo e as mulheres baixavam a cabeça e diziam: Louvado seja o nosso senhor Jesus Cristo, seu Major. Quando alguém recebia cartas, ia pedir-lhe a tradução delas . Seu Ribeiro lia as cartas, conhecia os segredos, era considerado o major. Se dois vizinhos brigavam por terra, seu Ribeiro chamava-os, estudava o caso, traçava as fronteiras e impedia que os contendores se grudassem . Todos acreditavam na sabedoria do Major ¨... ¨O Major decidia, ninguém apelava , a decisão do Major era um prego. Não havia soldados no lugar, nem havia juiz. E como o vigário residia tudo longe, a mulher do seu Ribeiro rezava o terço e contava histórias de santos ás crianças. Seu Ribeiro tinha família pequena e casa grande. A casa estava sempre cheia. Os algodoais do Major eram grandes também¨... Ora, essas coisas se passaram antigamente. Mudou tudo, gente nasceu, gente morreu, os afilhados do Major foram para o serviço militar, em estrada de ferro. O povoado transformou-se em vila , a vila transformou-se em cidade, com chefe político, juiz de direito, promotor e delegado de policia. Trouxeram máquinas e bolandeira do Major parou. Veio o Vigário, que fechou a capela e construiu uma igreja bonita. As histórias dos santos morreram na memória das crianças. Chegou o médico, não acreditava nos santos. A mulher do seu Ribeiro entristeceu, emagreceu e finou-se . O advogado abriu consultório , a sabedoria do Major encolheu-se e sugeriam no foro numerosas questões . Efetivamente, a cidade teve um processo rápido. Muitos homens adotaram gravatas e profissões desconhecidas. Os carros de boi deixaram de chiar os caminhos estreitos. O automóvel, a gasolina, a eletricidade e o cinema . E os impostos¨.

Estas informações todas narradas pelo autor determinam alterações significativas na vida do personagem , acabada a sua autoridade, reduzida a sua renda , desfeita a sua casa e o grupo familiar, pela viuvez e pelo abandono dos filhos. Chega ele á velhice em triste condições, assim descritas por Graciliano Ramos : ¨ Seu Ribeiro enraizou-se na Capital. Conheceu enfermarias de indigentes, dormiu nos bancos dos jardins, vendeu bilhetes de loterias, tornou-se bicheiro e agente de sociedade ratoeiras . Ao cabo de dez anos, com cento e cinqüenta mil reais de ordenados, pedia dinheiro aos seus amigos ¨.

Com cores menos acentuadas que as encontradas no cenário rural do Nordeste , a figura do velho chefe de família também surgiu na obras de autores radicados no Sul do País . Em seu romance autobiográfico ¨Solo da Clarineta ¨ , Érico Veríssimo assim descreveu o avô paterno , figura inspiradora de alguns dos personagens de sua obra literária , particularmente daquelas que relatam a vida no interior do Rio Grande do Sul: ¨ Era baixo, de pernas um pouco arqueadas , testa arredondada e lata. Uma expressão de bondade e bonomia animava-lhe o rosto de marfim antigo ¨... ¨ Era um homem de boa – fé , dotado de uma inesgotável capacidade de tolerância . Foi estancieiro , dentista e finalmente médico homeopata, apesar de não ter sequer acabado o curso ginasial . Como naquele tempo vigorasse no Rio Grande a liberdade profissional, o Dr. Franklin , com sua aguinhas, suas pomadas e ervas, e principalmente com a sua presença sedativa, ia aliviando as dores e curando as doenças da sua numerosa clientela . Guardo minha mãe me mentia na cama, suspeitando que eu estava febril, quantas vezes me animou, com a certeza de que um simples toque da mão do velho Franklin na minha testa seria o bastante para afugentar a febre? ... ¨ O velho Franklin costumava passar todas as noites á mesma hora pela frente da nossa casa, a caminho do seu sobrado ¨... ¨ Habituado naquela rotina noturna, eu ficava na cama, de ouvido atento . As passadas do meu avô para mim era inconfundíveis . O menino sabia, ao dobrar a esquina, o velho soltava a sua tosse breve e seca , espécie de cacoete muito seu. E só depois que cessava o rumor daqueles passos é que eu sentia que tudo no universo estava bem e tudo no seu devido lugar : Deus no céu e o Dr. Franklin no sobrado . Então eu podia fechar os olhos em paz e deixar que o sono me levasse para o reino dos sonhos .¨

As figuras femininas idosas também estão presentes no romance que se inspiraram nesse quadro de patriarca rural brasileiro . São quase todas elas mulheres submissas á autoridade masculina, porém por vezes excedendo com despotismo sua autoridade doméstica . Elas estão ligadas a tradição atribuições femininas no contexto da família, fisicamente desgastadas e desprovidas de charme e beleza.

José Lins do Rego em ¨ Menino do Engenho ¨ destaca três figuras femininas idosas: Tia Sinhazinha, Sinhá Totonha e a velha Generosa : ¨ A minha Tia Sinhazinha era uma velha de uns sessenta anos , irmã da minha avó , ela morava há longo tempo com o seu cunhado . Casada com um dos homens mais ricos daqueles arredores, vivia separada do marido desde os começos do matrimônio. Ela era quem tomava conta da casa do meu avô, mais com um despotismo sem entranhas. Com ela estava as chaves da dispensa, e era ela quem mandava as negras no serviço doméstico . Em tudo isso, como um tirano: meu avô, que não se casara em segunda núpcias , tinha, no entanto, esta madrasta dentro de casa ¨... ¨ A velha Sinhazinha não gostava de ninguém . Tinhas umas preferências temporárias por certas pessoas a quem passava fazer gentilezas com presentes e generosidades. Isso somente para afazer raiva aos outros. Depois mudava, e vivia assim, de uns para outros , sem que ninguém gostasse dela e sem gostar de direito de ninguém ¨. Figura totalmente diferente, Sinhá Totonha cumpria o significativo papel de contadora de histórias e perpetuava assim as tradições culturais da região : ¨A velha Totonha de quando em vez batia no engenho. E era um acontecimento para a meninada, ela vivia de contar histórias de Troncoso . Pequenina e toda engelhada, tão leve que uma ventania podia carregá-la, andava léguas e léguas a pé, de engenho á engenho , com uma edição viva das mil e uma noites . Que talento ela possuía para contar as sua histórias , com um jeito admirável de falar em nome de todos os tons às palavra . Eu ficava calado, quieto, diante dela. Para este seu ouvinte, a velha Totonha não conhecia cansaço . Repetia, contava mais uma, entrava por uma perna de pinto e sai com uma perna de pato , sempre com aquele sorriso de avó de gravura dos livros de histórias . E as suas lendas eram suas, ninguém sabia contar como ela¨... ¨tinha uma memória de prodígio . Recitava contos inteiros em versos, intercalando de vez em quando pedaços de prosa, como notas explicativas¨ ... ¨ Depois Sinhá Totonha saia para outros engenhos e eu ficava esperando pelo dia em que ela voltasse, com suas histórias sempre novas para mim. Porque, ela possuía um pedaço do gênio que não envelhece ¨ .

Outra figura simples, porém exercendo um papel significativo, é a da velha ex – escrava Generosa, que não abandonou o engenho depois da liberdade : a velha Generosa cozinhava para a casa grande . Ninguém mexia num cacareco da cozinha a não ser ela. E viessem se meter nos seus serviços, que tomavam gritos , fosse mesmo gente da sala. Tinha não sei quantos filhos e netos. Negra alta e com braços de homem , tirava uma tacha de doce do fogo, sem pedir a ajuda de ninguém . Só falava gritando, mais nós tínhamos tudo que queríamos dela. A negra Generosa era boa como os seus doces e as suas canjicas¨.

Em ¨ Solo de Clarineta ¨ , Èrico Veríssimo fala de sua avó materna: ¨Dona Maurícia era uma serena trigueira , com feições que lembravam a de uma índia, não Tupi Guarani , mais pele vermelha . Era econômica ao extremo, não só no que dizia respeito ao dinheiro e outros bens materiais, como também a gestos e palavras. Não creio que fosse destituída de afeto, mais era certo que tinha pudor de demonstrar seus sentimentos¨... ¨

Sempre associei o nome a figura dessa avó materna a certos odores coisas de comer e condimentos: noz-moscada , arroz-de-leite, polvilho de canela, doce de figo em caldo com cravo, broas de milho e pessegada com queijo de estância ¨.

Diferente a figura feminina que Jorge Amado nos apresenta em ¨ São Jorge dos Ilhéus ¨ , Don’Ana Badaró. Única sobrevivente de uma família de conquistadores e desbravadores de mata para o plantio do cacau, embora empobrecida e envelhecida Don’Ana não perde a fibra dos Badarós:¨Don’Ana tinha envelhecido na cozinha da casa grande, juntos ao tachos de doce e às panelas de comida¨ ... ¨Don’Ana Badaró ( apesar de tudo que passava , da pobreza e da decadência, ninguém se lembrava de chamá-la Don’Ana Magalhães () ouviu o grito estridente do papagaio e as gargalhadas que ser seguiu , gostosa e redobrada. Tudo aquilo parecia uma caricatura, o artificial da voz do pássaro deformava as palavras, eram quase metálicas, não tinha o calor da voz do capitão. Mais ainda assim Don’Ana sorriu ao ouvir a frase, o rosto se abrindo em esperança : - Don’Ana , vamos enriquecer de novo¨... Agora já falava nos netos , para eles pensava em plantar as terras, em fazer crescer mais uma vez a fortuna dos Badarós. E sonhava, no silêncio do seu quarto , em que alguns dos netos usassem seu nome que desaparecia¨... ¨ Entre os sonhos de um futuro melhor do que os filhos, genros e netos, a lembrança daquele passado esplendoroso , vive Don’Ana Badaró. Onde está aquela morena tímida de antigamente, tímida entre os olhos enamorados de João Magalhães , afoita e decidida no entanto , com o mais corajoso dos homens , num momento de barulho , de luta e de sangue? Trinta anos tinha rolado sobre ela e hoje seu cabelo negro embranqueceu, seus olhos tão belos murcharam, suas carnes duram amoleceram . Trinta anos de vida pobre quebram uma pessoa. Em Don’Ana, porém , residia um orgulho eu a sustentava por dentro , que impedia o ruir dos seus sonhos juntamente com o envelhecimento de seu corpo . Numa arca que jamais era aberta estavam as lembranças mais queridas dos tempos da fortuna dos Badarós¨ ... ¨Mais não passa dia que Don’Ana não recorde aqueles tempos, são recordações que lhe dão ânimo para sonhar um futuro menos medíocre. E, se bem não fale no passado, é Don’Ana que zela por toda essa tradição, é ela quem vive a história dos Badarós, quem impede que tudo apodreça nesses tempos novos ¨.

Os exemplos continuam,,mas devemos parar por aqui. São bastante repetidos alguns traços atribuídos a velhice: rigidez de princípios, avareza, mesquinharia, memória histórica, modelo e símbolo. Na psiquiatria , muitas das estereotipias tiveram que ser enfrentadas. O próprio Freud incorria numa estereotipia a afirmar que pessoas de mais de 50 anos não deveriam fazer análise, pelo excesso de memórias e rigidez de traços caracterológicos.

Um grande acontecimento na psiquiatria brasileira foi a realização de um Simpósio Regional da Associação Mundial de Psiquiatria, no rio de janeiro em 1973. Extraímos do mesmo algumas idéias que representam o que se pensava na época,

O Professor José Leme Lopes diretor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Via nas grandes cidades, principalmente, os maiores redutos de velhos abandonados, restritos a um espaço físico social e afetivo que, em muitos casos, não passa das quatro paredes de um quarto de hotel ou pensão barata. O sonho comum da casa na serra, da maioria das pessoas prestes a aposentar-se raramente é realizado, pois a aposentadoria traz com ela a eliminação de qualquer outra oportunidade de ganho.

De repente o velho descobre que vive "mas não participa". O passado se alonga sobre o presente, que se torna lento, arrastado, monótono. O futuro toma um tom opaco. O envelhecer passa a ser um estado de melancolia, pesado, difícil de suportar. Sem meios de realizar pequenos sonhos ( o da casa é um deles) com a família dispersa, os amigos mortos, as possibilidades de viajar restritas e as caminhadas limitadas ao próprio quarteirão, só resta ao velho o temor. Seu horizonte vital diminui, provocando as modificações do seu ego.

O Prof. Zacaria Borges Ramadan apresentou o trabalho sobre a "Influência da Urbanização sobre a Saúde mental dos Velhos" baseou-se em oito anos de pesquisa sobre funcionários públicos paulistas e seus descendentes diretos.

Apesar do envelhecimento natural ser bastante complexo, a estrutura urbana

Estabelece limites precisos impondo brusca marginalização por idade cronológica ou tempo de serviço sem levar em conta as particularidades individuais quanto a aposentadoria. Alem disso a habitação perdeu sua função social mais elementar e houve evidente redução do espaço psicológico pessoal e familiar em proveito do coletivo. As grandes famílias deram lugar ao pequeno núcleo familiar pai-mãe-filhos.

O prof. Cláudio Eizirik falou sobre as "Perdas do Velho", explica essa fase como a consciência dessas mesmas perdas, uma luta contra o inevitável. Relatou uma pesquisa que realizou em Porto Alegre em que pode constatar que o trabalho é o maior meio de expressão e afirmação do homem e que torna as privações inerentes à velhice mais suportáveis através de um jogo de compensações.

Foram inúmeros os convidados estrangeiros no encontro. Howard Rome, então Presidente da WPA, Ewald W. Busse, Dean da Duke University, Sir Martin Roth da Inglaterra. O Prof. Vartanian da USSR, T. Asuni da Nigéria e J.E.Meier da Alemanha entre outros.

Concluindo nosso apanhado sobre esta sub-especialidade psiquiátrica, podemos afirmar que a psicogeriatria foi a precursora da moderna psiquiatria. Voltada para a Medicina devido a co-morbidades, uso criterioso de psicofármacos onde a preocupação com as interações medicamentosas é constante. Novas abordagens psicoterápicas, liberdade quanto ao setting, atendimento aonde o paciente necessita, no lar, no consultório, no hospital, no residencial geriático ou similares. Preocupação com os aspectos sócio-econômicos e legais do seus pacientes. Utilização de Escalas de avaliação. A percepção do idoso como pessoa, dentro de um contexto social e a capacidade de avaliar sua interação com seu mei, o intenso intercambio afetivo com seus pacientes, tornam a psicogeriatria um campo psiquiátrico atrativo para o jovem psiquiatra.


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