Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2002 - Vol.7 - Nº 11

Psicanálise em debate

Hipóteses sobre a família Von Richtofen

Dr. Sérgio Telles
Psicanalista do Departamento de Psicanálise de Instituto Sedes Sapientiae
e escritor, autor de MERGULHADOR DE ACAPULCO (1992 – Imago – Rio)

O assassinato do casal Von Richtofen, planejado e executado por sua primogênita, teve o compreensível impacto na sociedade, que se reflete na cobertura dada pela mídia.

Desde que somos uma civilização, o parricídio e o matricídio são dos crimes os mais abominados e condenados. Nessas trágicas circunstâncias, convencionalmente, toda a atenção fica centrada nos filhos, os assassinos.

Até mesmo a psicanálise parece compartilhar deste enfoque que centraliza a atenção no(s) filho(s), se lembrarmos que um de seus mais fortes pilares teóricos é justamente o complexo de Édipo. A tragédia do parricida Édipo expressa mitologicamente o drama da constituição do sujeito. Esta visão implica um curioso esquecimento, que todos nós que somos psicanalistas e também trabalhamos com famílias, tentamos recuperar. Não se pode esquecer que Laio e Jocasta, pais de Édipo, antes mesmo de ele nascer, ao saberem da profecia, deliberaram matá-lo. Desfeita a negação expressa pelo esquecimento, a tragédia de Édipo adquire novos tons. Poderia expressar o secreto vínculo que une pais filicidas e filhos parricidas, evidenciaria a corrente de violência que circula entre pais e filhos nessa situação.

Que tem isso a ver com o crime do casal Von Richtofen? Tudo. Pois o que está em jogo é que é impossível tentar entender essa e outras situações semelhantes sem incluir a família como um elemento decisivo nos acontecimentos. Não se pode excluir a própria família onde se dá o crime, centrando toda a atenção apenas no assassino.

Em minha opinião, é impossível conceber que a garota Von Richtofen tenha uma patologia mental tão grave, a ponto de quebrar todos os limites e expressar-se num assassinato, sem levantar a hipótese de que sua família também apresentasse grandes e graves disfunções.

Em famílias disfuncionais as barreiras das diferenças de geração e de gênero (sexuais) não são bem definidas. Isso significa que a geração mais velha não consegue ser a representante da Lei (em todos os sentidos) para a geração mais nova, ficando assim desorganizadas ou inexistentes as relações hierárquicas estruturantes, bem como denegadas as diferenças de gênero (sexuais). Predominam as relações fusionais narcísicas, onde a autonomia dos membros se perde numa indiscriminação generalizada..

Esse tipo de relações ficam extremamente agudizadas na adolescência, quando os filhos ensaiam o necessário vôo "solo", tentando se afirmar em distintas áreas como a identitária, a sexual, a social. Os pais não toleram esse movimento e os filhos passam a se sentir culpados por crescerem. Vivem o crescimento e o desejo de autonomia como uma traição aos pais e, em situações extremas, somente a morte pode, paradoxalmente, romper um vínculo fusional narcísico psicotizante.

Claro que essa é uma síntese genérica sobre a patologia familiar, que poderia nortear hipóteses sobre o ocorrido entre os Von Richtofen, especialmente quando lembramos que o motivo explícito da desavença anterior entre filha e pais era justamente um namoro desaprovado pelos últimos. Mas, é evidente, seria necessário conhecer muito mais da família para afirma qualquer coisa.

Entretanto, os jornais publicaram algo que dá elementos para apoiar nossa hipótese de uma patologia familiar prévia à eclosão de violência assassina da filha.

O jornal "O Estado de São Paulo" (09/11/02 – p. C4) fala das repercussões do caso na Alemanha. Como o engenheiro Von Richtofen se dizia "sobrinho-neto" do Barão Von Richtofen, conhecido como o "Barão Vermelho" da Primeira Guerra Mundial, a revista DER SPIEGEL procurou a aristocrática família na Alemanha. E aí aconteceu o imprevisto. Seu porta-voz oficial disse não haver ligação alguma entre a família e o brasileiro assassinado. Mais ainda, os nobres alemães sabiam que durante muitos anos aquele senhor se fez passar por um sobrinho-neto do Barão Von Richtofen.

Ou seja, o engenheiro Von Richtofen tinha uma falsa identidade que alardeava publicamente, fazendo-se passar por um descendente da família nobre, fato sabido e negado por aquela família.

Esse é uma dado extremamente significativo, sintomático. O assumir uma identidade falsa, o atribuir-se uma falsa ascendência é um conhecido sintoma psiquiátrico que pode ter diferentes níveis de gravidade. Vai desde o franco delírio psicótico (megalomaníacos que se acreditam filhos de nobres, de Deus, de pessoas importantes, celebridades, políticos, etc) até atuações psicopáticas, como se vê no grande batalhão dos impostores dos mais variados tipos. Em todos os casos, isso evidencia uma séria falha na identidade, uma identificação falha com os objetos primários, uma desordem grave na constituição do sujeito.

A interpretação mais óbvia e imediata do assumir uma genealogia aristocrática e o consequente outogar-se um falsa identidade, é a negação das próprias origens. No caso do engenheiro Von Richtofen, poderíamos pensar que nao tolerava as próprias origens - talvez humildes, constituída de emigrantes pobres alemães, talvez colonos agrícolas - e delirava com a nobreza teutônica?

Como uma pai com esse nível de patologia se ligaria com sua descendência, seus próprios filhos, se estava negando sua ascendência, suas raizes, seus pais? Como essa enorme falha na historia familiar - uma "cripta", diriam Abraham e Torok - um segredo famíliar de tal monta, repercutiria sobre todos eles?

Como - em função dessa "cripta" - esse pai com possíveis delírios de nobreza receberia o fato de ter a filha um namorado pobre e humilde? Viveria isso como o retorno pelo Real, como diz Lacan, de toda uma realidade insuportável?

Essas hipóteses que levantamos talvez pudessem ser esclarecidas com os dados sobre a família real – e não a "nobre" – de Von Richtofen. Os jornais falam da existência de um velho tio do engenheiro, único parente que teria aqui em São Paulo. Talvez ele tenha a explicação do porquê da genealogia delirante mantida pelo sobrinho.

Em todos esses casos, se queremos transcender o mero escândalo e choque que eles inevitavelmente nos causam, se queremos efetivamente entender a situação, nao podemos deixar ficar o foco centrado exclusivamente num dos atores do drama, justamente o que empunha e usa a arma do crime. Precisariamos focalizar também a família e pesquisar até que ponto não teria ela imposto o roteiro trágico que a destrói.

Casos como esse também poderiam evidenciar a importância dos estudos transgeracionais. Até que ponto esse assassinato nao começou a ser "arquitetado" muitos anos atrás, décadas atrás, na Alemanha, antes de esta família conhecer todas as dores e lutos que uma imigração impõe aos que a empreendem?

As tragédias familiares, a transmissão transgeracional da neurose e da loucura familiar através do tempo foi bem representada numa poesia terrível e pessimista do grande poeta inglês Philip Larkin, falecido há poucos anos. Vou citá-la em inglês e propor uma tradução sem preocupação com a forma.

This be the verse.

They fuck you up, your mum and dad,

they may not mean to, but they do.

They fill you with the faults they had,

and add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn,

by fools, in old style hats and coats,

who half the time were sorry stern,

and half at one anothers' throats.

Man hands on misery to man,

it broadens like a coastal shelf.

So get out as quickly as you can,

and don't have any kids yourself.

 

Que seja esse o verso

 

Eles te fodem, teus queridos paizinhos,

Eles não fazem por mal, mas fazem assim mesmo.

Te enchem com os defeitos deles,

E acrescentam ainda alguns, só pra você.

 

Mas eles também foram fodidos,

Por idiotas, vestidos com antigos chapéus e casacos,

Que ora estavam contritamente sendo severos,

Ora estavam aborrecendo os demais.

 

O homem passa a miséria para o homem,

Ela cresce como uma plataforma litorânea.

Assim, fuja o quanto antes,

E não tenha filhos.


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