Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2002 - Vol.7 - Nº 7

Psicanálise em debate

UM FREUD "LITERÁRIO"? – Considerações sobre novas traduções da obra freudiana

Dr. Sérgio Telles
Psicanalista do Departamento de Psicanálise de Instituto Sedes Sapientiae
e escritor, autor de MERGULHADOR DE ACAPULCO (1992 – Imago – Rio)

Um importante acontecimento editorial ocorre esse mês de julho em Londres. Serão lançados os dois primeiros volumes de uma série de quinze do que está sendo chamada de "novas traduções literárias de Freud", um empreendimento da editora Penguin, organizado pelo psicanalista e escritor Adam Phillips.

Phillips fez uma escolha polêmica. Ao invés de manter os padrões habituais de uma tradução de trabalhos científicos, que seguem uma disposição cronológica, tentam manter uma uniformidade técnica nos termos usados e respeitam convenções e referências estabelecidas, Phillips trata a obra freudiana com a liberdade somente possível frente às obras literárias, onde a tradução segue exigências exclusivamente estéticas e formais. Para tanto, Phillips não procurou nenhum rigor técnico-científico ou uniformidade estilística, dando cada volume para um tradutor diferente e distante do mundo psicanalítico. São todos eles literatos, ligados às humanidades. Além disso, tendo como objetivo o leitor leigo, Phillips ignora a cronologia e dá uma organização temática aos textos freudianos.

Phillips trabalhou na Charing Cross Hospital de Londres e é autor de livros de muito sucesso no mundo anglo-saxão. São seus os títulos "Winicot", "On Kissing, Tickling and being bored"; "On Flirtation"; "Terrors and Experts"; "Monogamy"; "The Beast in the Nursery"; "Darwin's Worms", "Promises, Promises" e "Houdini's Box: The Art of Escape". Três deles foram traduzidos pela Companhia das Letras.

A escolha de Phillips por uma tradução "litarária" da obra de Freud vai frontalmente contra o esforço de muitos - a começar pelo próprio Strachey, responsável pela famosa "Standard Edition" - , que tentam reconhecer e valorizar dentro do texto freudiano, de inegável valor literário, um vocabulário técnico preciso, que dá base e solidez a importantes conceitos e hipóteses teóricos, com isso evidenciando o cuidado de Freud em manter a coerência interna, a formulação clara e transmissível do saber que fundou. Em que pesem os equívocos da tradução de Strachey, sua postura – o reconhecer e uniformizar as hipóteses básicas centrais da teoria - é a mesma que sustentaram outros, como Laplanche e Pontalis, e esse esforço se concretizou, por exemplo, na excelente tradução argentina da Editora Amorrortu. Aqui mesmo, no Brasil, está em andamento um ambicioso projeto de uma nova tradução de Freud, a cargo de Luiz Hanns.

Neste momento, a psicanálise se depara com insistentes ataques que questionam sua cientificidade, desde que, seguindo critérios neo-positivistas, efetivamente ela não pode ser considerada uma "ciência". Trata-se de um importante problema epistemológico e cabe a nós, psicanalistas, mostrarmos como o saber inaugurado por Freud inequivocamente pertence ao campo da ciência, no sentido de produtora de conhecimentos, muito embora a forma pela qual os produz difira radicalmente daquela das ciências ditas "hard" (física e química, por exemplo). Na verdade, a psicanálise questiona as bases da antiga epistemologia, apesar de não conseguir ainda organizar critérios de covalidação que se adeqüem às características específicas de seu próprio campo.

Neste sentido, querer reduzir a obra de Freud à "literatura", como se certa forma propõe Phillips, é um desserviço à causa, um grande equívoco.

Por outro lado, a escolha de Phillips, coloca em pauta uma questão sempre muito interessante – a relação entre psicanálise e literatura. É muito conhecida a afirmação de Freud que os grandes escritores eram profundos conhecedores do inconsciente e a ele tinham acesso intuitivamente, enquanto ele (Freud), só ali chegava através de muito esforço, de muito trabalho, de muita ciência.

De fato, muito há de comum entre psicanálise e literatura. Ambas lidam com a linguagem e com a expressão de estados d’alma, idéias, sentimentos, afetos, sofrimento e dores. Ambas interpretam, representam, simbolizam, produzem sentido onde antes ele não existia.

A literatura é a produção espontânea de um artista, decorrente de um dom que polirá na prática e no uso dos cânones estéticos de seu tempo e seu lugar. A psicanálise é um procedimento científico – com as ressalvas já feitas - descoberto por Freud de acesso ao inconsciente, que se organiza num corpo teórico consistente e tem efeitos terapêuticos. A literatura dá significados, representação e simbolização àquilo que era inominável e sem sentido, e o faz de maneira tal com que todos os homens possam ali se mirarem e se reconhecerem. A psicanálise faz o mesmo de forma singular, ouvindo no discurso de um único sujeito a produção fragamentária e desprezível dos restos da consciência, ali captando os significantes até então ignorados pelo que fala.

"A arte deve servir para alguma coisa, só não sei o quê", disse Picasso, em uma de suas provocações. Em minha opinião, uma das maiores "utilidades" da arte é representar, simbolizar, exprimir e significar o essencialmente humano. Com isso, ela – tal como a psicanálise - proporciona a produção de um tipo de conhecimento sobre a própria condição humana que de antemão é negado e suprimido pelo que se considera, segundo os critérios neo-positivistas, "ciência". A clássica contraposição entre arte e ciência advém dos critérios que delimitam e excluem cada campo, mas essa forma de contrapô-las, não reconhece onde elas se aproximam, configurando um paradoxo: a arte, tal como a ciência, também produz um conhecimento, e essa produção de conhecimento não é abarcada pelos critérios usados pela ciência. Assim, o conhecimento proporcionado pela arte se aproxima daquele proporcionado pela psicanálise. Ambas, psicanálise e arte - levantam o mesmo problema epistemológico citado acima. Sob esse ângulo, a proposta de uma tradução "literária" de Freud ganha uma nova perspectiva.

Voltando ao acontecimento editorial, o que ocorre é que está expirando a exclusividade do copyright da "Standard Edition", o que faz com que estejam sendo planejadas novas traduções de Freud. Já saiu, por exemplo, uma nova tradução de "A Interpretação dos Sonhos", pela Oxford University Press, realizada por Joyce Crick.

A Hogath Press, casa editora criada por Virginia e Leonard Woolf que detinha os direitos autorais da "Standard Edition", está realizando uma nova tradução da obra de Freud, sob o comando do psicanalista Mark Solms. Essa nova edição será ‘pesadamente anotada’, terá um glossário abrangente, um novo índice, bibliografia e alguns ensaios sobre o processo de tradução. Também incluirá os escritos neurocientíficos de Freud e quarenta outros trabalhos inéditos que não foram incluídos ou não estavam disponíveis quando a primeira tradução foi realizada. Haverá também uma versão em CD-ROM, além da versão on-line.


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