Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2002 - Vol.7 - Nº 1

Psicanálise em debate

 

HISTÓRIAS PROIBIDAS ("Storytelling") de Todd Solondz – um passeio pelo lado escuro

Dr. Sérgio Telles
Psicanalista do Departamento de Psicanálise de Instituto Sedes Sapientiae
e escritor, autor de MERGULHADOR DE ACAPULCO (1992 – Imago – Rio)

Uma das cenas mais incômodas que já assisti no cinema acontecia no filme HAPPINESS, o segundo filme de Todd Solondz. É aquela em que um pai fala cruamente de sua pedofilia para o filho de 10 anos, dizendo ter sodomizado o amiguinho dele. O espectador fica chocado ao se deparar diretamente com a perversão da função paterna. Este pai - ao invés de ser aquele que porta a Lei que organiza o desejo, com ela estabelecendo as repressões necessárias e os impedimentos estruturantes do psiquismo – fala para o filho de sua incapacidade de sequer cumprir a lei, muito menos de ser seu representante. Inverte-se a relação pai-filho, ficando este colocado no papel de continente da loucura paterna, coisa que está além de sua capacidade de tolerar.

Essa era apenas uma entre muitas cenas de um filme onde se expunha com muita minúcia o lado mais escuro e pantanoso da humanidade. É nessa região onde Solondz gosta de exercer sua capacidade criativa, como tinha feito anteriormente em WELLCOME TO THE DOLL HOUSE, seu primeiro filme e agora em STORYTELLING ("Histórias Proibidas").

Solondz pertence à familia de criadores que gostam de extrair dolodo fétido suas obras, tal como Dalton Trevisan. Eles mostram a mesquinhez, a maldade, a pequenez do homem. Se é grande o incômodo desencadeado pela exposição do mal praticado pelos homens, o pior reside no fato de não oferecerem estes autores aquilo que seria o antídoto natural para o veneno que oferecem: lembrar que o ser humano também é capaz do amor. Somos todos feitos desta improvável mistura de amor e ódio, forças regidas por motivos inconscientes, distantes da volição e da consciência, o que determina o tom trágico da existência humana. Todos os grandes criadores reconhecem isso, e, a meu ver, uma obra que aponta só para um destes polos fica necessariamente capenga, torta, incompleta.

O texto completo encontra-se no livro: "O psicanalista vai ao cinema" - EdUFSCar / Casa do Psicólogo, 2004 .


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