Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2002 - Vol.7 - Nº 11

Psiquiatria, outros olhares

Os transtornos mentais e a religião (*)

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina/UFCe, autor de O Ciúme Patológico e Drogas, Esse Barato Sai Caro (Ed. Record)

Começaríamos fazendo a pergunta: o que é que nós, como trabalhadores em saúde mental, sabemos sobre religião? De um modo geral, dada a formação histórica, mesmo marcada pelo catolicismo, o máximo que guardamos foram noções muito abreviadas e elementares, ainda do tempo do catecismo e da primeira comunhão.

Com esse saber, ousamos desvendar e interpretar esse fenômeno que permeia todas as culturas do mundo. Convenhamos, do ponto de vista cientifico, é um grande insulto.

A primeira preocupação situa-se obviamente na necessidade de melhor conhecermos tais fenômenos religiosos. Ter uma formação mais sistematizada sobre estes fatores. Messias (1) assinala que: "Em 1996, a instituição que fiscaliza e determina os requisitos de uma residência médica – ACGME – determinou que todos os programas de residência em psiquiatria ofereçam cursos acerca de espiritualidade e religião."

Nós lidamos com situações muito próximas e que tem uma freqüente referência ao universo religioso. Estes fenômenos permeiam a nossa prática profissional. Não podemos fugir ou ignorar.

ETAPAS

O mundo já passou por algumas etapas ou fases:

Primeira - uma predominância acentuada, marcante da religiosidade, da dimensão espiritual. Qualquer atitude mais científica, era processada de forma quase clandestina. A prática da ciência era às escondidas. Ficou famoso o tempo da Alquimia. O grande registro e controle era balizado pela Igreja Católica e a grande referência era a Bíblia, no mundo ocidental.

Segundo momento, tivemos a revolução das ciências ou a inauguração dos tempos modernos, do mundo científico. Nietzche (2) coloca na boca de um louco: Deus morreu! Esse louco fala daquilo que Deus representou e significou para sua cultura. Era uma crença coletiva e essa crença, no século XIX, estava morrendo. Naquilo tudo que Deus imperava - centro do conhecimento e do pensamento – passou e existir um vazio. A ciência passou a tratar Deus como irrelevante. A verdade nasce dos tubos de ensaios e nada que não possa ser demonstrado experimentalmente tem valor. É vero.

Agora, início do 3o Milênio, estamos na iminência de um outro tempo. Fala-se em ressurgência do sagrado. O mundo inteiro passa a ser profundamente marcado pelos conflitos de conteúdo religioso. O bem contra o mal. A força do sagrado contra o profano.

Não nos alonguemos nessa deriva. Mas, em nossa prática há uma nítida contradição. Nos recusamos, sistematicamente, a entender esse discurso. Até mesmo admitir ou escutar. E, não raro, identificamos essas práticas religiosas como coisas de "gente atrasada".

A idéia é: quando adquirirmos um melhor nível de desenvolvimento, todas essas práticas desaparecerão. As experiências e vivências trazidas pelos pacientes são aceitas como manifestações arcaicas, de atraso e ignorância. Para não dizer que, muitas vezes, somos inclinados a buscar correspondentes nas descrições psicopatológicas.

A cabeça do terapeuta não entra em sintonia com o discurso do paciente. Este costuma referir-se às práticas religiosas como algo que lhe dá suporte, como aquilo que promove bem estar. "Estou bem. Deus está comigo."

A Psiquiatria Transcultural sugere que ao tentarmos compreender esses fenômenos - com registro na cultura – tipo as manifestações de religiosidade, não temos interesse em demonstrar ou não a eficácia desses mecanismos, na dimensão terapêutica individual. Se o milagre aconteceu, se funciona ou não. Se, realmente, o câncer existia, se foi debelado. Ela nos convida a compreendermos a natureza mais ampla do que está acontecendo. Isto é, o contexto cultural. Interessa o aspecto integrativo e identificatório das referências religiosas.

Um exemplo: No Ceará nós temos duas grandes festas religiosas. Uma, de São Francisco das Chagas, em Canindé, que é a segunda maior romaria franciscana no mundo. E outra, em Juazeiro do Norte, de Padre Cícero Romão Batista, o santo do sertão.

Do ponto de vista integrativo a romaria e a promessa que fazem, relacionam-se geralmente com questões de saúde e cura. É muito elucidativo saber como se organiza uma romaria. Há toda uma extraordinária mobilização social para a realização do evento. O caminhão improvisado em transporte de pessoas, o pau-de-arara, as vestes especiais, as encomendas, os ex-votos. A comida. Os cânticos. Toda essa demora e mobilização para a festa ensejam a formação de um verdadeiro labirinto de relações sociais. Tem os que vão e os que ficam. Até chegarem à cidade, vão rezando e conversando. Alimentando laços com Deus e os homens.

Enfim, o que se destaca, nesse momento, são as relações sociais que ultrapassam o simplesmente religioso. O papel social que exercem essas manifestações religiosas, os laços de solidariedade e escuta que se estabelecem.

INTEGRAÇÃO

O Brasil passou por um grande fenômeno, o mais significativo do ponto de vista sociológico, a questão da migração interna. Grandes populações que estavam no interior, no sertão, e que vieram morar nas grandes cidades. Saindo desses lugares, perderam os laços familiares e as referências sociais e culturais.

Não por acaso, esses novos laços de identificação e pertença são refeitos a partir da religião. É o candomblé que tem o pai ou a mãe de santo. E os seguidores, são os filhos de santo. Seria uma tentativa de identificação pela reconstrução de famílias simbólicas. Nos cultos evangélicos o pastor é o grande pai e os adeptos são chamados de irmãos. Mesmo nas CEBS (Comunidades Eclesiais de Base), movimento socialmente engajado da Igreja Católica, entre eles chamam-se de irmãos e são grupos pequenos, lembrando uma família clânica.

Portanto essa idéia de integração através da religião tem um peso e um significado. Mesmo recentemente, no processo eleitoral, havia uma disputa acirrada para saber qual candidato podia contar com o apoio efetivo desses grupos religiosos.

Podemos falar, ainda, dos nomes próprios atribuídos por esse Brasil afora. Quantos Francisco tem no Brasil? Quantos Cícero? Quantos José de Ribamar? Nazaré no Pará? A religião como elemento identificatório. Eles vestem as mesmas roupas. Eles tem os mesmos símbolos. Eles tem uma mesma cultura. O mesmo nome.

Outra argumentação precária é atribuir essas manifestações a aspectos puramente econômicos, dizendo: "Isso é coisa de pobre!" Registramos, porém, muito episódios de pessoas com poder aquisitivo razoável que, igualmente, se engajam e participam dessas manifestações. Cito o exemplo de um filho, já adulto, que de joelhos circulava a Basílica de Canindé. Pagava uma "promessa" pela saúde da mãe. Isto é, ela tinha se submetido a uma cirurgia cardíaca num importante centro hospitalar da região. A cirurgia tinha sido um sucesso. Teve toda cobertura médica necessária. Mas, uma promessa tinha sido feita e precisava ser "paga".

Não é apenas a dificuldade de acesso à medicina científica que faz com que busquem refúgio na religião. Essa é uma explicação muito simplista.

Costumam dizer: "Tenho certeza que a minha cirurgia transcorreu tão bem porque as mãos do doutor foram guiadas por São Francisco, que nos protegeu e salvou."

Essas manifestações religiosas não tem relação direta com a pobreza do povo.

A CURA

Tenho usado as referências teóricas de Tobie Nathan. Ele dirige um Centro de Tratamento Etnopsiquiátrico em Paris – Centro George Devereux, (

Universidade Paris 8 Vincennes - Saint Denis). Há 20 anos uma equipe de terapeutas trata os sofrimentos psicológicos de pacientes que apresentam transtornos de massa e transtornos individuais. Essa abordagem implica em levar em conta a dimensão dos acontecimentos e suas implicações culturais e políticas dentro da técnica psicoterápica.

Basicamente ele sugere que a Cultura possui "máquinas" de cura que são colocadas à disposição dos terapeutas ligados a essa cultura. Estas máquinas, devidamente instrumentalizadas, favorecem os processos terapêuticos.

Não teríamos possibilidades agora em alongar esse tópico. Sugiro leitura de Psychiatrie on Line (3)(4). Ilustraria com uma rápida observação: "Sei que aquele paciente é um romeiro de São Francisco. Tem uma grande devoção e confiança. No final da sessão faço-lhe uma prescrição: você tem que ir a Canindé, trazer uma pequena pedra da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, que fica ao lado da Basílica. Ao chegar em casa, de volta da romaria, você deve entregar a cada um de seus filhos para que dê um beijo nessa pedra. Depois, você deverá trazer essa pedra na nossa próxima consulta. E, não sei porque e como, esses rituais - entre aspa – "de cura" se processam pela evidência de uma maquina fornecida pela cultura. O certo é que o indivíduo ficou bem melhor dos sintomas anteriormente apresentados."

Naturalmente que não se deve embarcar numa perspectiva mágica. Trata-se de entender que estes mecanismos tem um respaldo na cultura, instância extraordinária da subjetividade humana.

CONCLUINDO

Nós não podemos continuar negando essa realidade. Toda cultura brasileira é permeada fortemente pela dimensão religiosa. Isso faz parte da "cabeça" do povo. E, se nós nos consideramos especialistas da mente do povo, não podemos desconhecer ou negar essa dimensão.

No período de festas, em Canindé, os frades franciscanos abrem um imenso corredor que dá passagem por dentro do Convento onde residem. Um dia os romeiros estavam olhando pela brecha de uma porta do Convento para ver São Francisco. Segundo os romeiros, nessa época os frades guardam S. Francisco. Ele já está velhinho e pode sofrer com o assédio daquela multidão. Tinha uma multidão tentando olhar. Foi que um senhor de idade, sertanejo castigado pelos tempo e intempéries da vida, vai saindo e lhe pergunto: o que estão olhando ai? Responde: Estamos olhando, ver se a gente enxerga São Francisco. Retruco: como é possível se São Francisco já tem mais de "quatrocentos" anos que morreu? Ele olhou de uma forma bem profunda e soltou: "Você acha bem que um homem desses pode estar morto?"

Mais não disse. Mais não lhe foi perguntado.

Referências Bibliográficas -

    (1) Messias, E. – Psiquiatria & Espiritualidade, Psychiatry On line, Brazil set/2000, Vol.5, No 9.

  1. Nietzche F., Gaia Ciência (1882), parte 125.
  2. Cavalcante, A . - A cura que vem do povo, Psychiatrie on line, Brazil, jan/2001. Vol.6, No 1;
  3. Cavalcante, A. - A Etnopsiquiatria segundo Tobie Nathan, Psychiatrie on Line, Brazil, fev/2001.Vol.6,No 2).

(*) Trabalho apresentado na Mesa Redonda: Etnopsiquiatria, dia 18/10/2002, Congresso Brasileiro de Psiquiatria, Florianópolis.SC.


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