Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2002 - Vol.7 - Nº 2

Psiquiatria, outros olhares

Filho de peixe, peixinho é?

Dr. Antonio Mourão Cavalcante (*)

Uma recente polêmica tomou conta da mídia. Pode um casal homossexual criar filhos? Como será o desenvolvimento psicológico dessa criança? Apresentará algum trauma psíquico? O debate está longe de terminar e de tirarmos conclusões definitivas.

Quero apresentar algumas reflexões que ajudarão a melhor situar a questão e trazer algumas luzes ao que seria "o fim do túnel"...

A existência de um filho não pode ser determinada unicamente pelo desejo de um dos cônjuges. A perspectiva existencial deve apontar para o processo de autonomia do novo ser vivo. Isto é, o filho não é um projeto exclusivo dos pais. Transcende. Cresce na busca de uma individualidade. Por isso, sua chegada deve ser pensada como algo que vai além da vontade dos pais. Não posso ter um filho simplesmente porque eu quero. Essa seria uma proposta excludente do próprio ato de nascer. O ser humano não existe ou se define unicamente pelas funções e desejos pré-estabelecidos pelos pais. Deborda. Ou, se insisto, estou postando-me numa conduta possessiva e egoísta;

O casal homo poderá desenvolver duas condutas básicas: primeira, informar a criança que eles(as) são os pais adotivos, que desejaram possuí-lo como filho, encheram-no de carinho, por isso ele está ali como filho. Essa é, aliás, a conduta que se recomenda aplicar aos filhos adotivos. A segunda alternativa seria a de informar que são os pais legítimos. Nesse caso a criança insistirá em conhecer essa mecânica, vindo, em seguida, a concluir que foi vítima de um engôdo.

Enquanto criança seu mundo será mais o caseiro e pilotado por uma afeição mais direta dos pais. Logo que cresce, que começa a "compreender" as coisas do mundo, vai se interrogar sobre sua origem, posto que aprenderá - na escola ou com amigos - que para nascer o ser humano precisa de um homem e uma mulher. Vai indagar sobre os pais "verdadeiros" e esta questão não poderá ser escondida por muito tempo.

Para o casal homossexual a conduta que eles vivenciam pode ser admissível e encarada com naturalidade. Somos assim e podemos ser assim. Acontece que a criança vai nascer, crescer e viver num contexto mais amplo, que envolve todos os parceiros sociais: a família clânica, a escola, a sociedade. E esse convívio social pode lhe ser desfavorável e não conter a mesma unanimidade que verifica em casa. Isto é, pode sofrer fortes preconceitos e discriminações as mais variadas. E, para um ser em formação, necessitando de uma aceitação no grupo social que frequenta, será gravemente doloroso e excludente.

Não é verdade que a criança, assim criada, possa igualmente tornar-se homossexual. Não temos evidências, nem a recíproca parece verdadeira. A existência de casais heterosexuais com filhos homo é bem numerosa, provavelmente, a maioria dos casos. Não conhecendo exatamente a causa - ou causas - do homossexualismo, não podemos apontar com exatitude as implicações de tal relacionamento na opção futura da criança. Estaria ligada a fatôres genéticos? Algum gen ou cromossomo específico que adiantasse a compreensão? Até agora, ao nível cromossomial não existem diferenças. Nem as alterações cromossomiais, do par sexual, provocam esse tipo de opção que incida sobre as preferências sexuais;

Por outro lado não se pode afirmar que os fatores ambientais sejam exclusivos. O processo educativo poderia influenciar. Com certeza, não se trata de uma aberração da natureza, nem de uma distorção hormonal. O grupo controle, operado sobre pessoas heterosexuais, indicaria os mesmos índices hormonais de uma população assumidamente homossexual;

Para o crescimento psicológico tem-se afirmado que é indispensável a presença das figuras do pai e da mãe, a diferenciar e pontuar as características de gênero. A ausência ou pouca precisão nesses contornos provocariam distorções na construção dessa personalidade? Com certeza a presença de pai e mãe são elementos estruturantes da personalidade;

A questão da identidade se arvora como central em toda essa discussão. Isto é, a legitimização do sujeito se faz com amor, costuma-se dizer, com o afeto que se empresta à relação, com o tanto de carinho que mobiliza a relação. Correto. Mas, a construcão da identidade - quem eu sou? de onde venho? - perdura como a essencial. O novo sujeito buscará intensamente a resposta a estas questões. Aquilo que tem a ver com a sua origem. Todo ser humano quer saber disso.

Durante milhares de anos a espécie humana buscou construir um modelo de organização social primária. Deu-se a família. Que tem pai, mãe, filhos. A ruptura desse modelo ancestral não se faz sem riscos. O que acontece com um filho que nasce sem pai? O que pode se dar com a existência de alguém que convive com duas pessoas, ambas do mesmo sexo, e que resolvem patrocinar a paternidade desse novo ser vivo? O desafio não é apenas daquelas duas criaturas, mas do próprio modelo humano que se fez ao longo de milhares de séculos...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    1. FOUCAULT, Michel - História da sexualidade, Rio de Janeiro, Ed. Graal, 1985;
    2. FREUD, Sigmund - Três Ensaios Sobre a Sexualidade Infantil - 1905, S.E., vol.VII.
    3. FRY Peter/Eduard Macrae - O que é homossexualidade, Ed. Brasiliense;
    4. PORTINARI Denise B. - O discurso da homossexualidade feminina, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1989;
    5. MURARO, Rose Marie - A sexualidade da mulher brasileira: corpo e classe social no Brasil, 2a ed. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1996;
    6. STOLLER, Robert J. - Masculinidade e Feminilidade - Artes Médicas, 1993.

 

(*) Antonio Mourão Cavalcante é médico psiquiatra e antropólogo. Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Autor do livro: DROGAS, ESSE BARATO SAI CARO (Ed. Record). E-mail [email protected].


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