Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2002 - Vol.7 - Nº 9

No Paiz dos Yankees

Depressão no idoso: Origem Vascular ?

Dr. Erick Messias

Introduções

O departamento de psiquiatria da Johns Hopkins organiza seminários semanais de pesquisa, para onde são convidados os líderes da pesquisa psiquiátrica norte-américana. Neste segundo semestre de 2002 a série foi aberta pelo professor Ranga Krishnam, chefe do departamento de psiquiatria da Duke, na Carolina do Norte.

Na apresentação do palestrante um primeiro detalhe chama a atenção: o Prof. Krishnan, chefe de departamento de uma das mais prestigiadas escolas de medicina dos Estados Unidos é estrangeiro. O nome, a pele escura, o sotaque do subcontinente indiano contam uma história de oportunidades oferecidas, e aproveitadas, por esse psiquiatra formado pela Escola de Medicina de Madras. Contam também da abertura desse país poderoso e rico para com estrangeiros de talento e dedicados ao trabalho – uma lembrança necessária nesses tempos difíceis de desconfiança e hostilidade mútuas entre a hegemonia hollywoodiana e diversas culturas do planeta.

O tema da palestra era depressão de início tardio, e a hipótese defendida pelo Dr. Krishnan de que haveria uma entidade nosológica separada nesses casos, com uma origem vascular.

Características da depressão de início tardio

O delineamento de uma categoria nosológica independente começa pela descrição de fatores de risco que a separam da entidade conhecida, no caso da depressão maior. Três fatores de risco apresentam menor importância nos casos de depressão de início tardio (após os 50 anos) que na depressão:

História familiar de depressão

Eventos adversos da vida

Perda do apoio social

Esse perfil alterado de fatores de risco aponta para um processo etiopatológico separado daquele presente na depressão maior. Estudando as características clínicas desses pacientes, alguns sinais clínicos foram notados:

Presença de sinais neurológicos não focais (soft)

História de doença vascular

História de Acidente Vascular Cerebral (AVC)

Presença de alterações na substância branca cerebral

Essas alterações na substância branca foram investigadas e sua origem está relacionada com infartos e alterações nos espaços perivasculares. Alguns dos pacientes não apresentavam os sinais clássicos de AVC, levantando a hipótese de que a própria depressão de início tardio fosse uma manifestação da lesão vascular, neurologicamente silenciosa.

Os sinais psiquiátricos nesses casos demonstram uma presença mais acentuada e freqüente de apatia e retardo psico-motor. Assim os critérios propostos para a depressão vascular seriam:

Preencher os critérios para episódio depressivo

Apatia

Retardo psico-motor

Evidência de doença vascular fora do sistema nervoso central

Alterações estruturais na arquitetura cerebral (CT ou ressonância)

Outras características clínicas

Refratário ao tratamento farmacológico

Maior tempo de recuperação do episódio

Maior risco de AVC

Maior risco de recorrência

Maior risco de demência vascular

Implicações no tratamento

Devido à maior resistência ao tratamento farmacológico, Eletro Convulso Terapia (ECT) tem sido proposto como teerapia de escolha nesses casos. Ainda não há estudos conclusivos mas a experiencia clínica parece apontar nessa direção. Psicoterapia comportamental e cognitiva também tem sido estudada nesses casos, assim como o uso de exercícios físicos que possuem a vantagem extra de diminuir o risco de eventos vasculares.

Prognóstico

O potencial de complicações nesse pacientes é grande, por isso o monitoramento médico e psiquiátrico assim como o tratamento agressivo é indicado para prevenir a morbidade e mortalidade aumentada constatada nesses casos.

Conclusão

Doenças vasculares e episódios depressivos apresentam uma intercessão no idoso. O achado que depressão aumenta o risco em doença cardíaca está bem estabelecido, enquanto que aqui vemos o papel do mal vascular na depressão de início tardio. A pergunta clássica que resta nesses estudos epidemiológicos é a questão de quem causa quem. Ou então corremos o risco de agirmos como aquele português que não toma adoçante para não engordar pois notou que "todo mundo que usa isso é gordo!".

Não há uma linha etiológica clara entre doença vascular e depressão. A associação existe. O melhor modelo pode ser representado no esquema abaixo, onde um pode causar o outro, mas pode haver um terceiro fator desconhecido que cause ambos.


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