Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2002 - Vol.7 - Nº 6

No Paiz dos Yankees

Lacan não sabia topografia

Pensamentos acercas do livro Imposturas Intelectuais (Fashionable Nonsense)

Dr. Erick Messias

A coluna do mês passado sobre as idéias de Fuller Torrey despertou certa reação, apropriada e esperada, da nossa lista de psiquiatras brasileiros. Torrey representa um ponto de vista combativo e não são poucos os que discordam veementemente de suas idéias aqui mesmo nos Estados Unidos. De certa forma Fuller Torrey é uma caricatura do psiquiatra norte-americano que muitos tem no Brasil como a norma nas terras do Tio Sam.

Já que há essa dicotomia Europa-América (que alguns chamariam Francófilos versus Anglófilos) , com pensadores se colocando em cada campo de armas em punho e dispostos para a discussão, esse mês dedicarei esse espaço ao capítulo de um livro que causou certa celeuma nessas terras e trata de Jacques Lacan, que no meu entender representa, por sua vez, a caricatura do pensador francês.

O livro foi primeiro publicado na França com o título Impostures Intellectuelles, e tem tradução para o português como Imposturas Intelectuais, e em inglês como Fashionable Nonsense – postmodern intellectuals’ abuse of science. O próprio livro tem uma história interessante.

Os autores são Alan Sokal, professor de física da Universidade de Nova Iorque e Jean Bricmont, da Universidade de Louvain, na Bélgica. A história começou em 1996, quando Sokal submeteu um artigo para a revista Social Text, publicada com a chancela da Universidade Duke. O objetivo desse trabalho era desmascarar o uso, e abuso, do jargão científico em interpretações sociais, econômicas e psicológicas. O trabalho era uma coleção de frases sem sentido, propositadamente obscura, fazendo uso generoso de citações dos campeões pós-modernos como: Feyerabend, Irigaray, Derrida e Aronowitz. O título de seu trabalho-armadilha por si só já deveria ter levantado suspeitas:

Ultrapassando os limites: rumo a hermenêutica transformativa da gravidade quântica.

O artigo foi aceito e publicado pela revista. O autor então escreveu para o editor e revelou a paródia. A reação foi amarga. Os editores se recusaram a publicar uma explicação do autor acerca da armadilha, que seria posteriormente publicada na revista Dissent e Filosofia e Literatura – no final de 1996.

Devido ao sucesso e ao impacto que tal paródia teve no meio acadêmico francês e norte-americano os autores partiram para um projeto mais ambicioso: um livro onde cada um desses intelectuais seriam escrutinados em suas ‘viagens’ pela matemática e física.

Jacques Lacan lidera essa lista – do qual fazem parte outros queridinhos de alguns grupos brasileiros, como Deleuze e Guatarri.

Os autores se limitam a criticar as incursões de Lacan na matemática, particularmente seu uso dos números imaginários e da topologia. De acordo com os autores, do ponto de vista matemático Lacan simplesmente não faz sentido. Suas afirmações, aparentemente profundas e obscuras, são na verdade pura tolice. Um dos exemplos citados é essa equação apresentada por Lacan em um de seus escritos:

S (significante) = s (a frase), com S = (-1), produz s= img1.gif

s (significado)

De acordo com os autores do livro essa equação e a interpretação dada a ela simplesmente não fazem o menor sentido matemático.

Outros exemplos são mencionados no capítulo acerca das mistificações e sandices praticadas por Lacan contra a matemática e a topologia.

Particularmente o que mais me espanta em Lacan é sua incapacidade de produzir um discurso claro. Seu pensamento é rebuscado e cheio de obscurantismo. Acredito, ou quero acreditar, que esse problema tenha se agravado com a idade e que os textos lacanianos mais antigos sejam mais úteis e intelegíveis.

Ao ler a biografia de Lacan escrita por Elisabeth Roudinesco fiquei com a nítida impressão que suas ‘intervenções’ acerca da topologia e da matemática eram produto de uma mente envelhecendo, e de um cérebro poderoso, carregado de idéias e do humanismo europeu, mas que por não contar com a capacidade de autocrítica e não encontrando em seus discípulos alguém com a coragem, ou capacidade, de questionar o ‘mestre’ começou a degringolar (tendo Lacan proposto a idéia do suposto saber, essa situação não deixa de ser irônica.)

Obviamente que essa crítica não pode, nem deve, ser automaticamente estendida às idéias de Lacan acerca de mente e da organização do inconsciente. Mas devemos aprender a ler criticamente os ‘mestres’ e saber que eles são passíveis de erro e são particularmente susceptíveis às tentações da vaidade humana.

Ainda assim recomendo o texto de Lacan sobre a carta roubada, acerca de um texto do americano E.A. Poe, para os psiquiatras em treinamento. Esse texto de Lacan está entre os mais inteligentes textos que já li. Leiam também o livro de Sokal e o conto de Poe.

Ficamos assim com um balanço entre as caricaturas americanas e francesas. Como será que podemos construir a nossa proposta brasileira de ciência e filosofia a partir desses modelos? Penso que há necessidade de trabalharmos nisso, lendo criticamente o produto europeu e americano, e aprendo a pensar independentemente. Pessoalmente acho que devemos criar nossa própria caricatura, ou como disse Chico Buarque e Gilberto Gil: quero morrer do meu próprio veneno.


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