Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Março de 2002 - Vol.7 - Nº 3

No Paíz dos Yankees

Andrea Yates e o destino dos insensatos

Notas farmacológicas

Dr. Erick Messias

Andrea Yates e o destino dos insensatos

A tragédia de uma mãe que afoga seus cinco filhos pequenos possui as dimensões de uma tragédia grega onde os mortais sofrem da ira dos deuses – ou a ira das próprias paixões. Na Medéia de Eurípedes, a protagonista sofrendo com a infidelidade de Jasão, o marido, trama a vingança mais dolorosa possível. Nas palavras de Pessotti:

A loucura de Medéia é o desfecho de um conflito que opõe o amor de mãe à sede de vingança. A opção pela vingança é consciente, fria e calculada, de modo a levar Jasão ao máximo de sofrimento.

Com esse exemplo, entre outros, o autor procura demonstrar a transição do pensamento grego de uma concepção demoníaca para uma concepção trágica, onde a loucura passaria de punição divina para resultado das paixões humanas. Há ainda o conceito médico e no livro A Loucura e as Épocas todo esse percurso, com idas e vindas, está bem delineado.

Voltemos ao Texas, no começo do século 21. A tragédia grega se repete, e Andrea vai a julgamento depois de ter ligado ela mesma para a polícia e confessado o crime. Novamente as diferentes noções de loucura, e das causas da loucura, emergem no fórum popular: fruto de paixões irreconciliáveis? Castigo de Deus? Ou mais uma doença do cérebro, um desequilíbrio na química cerebral?

Acreditem ou não todo esse debate foi re-encenado aqui nesses Estados Unidos de Bush nos últimos meses. Esse final de semana um pregador da palavra de Cristo esteve nas redes de TV a comentar sobre o casal Yates. Alguns meses atrás foi a notícia de que o marido acredita que a mulher estava possuída pelo demônio. Lembre-se que o Texas faz parte do chamado Bible belt. Já há rumores de problemas entre o marido e a esposa, que teriam influenciado Andrea em seu caminho trágico. Psiquiatras foram depor durante o julgamento sobre a realidade da depressão pós-parto e suas consequências. A família já fala em processar o psiquiatra que deu alta a Andrea após o parto quando ela apresentava sinais de depressão com sintomas psicóticos.

No fim do julgamento Andrea foi considerada culpada, mas escapou da execução estilo texano pegando prisão perpétua. A própria acusação pareceu evitar a pena capital. Ficou a impressão de que justiça não foi feita com aqueles que sofrem daquilo que chamamos doença mental – afinal está coluna é de um psiquiatra para outro psiquiatras.

O conceito hegemônico hoje é de que a doença mental é um desequilíbrio no funcionamento do sistema nervoso. Sendo assim Andrea não deveria se culpada – sendo classificada com iniputável. O resultado desse julgamento – na maior potencia do mundo, como se diz por aqui – mostra mais uma vez que ser hegemônico não significa ter domínio completo sobre as entidades alternativas. E isso deveria mandar um sinal para a maior potencia do mundo. Ou não?

Curtas

Notas do Psychiatric News de março

Alerta sobre miocardite associada a Clozapina

O FDA anunciou em fevereiro um novo alerta sobre a clozapina relacionado ao risco de miocardite. Segundo a vigilância de reações adversas, mantida pelo FDA, 82 casos de miocardite foram registrados em pacientes em uso de clozapina – resultando em 31 mortes. Esse risco é pelo menos 17 vezes maior que o da população geral.

Síndrome de Call-Fleming e uso de medicamentos associados a modulação de serotonina

Essa síndrome é caracterizada por dor de cabeça grave, convulsões e déficit neurológicos focais e no número de janeiro da Neurology um estudo de caso relatou três casos em pacientes em uso de medicamentos moduladores da serotonina, uma mulher tomando sertralina e trazodona; outra em uso de paroxetina e clonazepan e um paciente em uso de sumatriptan. O quadro inicial evoluiu para resolução após a retirada da medicação suspeita. Esse é um achado inicial mas clínicos que prescrevem inibidores da re-captação da serotonina devemos ficar alertas.

Referência

1. Pessotti I: A loucura e as epocas. Rio de Janeiro, 34, 1995


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