Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2002 - Vol.7 - Nº 1

No Paiz dos Yankees

Violência no trabalho: mais uma epidemia norte-americana?

Dr. Erick Messias

Em junho de 2001, a associação psiquiátrica norte-americana (APA) e o centro Carter promoveram um simpósio para a comunidade de empresários dos EUA. Uma das palestras foi proferida por Ronald Schouten, um psiquiatra & advogado, professor de psiquiatria na Harvard – recentemente resumida no boletim Psychiatric Practice and Managed Care. O título de sua palestra foi: Violência no Local de Trabalho: fatos, ficção e prevenção. Alguns pontos levantados por ele são interessantes para uma discussão informada acerca desse tema, tão alardeado pela mídia daqui e, imagino, aí no Brasil também.

A primeira informação de interesse diz respeito a essa impressão de epidemia que cerca as reportagens dos telejornais, cada vez que um funcionário abre fogo nos colegas – corre CNN, a televisão inicia transmissão instantânea e começam a passar a impressão de epidemia. Segundo o centro de estatísticas do trabalho americano, que monitoriza homicídios no local de trabalho desde de 1992, depois de um pico em 94, com 1100 assassinatos, o número de homicídios no trabalho tem diminuído, até chegar a 650, em 1999.

Outro ‘mito’ perpetuado nas reportagens é o do funcionário que mata por guardar mágoas da empresa, do empregador ou dos colegas. Os números apresentados pelo centro de estatísticas do trabalho apontam os seguintes tipos de homicídios, em sua monitorização de 92 a 99:

Tipo de homicídio (%)

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

Roubos/assaltos

75

73

74

80

85

79

77

Alguém no trabalho

10

9

11

14

9

14

16

Colega de trabalho

6

5

9

8

7

9

10

Cliente

4

4

2

6

3

5

6

Conhecido

4

4

4

5

5

6

7

Cônjuge

1

2

1

2

2

2

3

Namorada/o

1

1

1

1

1

1

2

Parentes, outros conhecidos

1

2

3

2

3

1

2

 

Ou seja, os números nos indicam que homicídio no local de trabalho é muito mais provavelmente resultado de assalto ou roubo do que resultado da ação de um trabalhador ‘ressentido’.

A capacidade de prever e, assim, prevenir violência no trabalho é outra área onde há muita especulação e poucos dados concretos. Seria possível identificarmos aqueles funcionários mais propensos à violência? Aqui, novamente, ainda estamos longe de um conhecimento que possa ser traduzido em diretrizes de ação. Um dos perfis desenvolvidos a partir dos dados epidemiológicos aponta para:

Homem branco, entre 30 e 50 anos de idade, cuja identidade é derivada do trabalho, que tem dificuldades para lidar com autoridade e gosta de trabalhar sozinho.

Ora, esse perfil descreve um percentual enorme dos trabalhadores em atividade, hoje, de modo que a especificidade de tal perfil, embora acuse alguma sensibilidade, não tem serventia no sentido de seleção. Mas, então, o que fazer?

A primeira medida é incentivar a vigilância dos trabalhadores para os primeiros sinais de possibilidade de violência. Desse modo, empresas devem desenvolver políticas acerca de como lidar com ameaças e com a violência per si; prestar atenção em seus empregados e abrir canais através dos quais eles possam expressar insatisfações e resolver conflitos do dia-a-dia, de modo negociado e pacífico. O papel dos colegas também é fundamental, já que convivem diariamente e podem captar mudanças mais sutis no humor e na maneira como cada um reage às dificuldades nas tarefas. Propiciar um local de trabalho saudável, não somente do ponto de vista físico-ergonômico, mas também do ponto de vista de saúde mental, é dever de toda empresa moderna.

Outra medida a ser implementada na política de prevenção de violência é a disponibilização de consultas de saúde mental para os trabalhadores, com psicólogos, psiquiatras ou assistentes sociais.

O que se pode concluir desses dados epidemiológicos?

Primeiro, que não há essa aparente epidemia que se alardeia pela imprensa, sempre que um caso espetacular ocorre.

Segundo, que a maioria dos casos de violência, no trabalho, constitui-se em prolongamento da violência das ruas; nesse caso, os assaltos e roubos.

Terceiro, que nossa capacidade de prever quem vai ser violento no trabalho é limitada. Quarto, que, no entanto, há medidas que podem ser tomadas por empresas para diminuir o risco de um evento dessa natureza.

E, finalmente, que não há situação de risco zero e que devemos, todos, estar atentos aos primeiros sinais de crise.


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