Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2002 - Vol.7 - Nº 7

Artigo do mês

Perguntas e respostas sobre o tratamento da dependência de cocaína – uma orientação para pacientes e familiares

Dr. Guilherme Rubino de Azevedo Focchi
Mestre em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP

Dr. Marcos da Costa Leite
Doutor em Psiquiatria pela FMUSP. Coordenador da Residência Médica em Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC

1) Em primeiro lugar, o que é tratamento?

O tratamento da dependência de cocaína é o conjunto de medidas tomadas pelo médico e por sua equipe, no sentido de ajudar o dependente a ficar e a se manter abstinente da droga. O tratamento depende da motivação do indivíduo para se tratar, da colaboração da família e da equipe que vai atendê-lo(a).

2)Por que tratar a dependência da cocaína?

O indivíduo dependente de cocaína acaba por sofrer problemas em praticamente todas as esferas de sua vida: afasta-se dos amigos e da família, sofre os problemas decorrentes do uso da droga. Pode ter problemas legais (por exemplo: prisão por roubo ou por porte de drogas), não consegue manter seu emprego.

Além disso, é comprovado em alguns estudos que indivíduos dependentes de cocaína que procuram tratamento têm ao longo do tempo menos complicações do que aqueles que não procuram (BERNIK, 1991).

Essas são razões suficientemente fortes para que se justifique o tratamento de dependentes de cocaína.

3) Quem se beneficia do tratamento?

O indivíduo dependente de cocaína, sua família, as pessoas com quem vive e a Sociedade. O indivíduo dependente de cocaína é quem mais ganha com o tratamento.

4)Quais são as razões para a procura de tratamento?

As pessoas que procuram tratamento para dependência de cocaína, em geral, são aquelas que apresentam uma série de problemas pela droga, sendo muitas vezes trazidas pela família e não admitindo o problema que têm com a droga. Esses indivíduos, com certeza, precisam de tratamento.

5) Como é o tratamento?

Dividiremos o tratamento básico para dependência de cocaína em fases ou etapas (CARROLL, 1994):

  • Etapa 1. Promoção de abstinência (desintoxicação)

O(a) dependente de cocaína deve ficar sem usar essa droga e quaisquer outras (como álcool e maconha), até a semana seguinte.

É estipulado um contrato, em que deverá obedecer algumas regras:

    a) Abstinência total de todas as drogas, incluindo álcool (pois o álcool, e também a maconha, podem desencadear uma "fissura" pela cocaína);

    b) Evitar contato com usuários e traficantes (que fatalmente levarão o indivíduo a usar a droga de novo);

    c) Eliminar todos os objetos relacionados ao uso de drogas que o(a) dependente tem em casa (como cachimbos, espelhos, etc. - é o que se chama de "parafernália"). Com a ajuda da família, esses objetos devem ser jogados fora, pois a simples visão deles pode desencadear uma "fissura", levando ao uso da droga;

    d) Fazer um diário (escrever diariamente sobre sua rotina, a vontade de usar cocaína, o que faz quando tem vontade, etc.);

    e) Manter atividades corriqueiras ou, se está desocupado(a), esquematizar uma nova rotina de atividades. O indivíduo não deve ter tempo nem para pensar na cocaína, pois isso já é meio caminho para usá-la. Não há nada pior do que o ócio!

    f) Frequentar um grupo de auto-ajuda como os "Narcóticos Anônimos", onde o indivíduo poderá discutir seu problema com outros dependentes, podendo encontrar no grupo, sempre, encorajamento e apoio (gratuitos) (WASHTON, 1989).

  • Etapa 2. Tratamento das complicações

Essa etapa ocorre ao mesmo tempo em que ocorre a primeira etapa, de promoção de abstinência. São tratadas as complicações pelo uso da droga – por exemplo: o indivíduo dependente de cocaína pode apresentar crises de convulsão, alucinações, não conseguir dormir noites inteiras, etc. devendo receber, a depender do caso, medicação apropriada.

  • Etapa 3. Prevenção de recaídas

Nessa etapa o médico já sabe mais da rotina de seu(sua) paciente e do que pode levá-lo(a) a usar a droga, sendo que o diário pode fornecer informações valiosas. Procura-se prevenir que o indivíduo use cocaína novamente.

Nessa fase, o indivíduo dependente de cocaína já deve iniciar uma mudança em seu estilo de vida, de modo a fazer o que gosta, mas sem a participação da cocaína.

Essa fase dura 1 ano e evidentemente, as regras do contrato inicial devem ser obedecidas à risca, pois disso dependerá o bom andamento do tratamento.

  • Etapa 4. Recuperação avançada

Dura toda a vida. O indivíduo nunca mais poderá usar cocaína, maconha, álcool e outras drogas, sob pena de voltar à sua antiga situação (muitas pessoas não devem nem querer lembrar disso). Deverá fazer uso do que aprendeu durante as outras etapas, devendo estar consciente de que nem sempre terá um médico por perto para ajudá-lo(a).

6) Como a família do dependente de cocaína pode ajudar?

A família pode ajudar complementando dados que o(a) paciente dá ao médico, socorrendo o(a) familiar nos momentos mais difíceis, ajudando-o(a) no cumprimento do contrato terapêutico, lembrando-o(a) de tomar sua medicação (caso use) ou envolvendo-se em grupos de orientação contra as drogas na comunidade. Lembremos que fazer tudo isso não é nada fácil, e por isso os familiares do paciente devem receber apoio da equipe terapêutica.

7) Por que o tratamento para dependência de cocaína é dividido em fases?

Porque não ocorre instantaneamente, é um longo processo. O indivíduo fica mais confiante, sabendo que está sendo acompanhado de perto, e consegue comprometer-se a parar o uso da cocaína até a semana seguinte, um espaço de tempo relativamente curto (WASHTON, 1989).

8) Para que serve a medicação?

A medicação pode ser usada para tratamento de condições associadas à dependência de cocaína (ex: Depressão).

Infelizmente, ainda não se descobriu um medicamento eficaz para tratar a vontade que o indivíduo tem pela cocaína, o que poderia impedi-lo(a) de usar a droga.

A medicação poderia atuar antagonizando os efeitos da cocaína, fazendo a pessoa se sentir mal ao usá-la ou mesmo substituindo a cocaína (sendo nesse caso um composto menos tóxico). Vários medicamentos já foram testados, sem sucesso real.

É importante reforçar que qualquer medicação não terá sucesso no tratamento da dependência de cocaína, se não for usada em conjunto com as outras estratégias de tratamento já expostas.

9) Quando internar?

A internação é necessária quando:

  1. O indivíduo dependente de cocaína fica perigoso(a) para si e/ou para os outros (ex: fica agressivo(a), tenta o suicídio);
  2. Apresenta problemas clínicos ou psiquiátricos graves, exigindo cuidados intensivos;
  3. É incapaz de parar a droga, não conseguindo fazer o tratamento em Ambulatório.

10) O que é a abordagem multidisciplinar?

O médico, sozinho, pouco pode fazer pelo dependente de cocaína, devendo então contar com uma equipe multidisciplinar, tentando assim abordar o indivíduo dependente e seu problema da forma mais completa possível. Essa equipe é composta, além do próprio médico, por enfermeiro, psicólogo, terapeuta ocupacional, terapeuta familiar, etc.

O enfermeiro pode motivar o indivíduo a manter o tratamento, o psicólogo pode abordar problemas de sua vida (muitos deles decorrentes da droga), o terapeuta ocupacional pode ajudá-lo a planejar suas atividades, o terapeuta familiar pode abordar problemas familiares decorrentes da droga. Há em cada uma dessas áreas, uma série de técnicas que pode ser aplicada por esses profissionais, no sentido de o tratamento funcionar da melhor maneira possível.

O médico coordenará o funcionamento da equipe multidisciplinar, além de tratar as complicações decorrentes do uso da cocaína, estipular o contrato e orientar o dependente e a família.

A Reabilitação é o resultado de todos os esforços combinados, em que o indivíduo dependente de cocaína passa a conduzir sua vida de outra forma, e a cocaína não mais participa.

Concluindo, a equipe multidisciplinar é importante no tratamento, que é difícil (mas não impossível!). Tudo dependerá, em essência, do indivíduo dependente de cocaína e de sua motivação para se tratar.

Referências:

  1. CARROLL,M.- Cocaine and Crack. N. J., The Drug Library, 1994, pp. 50-88.
  2. BERNIK, M. A.- "Planificação do Tratamento de Alcoolistas." In: Fontes, J. R. A. ; Cardo, W. N. (eds): Alcoolismo: Diagnóstico e Tratamento. São Paulo, Sarvier, 1991.
  3. WASHTON, A. M.- Cocaine addiction: treatment, recovery and relapse prevention. New York, W W Norton & Company, 1989.

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