Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2001 - Vol.6 - Nš 10

História da Psiquiatria

A Psiquiatria Brasileira na década de 60 (I)

Dr. Walmor J. Piccinini

Introdução

Os anos 60 foram extraordinários e mudaram o mundo. Em todas as áreas da atividade humana explodiram acontecimentos extraordinários. Pretendo relacionar alguns fatos que confirmam esta minha introdução entusiasmada.

No cinema, os anos 60 começaram com o sucesso da "Dolce Vita" do Fellini, de " Rocco e seus irmãos" e o mega sucesso do épico "Bem Hur". Em 1962 o nosso "Pagador de Promessas" ganhou o Festival de Cannes e neste mesmo ano o mundo chorou a morte de Marilyn Monroe. Ela tinha apenas 37 anos, seu suicídio era incompreensível para os jovens sonhadores. Em 1960 foi liberado o uso da pílula anticoncepcional, da Vacina Sabin contra a poliomielite e o cientista italiano Daniel Petrucci assombra o mundo com a fertilização de óvulos humanos fora do útero. Em 1961, Iuri Gagarin realiza o primeiro vôo orbital tripulado da história. Este fato assombrou os americanos que se lançaram numa contra-ofensiva que culminou em 21 de julho de 1969 com o primeiro côo tripulado para a lua. Neil Amstrong pisou o solo lunar sob o olhar assombrado em frente da TV de 520 milhões de pessoas.

Os brasileiros começaram a década assistindo a inauguração de Brasília. No mesmo ano Jânio Quadros foi eleito e tomou posse em 31 de janeiro de 1961. Em agosto envia carta renúncia ao Congresso Nacional imaginando que daria um susto em todo mundo e quem levou o susto foi ele. A carta foi lida, aceita a renúncia e o presidente do congresso assume a Presidência. Este gesto desencadeou o movimento pela legalidade pela posse do vice-presidente e acabou desaguando no golpe militar de 1964. No mundo os problemas se acumulavam. Em 1960 John Kennedy assume a presidência dos EUA e começa o envolvimento dos americanos no Vietnam. No início eram enviados assessores militares para treinar os vietnamitas, a guerra foi se complicando e em 1962 já estavam 15 mil soldados no Vietnam. Em 1968 o número total chegou a 573.000 e os resultados eram cada vez mais constrangedores.Em 1963 Kennedy foi assassinado, em 1968 seu irmão Bob junto com Marin Luther King também morreu pela mão de assassinos.

Na Medicina tivemos progressos nas vacinas, no conhecimento do DNA e nas cirurgias, principalmente o transplante cardíaco que começou na África do Sul com o Dr. Barnard. Nestas alturas você poderá estar se perguntando o que a psiquiatria tem que ver com tudo isso? Vamos tentar responder com um depoimento pessoal. Eu era muito novo em 1960, talvez minhas observações sejam diferentes de outras pessoas, isso não as invalida e podem auxiliar a compor um quadro dinâmico para a época.

A Psiquiatria dos anos 60.

Os hospitais começavam a inverter a curva ascendente de internamentos graças aos novos neurolépticos. Cada número do American Journal, dos Archives trazia um novo produto para auxiliar no tratamento psiquiátrico. Os lançamentos não obedeciam às normas de hoje em dia e sua avaliação era feita diretamente com o paciente final. Aí aconteceu uma tragédia, um novo sedativo chamado Sedalis, foi amplamente consumido por mulheres grávidas. Em 1961 começaram a aparecer trabalhos afirmando a teratogenicidade da talidomida que era a substância química do Sedalis. Calcula-se que 15 mil crianças nasceram com defeitos anatômicos devido à talidomida. Esta tragédia serviu para que medidas de controle rígidas fossem empregadas na pesquisa e nasceu ai o destaque da Food and Drugg na aprovação de novos produtos.

Em 1960 o Prof Leme Lopes organizou um simpósio sobre " Estados Depressivos" cuja estrela era o Professor Lopez-Ibor. Na ocasião foram apresentados alguns trabalhos de pesquisa com o uso do Tofranil ( Ciula, Pacheco e Silva) e uma visão psicanalítica da depressão pelo Prof. Walderedo Ismael de Oliveira. Nesse simpósio se percebia a formação de tendências que perduram até hoje. A grande diferença é que quem usa psicofármacos não é mais visto como profissional de segunda categoria. A questão "nature vs nurture" permeava os debates. Como curiosidade vou trazer uma citação de Churchill publicada no Amer. J.of Psychiatry de setembro de 1965 sob o título Body and Mind. "Uma bala na perna torna um homem corajoso num covarde. Um tiro na cabeça pode tornar um sábio num idiota. Entretanto eu li que uma certa quantidade de absinto pode tornar um bom homem num canalha. O triunfo da mente sobre a matéria não parece estar completo, ainda."

Voltamos ao meu depoimento. Em 1960 eu era estudante do primeiro ano da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não tinha a mínima idéia do que fosse psiquiatria e nem pensava nela como possibilidade de trabalho médico. A necessidade de trabalhar e conseguir meu sustento era minha grande preocupação. Na entrada da faculdade havia um quadro de avisos onde eram colocados recados, avisos e ofertas de emprego. Um desses avisos solicitava estudantes para trabalharem na Clinica Pinel de Porto Alegre. Candidatei-me ao cargo de atendente psiquiátrico e fui selecionado pelo Dr. Marcelo Blaya que era o dono do estabelecimento. Na verdade, eram duas casas adaptadas, com pequeno grupo de pacientes cujas famílias, tendo experimentado inúmeros tratamentos passaram a depositar grande esperança naquele psiquiatra recém chegado dos EUA. Ele vinha de uma experiência de 4 anos de Residência na Clínica Menninger de Topeka, Kansas. Mais tarde vim a descobrir que a referida Clínica era um centro de excelência em psiquiatria dinâmica e considerada um modelo de atendimento moderno em psiquiatria. Minha experiência como Atendente foi relatada em artigo publicado nos Arquivos da Clínica Pinel em 1962. A Clínica Pinel tornou-se um ponto de referência na prestação de atendimento e na formação de profissionais em saúde mental. Jovens de todo Brasil vinham a Porto Alegre em busca de uma formação inovadora em psiquiatria.

A Psiquiatria Brasileira como era?

A Clínica Pinel era particular, os poucos pacientes com cobertura por alguma entidade, eram funcionários da Caixa Federal e do ex-IAPC. A grande maioria de pacientes que não tinham recursos ou cobertura previdenciária eram encaminhados ao Hospício São Pedro, um macro-hospital que chegou a ter mais de 5000 pacientes internados. Este fato se repetia no resto do país, Hospício de Juqueri em São Paulo, Hospício Pedro II do Rio de Janeiro, O Hospício da Tamarineira em Recife, O Asilo São João de Deus na Bahia, o Instituto Raul Soares e o Hospital Galba Veloso em Belo Horizonte. Todos os estados, ou quase todos, tinham seu macro-hospital. A Cátedra era a base do ensino na Universidade. Os psiquiatras mais importantes da época eram os catedráticos. O Prof. A C. Pacheco e Silva na USP, O Prof. Darcy de Mendonça Uchoa na Federal de São Paulo, o Prof. José Lucena em Pernambuco, o Prof. Álvaro Rubin de Pinho na Bahia, O Prof Paulo Luiz Viana Guedes no Rio Grande do Sul e outros. Os Centros de Estudos formados pelos profissionais dos hospitais rivalizavam com a cátedra na produção científica. No ano de 1960 existiam duas revistas psiquiátricas com periodicidade e qualidade, eram o Jornal Brasileiro de Psiquiatria ligado ao IPUB e a Revista Neurobiologia ligada ao Sanatório Recife, ambos obra de Ulysses Pernambucanos. Em 1961 surgiram em Porto Alegre duas revistas, Psiquiatria, ligada ao Centro de Estudos Luiz Guedes, também constituído no mesmo ano e Arquivos da Clínica Pinel ligada ao Centro de estudos da mesma Clínica. Em 1962 surgia a Revista de Psiquiatria ligada ao Centro de Estudos da Casa de Saúde Dr. Eiras no Rio de Janeiro. As revistas tinham conotação mais biológica ou mais psicodinâmica de acordo com suas origens.

No meu trabalho como atendente, depois como residente e mais tarde como psiquiatra nos anos 60 pôde observar o lançamento de muitos medicamentos, uns continuam até hoje e muitos ficaram pelo caminho. Esquizofrenia era tratada com neurolépticos (Amplictil, Promazionon, Neozine, Neuleptil, mais tarde surgiu o Haldol) e eletrochoque. Cheguei a assistir o uso da insulinoterapia, mas por pouco tempo, logo foi abandonada. As depressões eram tratadas com antidepressivos (Tofranil, Anafranil, Tryptanol e IMAOs). Os quadros neuróticos mais graves e os alcoolistas recebiam o Clordiazepóxido (Librium). Os tratamentos em grupo eram a grande promessa para atendimento de massa e a psicoterapia de orientação dinâmica predominava, pelo menos na região sul.


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