Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2001 - Vol.6 - Nº 7

História da Psiquiatria

Voando sobre a Psiquiatria Brasileira:
Informática, Internet, Publicações Digitais 

Dr. Walmor J. Piccinini

No ano de 1978 a Revista de Neurobiologia publicou, num suplemento, os trabalhos apresentados num Simpósio realizado no Recife em homenagem ao Prof. José Lucena por ocasião da sua jubilação. O tema escolhido foi "Raízes e Tendências da Psiquiatria Brasileira". Dos excelentes trabalhos apresentados vou selecionar um aspecto que me interessa desenvolver e que foi abordado pelo Professor Luis Salvador de Miranda Sá Júnior, Titular de Psiquiatria da UFMGS. Na sua apresentação sobre a Psiquiatria no Contexto Brasileiro são feitas duas perguntas:

1. Que é História?

2. Existe uma Psiquiatria Brasileira?

A Segunda pergunta deixaremos para outra ocasião, vamos nos ater a primeira: O autor responde que a História pode ser vista a) "como um agregado caótico de fatos que vão ocorrendo ao acaso. A direção e a velocidade de seu curso seriam explicados, ora pela vontade das divindades, ora pela atividade de homens geniais que, se elevando dentre a mediocridade, impunham aos outros sua vontade e fariam a História".

b) "A outra forma de entender a História é como um processo em contínuo desenvolvimento, um encadeamento de fatos sujeitos a leis gerais que determinam sua direção e permitem entender a aceleração, o retardamento ou o retrocesso de seu curso, na dependência de fatos concretos, reais, passíveis de serem estudados objetivamente" Esta é a visão científica da História.

Transcrevo ainda do autor o trecho em que afirma:

"Nesta maneira de ver, a dimensão histórica da Psiquiatria há de ser entendida como um aspecto particular da história da Ciência e como uma faceta particular, mas não isolada, da História da Sociedade brasileira. A visão histórica da Psiquiatria tem que ser entendida como uma dimensão do desenvolvimento da ciência, em particular da Medicina à qual está indissoluvelmente ligada, situada no contexto do desenvolvimento social do povo brasileiro."

Nós estamos vivendo um importante momento de profundas modificações na nossa praxis psiquiátrica e nos recursos colocados à nossa disposição. É possível que alguns ainda não tenham percebido o que está acontecendo e recomendo meu artigo de junho da Psiquiatria online onde abordo as transformações que a especialidade está sofrendo. Poderíamos destacar alguns aspectos como:

a crescente autonomia e defesa dos direitos individuais dos pacientes;

a crescente auditoria externa sobre conduta terapêutica e resultados;

o uso progressivo da informação automatizada;

a maior facilidade de reciclagem e educação continuada.

A utilização de computadores no nosso dia a dia é relativamente recente. Existiam aquelas máquinas pioneiras difíceis de manejar, mas a partir dos anos 90 os equipamentos foram se tornando mais poderosos e mais amigáveis. Vou buscar na bibliografia, mais precisamente no meu Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria artigos de psiquiatras que evidenciam uma preocupação sobre o tema:

  1. Andreoli, Sérgio B.; Mari, Jair de Jesus, and Shirakawa, Itiro. Uso da Informática em Saúde Mental. Psicorama. 1991; 4(1):6-11.
    Keywords: informática; saúde mental
  2. Carvalho, Tárcio Fabio R. de. Multidiagnóstico computadorizado das depressões. Sistema LICETD 100. Rev.Neurobiologia,Recife. 1987; 50(-):219-240.
    Keywords: Psiquiatria e informática; multidiagnóstico informatizado das depressões
  3. Carvalho, Tárcio Fábio R. de and Sougey, Everton Botelho. Informática médica aplicada ao diagnóstico psiquiátrico. evolução, técnicas de desenvolvimento de programas e aplicações atuais. Rev.Inform.Psiq. 1996; 15(2):56-61.
    Keywords: informática médica em psiquiatria
  4. Cruz, Marcelo Santos. O uso do microcomputador para o registro de pacientes atendidos. In: Miguel Filho, E.C.Org. Interconsulta Psiquiátrica No Brasil. São Paulo, Ed.Astúrias,1990. 1990; 90-94.
    Keywords: computador; registros médicos; informática/ tisiopsiquiatria
  5. Hojaij, Carlos R. A Informática na Consulta Médica. J. Bras. Psiquiat. 1982; 31(1):47-8.
    Keywords: Informática; clínica

Artigos online

  1. A Informática em psiquiatria por Walmor J.Piccinini 1996 Agosto vol.1 - nº2 http://www.unifesp.br/dpsiq/polbr/
  2. O Computador no Consultório Psiquiátrico de Giovanni Torello 1996 Dezembro vol.1 - nº5
  3. Psiquiatria e Tecnologia: das bruxaria à cibernética - Denise Razzouk 1997 Julho vol.2 - nº7
  4. Publicações eletrônicas e mailing list em Psiquiatria: A Internet no Brasil- Giovanni Torello 1998 Março vol. 3 - nº3
  5. A Internet como fonte de atualização - José Knoplich 1998, Abril vol. 3 - nº4
  6. Pesquisa de Assuntos Médicos e Biomédicos na Internet: Diferentes Recursos Disponíveis - Antonio Carlos Lopes 1998, Outubro vol 3. nº 10
    http://www.unifesp.br/dpsiq/polbr/
  7. Psiquiatria na Prática Médica: A consulta médica virtual: aspectos éticos do uso da internet - http://www.unifesp.br/dpsiq/polbr/ppm/especial05.htm - Carlos José Reis de Campos, Meide Silva Anção, Monica Parente Ramos, Giovanni Torello e Daniel Sigulem - Departamento de Informática em Saúde e Departamento de Psiquiatria da Unifesp/EPM
  8. Psiquiatria na Prática Médica: O psiquiatra na internet: um paradoxo
    http://www.unifesp.br/dpsiq/polbr/ppm/especial02.htm - Torello, Giovanni - Centro de Estudos - Departamento de Psiquiatria - UNIFESP/EPM Volume 33, número 2 abr · jun 2000
  9. INFORMÁTICA MÉDICA APLICADA AO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO - Evolução, Técnicas utilizadas no Desenvolvimento de Programas e Aplicações atuais. - Tárcio Fábio Ramos de Carvalho1, Everton Boutelho Sougey2
    http://www.ebiomedbrazil.com/specialties/psych/arti/psych_arti_012.htm

A necessidade dos psiquiatras lidarem com a informática foi muito bem expressa por dois psiquiatras americanos Norman Alessi e Milton Huang da Universidade de Michigan, que sugerem: "Nesse meio ambiente, necessitamos treinar psiquiatras a usarem tecnologias com as quais irão interagir no seu trabalho diário. Além disso, nós precisamos auxiliá-los a introduzir a tecnologia da informação na sua compreensão, como atua na prática e de que forma a tecnologia da informação pode ser uma ferramenta útil, ao invés de ser uma exigência externa. Aprender a operar um computador é parte do que um psiquiatra deve saber. Seu interesse deve ir além, familiarizar-se com o conceito e o potencial que guiam a operação e implementação destes aparelhos.

A internet brasileira começou a funcionar no segundo semestre de 1995 e desde então seu uso vem crescendo no meio médico e, particularmente, no psiquiátrico. Creio estar sendo parte desta nova era por uma série de coincidências. Minha curiosidade com computadores começou nos anos 80 onde eu assistia aturdido as reuniões do MacClube em Porto Alegre. Eu era um feliz proprietário de um Apple 3000 e tentava aprender alguma coisa com o Dr. Luiz Ernesto Pellanda, psicanalista de Porto Alegre e um dos pioneiros da área. Nessa época já existiam alguns médicos que planejavam ganhar a vida com computadores e vários o fazem hoje em dia e são líderes na área. Lembro meu primeiro laptop, um Toshiba XP com tela colorida e que rodava o Word 5. (ainda está lá em casa e funcionando). Depois disso consegui um 286, seguiu-se um maravilhoso 486 com Cd-rom e multimídia. Em 1995 fui aos EUA e fui aceito como membro da Equipe de Informática no Depto de Psiquiatria da Universidade de Michigan. ( Lá funciona o primeiro fellowship em informática psiquiátrica dos EUA). Entrei na família dos Pentium e hoje disponho de equipamento top de linha. A melhora do equipamento foi acompanhada pelo desenvolvimento de aplicativos e, mesmo, sem grandes talentos pude desenvolver algumas áreas de interesse.

A psiquiatria americana sofria e sofre grande controle das empresas de "managed" e a conseqüência disto é uma crescente exigência burocrática. O preenchimento de papéis, relatórios, contas, informações consome um tempo enorme no dia a dia do profissional. A necessidade de se informatizar tornou-se questão de sobrevivência e de qualidade de vida. Assim nós tínhamos um crescente desenvolvimento de aplicativos para administrar o consultório e/ou clínicas, bem como uma busca de fórmulas para interagir diretamente com o paciente. Entrevistas estruturadas, checklist de sintomas, escalas de avaliação computadorizadas. Junta-se a isso o uso da internet na busca de informação, na administração da informação e na reciclagem de conhecimentos.

No Congresso da APA em Miami, no ano de 1995, um grupo de psiquiatras interessado na aplicação da informática em psiquiatria, lançou o embrião de uma sociedade que veio a receber o nome de Psychiatric Society for Informatics. Em 1996, no Congresso da APA em New York, foi organizado o primeiro Simpósio da PSI com cerca de 100 participantes. Nesse encontro reencontrei o Dr. Giovanni Torello que anunciou seu desejo de montar a versão brasileira da Psychiatry Online. Não só o fez, como no ano seguinte, no Congresso da APA em Washington, o Dr. Giovanni apresentava a experiência brasileira de Jornal Eletrônico em psiquiatria.

Ao retornar ao Brasil no final de 1966, senti uma certa indiferença geral em relação ao assunto. Alguns colegas lançaram sites de boa qualidade e com interesse comercial e , mesmo que não tenham conseguido seu intento, seus sites são de boa qualidade (http://www.doctorbbs.com.br e http://www.mentalhelp.net) No Congresso da ABP de 1997 em Brasília surgiram os primeiros simpósios de psiquiatria informática e um pequeno grupo de interessados entusiastas apresentava seus planos. O Dr. Geder Grohs de Santa Catarina apresentava seu Psiconet.org.br. , o Dr. Tárcio de Carvalho de Pernambuco mostrava o Hospital Virtual/psiquiatria, apêndice do Hospital Virtual da UNICAMP estruturado e mantido pelo Dr. Renato Sabbadini. A minha colaboração foi apresentar a primeira versão do IBBP em disquete. No Congresso da APA de 1998 em Toronto, mais brasileiros apresentavam contribuição nesta nova área, entre eles o Dr. Dartiu X.Silveira. No Congresso da ABP de 1998 em São Paulo entre os convidados estava o Dr. Myron Pullier que administra apreciado site na internet. Apresentei o I Volume do meu livro Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria e também sua primeira versão em CD-ROM. Nesta altura eu já coletava 7200 referências bibliográficas e o livro se tornou uma obra de peso, no sentido literal. Pesa 2,5kg. E lá ia eu subindo e descendo a Alameda Campinas carregando os livros que era adquirido primordialmente por meus amigos. Apresentei nova atualização no Congresso da ABP de Fortaleza e estou em constante atualização. A Lista da Psiquiatria Brasileira organizada pelo Dr. Giovanni Torello vem desde 1966 sendo um veículo de diálogo entre profissionais da área psi. e tem revelado figuras marcantes para a psiquiatria brasileira. Um corolário da lista foi a Naupsi, uma homepage dos listeiros administrada pela competência do Dr. Rubem M. Rodrigues. A primeira tese de um psiquiatra brasileiro nesta área foi do Dr. Tárcio Fábio M. de Carvalho da UFPE no ano de 1994 na UNICAMP, que apresentou o emprego de um método informatizado de diagnóstico da esquizofrenia (Um sistema computadorizado de apoio ao multidiagnostico da Esquizofrenia.) Recentemente(2001-UNIFESP) a Dra. Denise Razzouk apresentou seu doutoramento com um ambicioso projeto na área do diagnóstico da esquizofrenia. (Construção de uma base de conhecimento de um sistema de apoio à decisão no diagnóstico dos Transtornos do espectro da Esquizofrenia)

A Revista de Psiquiatria Clínica foi a primeira a ser "eletrônica" e o Projeto Scielo oferece um número significativo de revistas on line, entre elas a Revista Brasileira de Psiquiatria . Hoje a Associação Brasileira de Psiquiatria ( http://www.abpbrasil.org.br ) possui um veículo de comunicação online com seus sócios e com a população em geral.

A realidade é que já existe uma história dos esforços dos psiquiatras brasileiros para entrar na era da Informação. Certamente não citamos todos que estão construindo este momento da história, e teremos todo gosto de registrar iniciativas importantes que não foram lembradas. Fica esse registro inicial para consideração dos leitores de Psiquiatria online.


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