Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Maio de 2001 - Vol.6 - Nº 5

História da Psiquiatria

Voando sobre a Psiquiatria Brasileira - Publicações de Psiquiatras Brasileiros em Revistas Internacionais ( Segunda Parte )

Dr. Walmor J. Piccinini

No dia 1 de maio de 2001 O NYTimes publicou reportagem de Larry Rother, muito elogiosa a Fapesp e ao desenvolvimento da pesquisa biomédica no Brasil. Da reportagem extraímos alguns dados que complementam o objetivo deste trabalho. O primeiro, é de que o Brasil responde por 1,2 % das publicações internacionais e o segundo, é que nos últimos 15 anos os pesquisadores brasileiros publicaram três vezes mais que a média mundial. Compara ainda que o Brasil dispõe de 80.000 pesquisadores contra 1 milhão de pesquisadores americanos. Esta informação positiva sobre a pesquisa e pesquisadores brasileiros bate de frente contra as visões pessimistas que só pinçam nossos defeitos. Com poucas verbas para pesquisa, com salários defasados e com obstáculos de toda a ordem os nossos pesquisadores vêm apresentando uma produção científica de bom nível e, principalmente, formando novas gerações habilitadas para tal. Em recente reunião comemorativa da assinatura de convênio entre a ISI e Fapesp/Capes, foram homenageados pesquisadores brasileiros produtores de trabalhos (papers) de alto impacto na literatura científica mundial. Foi considerado o período de 1990 a 1999 e foram encontrados 66.974 trabalhos. Destes, 301 tiveram 50 citações ou mais. 55 eram de autoria exclusiva de brasileiros. Depois de novo refinamento por área foram escolhidos 27 trabalhos e seus autores homenageados numa solenidade.

A apresentação destas informações nos permite introduzir o capítulo referente as publicações psiquiátricas. É evidente a dificuldade em se publicar no exterior em outra língua e competindo com pesquisadores de todo mundo. Nossa produção ainda é pequena quantitativamente, mas existem sinais animadores quanto ao futuro. Observamos que nos últimos 20 anos aumentou significativamente a presença de artigos de autores brasileiros na área psiquiátrica. Esta maior presença também se observa nas publicações nacionais, na maioria não indexadas ou indexadas em banco de dados fora do circuito representado pela Medline.

Quando iniciei o trabalho de coleta da produção psiquiátrica brasileira publicada e as coloquei sob o título de Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria recebi apoio de inúmeros psiquiatras, de professores de psiquiatria pesquisadores que como eu reconheciam a necessidade de se preservar a memória da pesquisa psiquiátrica brasileira, permitir acesso a todos a estes dados e, entre outros aspectos, evitar que as publicações na língua portuguesa desaparecessem no buraco negro determinado pela marcante presença da Medline. Inicialmente imaginei que esta tarefa era uma iniciativa isolada de minha parte e que poderia não ser compreendida e destinada a uma curta existência. O aprofundamento na busca de publicações me permitiu constatar que esta preocupação de características de preservação da identidade de uma língua e de uma cultura era compartilhada por autores de outras nacionalidades, de língua espanhola, polonesa, ukraniana, italiana e outros mais, todos preocupados com o desaparecimento de publicações em seus países, dominados todos pelas publicações em língua inglesa e pela idéia de que não existiria vida fora da Medline. São inúmeros os trabalhos bibliométricos que defendem as produções nacionais. É curiosa, para não usar palavras mais duras, a atitude de desdém que muitos autores tratam a produção de colegas do mesmo país. Forma-se uma equação perversa; "Só tem validade os trabalhos extraídos via Medline, consequentemente só são publicadas referências de autores estrangeiros, como a maioria dos trabalhos segue sendo publicados em português, o mesmo autor que desdenha o trabalho dos colegas do seu país, vai ser desconsiderado por estes colegas num ciclo infindável". A desculpa mais ouvida é o desconhecimento dos trabalhos de autores nacionais, por serem publicados em revistas não indexadas etc. Desde 1997 tenho publicado revisões sucessivas e ampliadas da produção psiquiátrica brasileira e não recebi nenhuma citação em trabalho algum, mesmo sendo evidente sua utilização em alguns casos. Seja por existir o IBBP ou pela tomada de consciência de muitos pesquisadores notamos um progresso nas citações de autores brasileiros, fato que permite esperanças para um futuro não muito distante.

O IBBP está com quase 11 mil referências de artigos, teses e capítulos de livros de autores brasileiros e as publicações internacionais representam aproximadamente 5% deste universo.

Publicamos no POLBR de março a primeira parte de um artigo sobre as publicações internacionais de autores brasileiros. Não examinamos o mérito das publicações, nos limitamos a um registro histórico das mesmas. A qualidade das mesmas deve ser consideradas a partir das exigências das revistas em que foram publicadas. Elas tem uma hierarquia determinada pelo seu Fator de Impacto e sua credibilidade devida ao nível dos seus "referees".

Chama a atenção a pulverização das publicações, são 217 ao todo, e a presença de pesquisadores estrangeiros em muitas delas. Isso se explica pelo fato de muitos trabalhos terem sido produzidos no período em que o pesquisador esteve freqüentando Universidades no exterior em estágios, cursos de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Alguns autores brasileiros estão radicados há vários anos em paíse como EUA, Inglaterra, Austrália, França e Suiça e, aparentemente, não pretendem retornar. Seriam êles também representantes da psiquiatria brasileira? Pessoalmente, me parece justo considerá-los na nossa bibliografia, mas estamos aberto a opiniões a respeito.

O número total de trabalho coletados nunca é absoluto, isto é, estamos sempre coletando e, muitas vezes, alguns trabalhos escapam da nossa pesquisa. Nós utilizamos os trabalhos já indexados no IBBP e depois utilizamos os bancos de dados do Lilacs, da Medline, Excerpta Médica e outras fontes buscando outros trabalhos do referido autor. A publicação de todas as revistas e todos os autores tornaria este trabalho muito extenso por isso recomendo aos interessados que adquiram meu novo CD_ROM com atualização até dezembro de 2000 que estará disponível em junho no Primeiro Congresso Paulista de Psiquiatria.

Ranking das Revistas Internacionais

O Institute for Scientific Information publica o ranking das Revistas científicas e nós encontramos uma avaliação que se aproxima do período que utilizamos para este trabalho. Foi o considerado o período de 1981 a 1998 e assim ficou a posição das revistas.

  1. Archives Gen Psychiatry (75.30)
  2. Amer. J. Psychiatry (29.59)
  3. Schizophreni Bulletin (26.36)
  4. Psychosomatic Medici (22.94)
  5. Psychological Medici (20.56)
  6. Brit. J.Psychiatry (19.95)
  7. J.Clin Psychopharm (18,48)
  8. Psychopharmacology (18.40)
  9. J.Clin. Psychiatry (16.95)
  10. J.Am.Acad. Child Psyc (16.75)

Considerando somente o período de 1994-1998 constata-se que algumas revistas ainda estão na lista por glórias do passado, algumas estão perdendo posição e novas revistas estão entrando na lista:

  1. Archives Gen Psychiatry
  2. Amer. J. Psychiatry
  3. Schizophrenia Bulletin
  4. J.Clin. Psychopharm
  5. J.Clin. Psychiatry
  6. Dementia
  7. Brit. J.Psychiatry
  8. J.Am Acad. Child Psyc
  9. Neuropsychopharmacology
  10. Psychopharmacology

Finalmente chegamos a listagem de 1998 com novas mudanças de colocação e com os trabalhos de autores brasileiros nos últimos 20 anos :

  1. Archives Gen. Psychiatry 6 artigos
  2. Amer. J. Psychiatry 4 artigos
  3. J.Clin Psychopharmacology 4 artigos
  4. Molecular Psychiatry 3 artigos
  5. Schizophrenia Bulletin 1 artigo
  6. Neuropsychopharmacology 4 artigos
  7. Dementia 2 artigos
  8. J.Clin Psychiatry 5 artigos
  9. J.Acad. Child Psychiatry 3 artigos
  10. Brit J Psychiatry 21artigos

As publicações brasileiras foram mais presentes nas seguintes revistas:

1. Brit. J. Psychiatry 21 artigos

2. Biological Psychiatry 19 "

3. Acta Psychiatr. Scandinavia 14 "

3. Psychiatr. Bulletin 14 "

5. Eur Arch Psychiatr Clin Neurosci 13 "

6. Addiction 10 "

7. Soc Psych Psychiatr. Epidemiol 9 "

7. Schizophrenia Res. 9 "

8. Pharmacopsychiatry 7 "

8. J. Of Psychopharmacology 7 "

8. Drug and Alcohol Dependence 7 "

8. Fortschr Neurol Psychiatr 7 "

Autores com presença mais freqüenta nas publicações internacionais nos último 20 anos

  1. Wagner F. Gattaz 83 USP
  2. Jair de Jesus Mari 43 EPM
  3. Valentim Gentil Filho 19 USP
  4. Helena Maria Calil 19 EPM
  5. Márcio Versiani 17 UFRJ
  6. Clarice Gorenstein 14 USP
  7. Naomar de Almeida Filho 14 USP
  8. Eurípedes Constantino Miguel Filho 11 USP
  9. Antônio W. Zuardi 11 USP-RP
  10. Cláudio T. Miranda 10 USP
  11. Paulo Dalgalarrondo 9 UNICAMP
  12. Antônio Egídio Nardi 9 UFRJ
  13. Maristela G. Monteiro 10 EPM/WHO
  14. Gustavo Turecki 10 USP
  15. Ronaldo R.Larangeira 9 EPM

A observação das mudanças de colocação das revistas permite constatar a maior presença de artigos ligados a Psiquiatria Biológica e uma diminuição da procura por artigos ou revistas ligadas a Psiquiatria Dinâmica. Há uma pesença crescente de áreas com a da Psicogeriatria e da Psiquiatria da Infância e Adolescência. A presença de autores ligados a USP e a EPM é expressiva maioria o que confirma o papel da Fapesp no estímulo a pesquisa e demonstra a pujança dos seus Cursos de Mestrado e Doutorado em Psiquiatria. A produção da UFRJ é bastante diversificada e predomina a visão psicodinâmica que publica menos. Seu grupo ligado a psicofarmacologia e psicobiologia tem produção consistente. A Bahia tem uma presença destacada na área da psiquiatria epidemiológica e um grupo que começa a despontar na psicofarmacologia. Esperamos completar esta avaliação numa terceira parte deste trabalho.


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