Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Março de 2001 - Vol.6 - Nº 3

História da Psiquiatria

Voando sobre a Psiquiatria Brasileira:

Walmor J. Piccinini

Nesta edição de Psiquiatria Online vamos investigar um aspecto de particular importância na avaliação da produção científica brasileira baseado apenas nas suas publicações internacionais. As avaliações dos Cursos de Pós-graduação e dos pesquisadores universitários dependem diretamente desta produção. Nem todos estão satisfeitos com este tipo de controle externo das suas atividades. Isso nos deixa com uma perspectiva de criar desconforto, pois nossa produção é modesta e mostra insuficiências em muitos Departamentos Universitários. Nós coletamos 543 trabalhos e descartamos os publicados em Revistas latino - americanas e brasileiras indexadas no Medline devido ao seu baixo fator de impacto. Há evidente crescimento das publicações a partir dos Cursos de Pós-graduação o que nos deixa esperanças de melhoras para os anos vindouros.

Publicações de Psiquiatras Brasileiros em Revistas Internacionais (Primeira parte)

Dr. Walmor J. Piccinini

Introdução

A coleta de informações sobre as publicações brasileiras, além da construção de um banco de dados que publicamos sob o título de Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria, nos propicia condições de avaliar a produção da psiquiatria brasileira como um todo, tanto quantitativamente como qualitativamente. As publicações em Revistas estrangeiras indexadas é o primeiro de uma série de trabalhos que planejamos realizar sobre as publicações brasileiras.

Das 10.316 referências armazenadas no Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria, até o presente trabalho, contamos com 543 publicações no exterior. É possível que algumas tenham escapado aos nossos esforços em localizá-las, mas não mudariam significativamente nossas conclusões. As publicações em revistas internacionais são importantes como critério de avaliação do pesquisador e do serviço a que pertence. A CAPES exerce permanente avaliação dos Cursos de Pós-graduação e a produção científica dos docentes e pesquisadores brasileiros é um dos parâmetros utilizados por seus Comitês de Avaliação no julgamento dos Cursos. Não é nossa intenção competir neste trabalho. Utilizamos uma perspectiva histórica e utilizamos todos os trabalhos encontrados ao longo do tempo. É bastante provável uma relação entre aumento da produção bibliográfica a partir da estruturação e consolidação dos Cursos de mestrado e doutorado que se traduz com mais de 505 das publicações terem ocorrido a partir dos anos 80. Outros fatores, tais como, maior número de doutorados no exterior, maior facilidade de difusão do conhecimento via computador, maior número de revistas devem ser considerados

Material e Método

Utilizamos o material coletado no Índice Bibliográfico de Psiquiatria. Selecionamos 543 artigos publicados ao longo do tempo. O primeiro de José Carlos Teixeira Brandão em 1884 e os últimos trabalhos publicados em dezembro de 2000.

Separamos os artigos por revista e por autores.

A seguir, fizemos uma pesquisa na Medline da produção individual de cada autor. Descartamos os trabalhos publicados em revistas brasileiras indexadas na Medline.

As Revistas Latino-americanas foram consideradas no todo, mas desconsideradas a nível de autor.

Utilizamos os critérios de fator de impacto para estabelecer uma hierarquia das revistas mais citadas.

Uma demonstração de como funciona a indexação das Revistas Médicas pode ser encontrada na URL http://www.isinet.com/hot/research.

As dez revistas psiquiátricas com maior FI no mundo são:

  1. Archives Gen. Psychi com 6 artigos de pesquisadores brasileiros
  2. Amer. J. Psychiatry com 5 artigos
  3. Schizophrenia Bullet. com 1 artigo
  4. Psychosomatic Medici com 1 artigo
  5. Psychological Medici com 3 artigos
  6. British J. Psychiatry com 22 artigos
  7. J. Clin. Psychopharm com 4 artigos
  8. Psychopharmacology com 4 artigos
  9. J. Clin. Psychiatry com 5 artigos
  10. J. Am. Chil Psychiatry com 1 artigo

Fator de impacto

É o número de citações atuais de artigos publicados em um jornal específico no intervalo de dois anos dividido pelo número total dos artigos publicados no mesmo jornal no intervalo correspondente de dois anos. (Glossário da Isinet)

Histórico do IBBP

Desde 1995 estamos construindo um banco de dados da psiquiatria brasileira. Trabalho iniciado em Ann Arbor na Universidade de Michigan onde descobri o ProCite, um sistema de indexação bastante amplo, que permite catalogar filmes, discos musicais, softwares, e até recortes de jornais. Existem outros programas com objetivo similar, entre eles o End Notes e o Reference Manager. As empresas que os produziam eram pequenas e acabaram sendo adquiridas pelo Institute for Scientific Information. Que se tornou um gigante nesta área de administração da informação e seu fundador, E. Garfield é o responsável pela automação da indexação de periódicos e o criador do fator de impacto. Alguns autores brasileiros tem se ocupado do assunto e sugerimos uma leitura de seus trabalhos.

Ronaldo Laranjeira (Os critérios de avaliação da pós-graduação em psiquiatria pela Capes ) http://www.scielo.br/cgi-bin/fbpe/fbtext?got=last&pid=S1516- 44462000000400002&usr=fbpe&lng=en&seq=1516-4446- 010&nrm=iso&sss=1&aut=71981947 )

Helio Elkis: (Fatores de impacto de publicações psiquiátricas e produtividade científica.) Rev. Bras. Psiquiatr. 1999, 21 (4) 231-236

Figueira, Ivan // Leta, Jacqueline // De Meis, Leopoldo: (Avaliação da produção científica dos principais periódicos brasileiros de psiquiatria no período de 1981 a 1995.) Rev. Bras. Psiquiatr.21 (4)201-208

Passados alguns anos, o banco de dados cresceu, está sendo permanentemente atualizado, e no presente momento está com 10.316 referências bibliográficas. Em 1998 editamos o volume I , com cerca de 7.200 referências, e estamos tentando encontrar recursos para o volume II. No momento estamos ultimando o terceiro CD-ROM do IBBP. Os arquivos do Psiquiatria Online são editados conjuntamente. Nosso objetivo é valorizar o trabalho dos autores brasileiros, facilitar o acesso às suas pesquisas e a preservar a nossa memória psiquiátrica.

A CAPES ( Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) avalia o nível dos Cursos de Pós-graduação através de Comitês Assessores para as diferentes áreas e a Psiquiatria é avaliada pelo Comitê Assessor da Área de Medicina II. Os cursos são avaliados em vários itens ( Corpo Docente- Atividade de Pesquisa- Atividade de Formação - Corpo Discente – Teses e Dissertações e Produção Intelectual)

Este último item, o da Produção Intelectual é o que nos interessa no momento.

De um documento de avaliação da pós-graduação extraímos estas informações sobre como mensurar a produção intelectual

  • Adequação dos tipos de produção à proposta do programa e vínculo com as áreas de concentração, linhas de projetos de pesquisa ou teses e dissertações: avaliação quantitativa
  • Qualidade dos veículos ou meios de divulgação. Considerar 80% do peso deste item para artigos em periódicos: para os 20 % restantes, considerar livros, capítulos em livros e resumos. Além da qualidade do veiculo da publicação, foi considerado o número de publicações por NRD (4,5,6). Foi feita uma classificação dos periódicos nacionais e internacionais de acordo com o índice de impacto:

Internacional A (IA): índice de impacto maior do que 1,0

Internacional B (IB) : índice de impacto de 0,4 a 0,99 ( inclui as nacionais com o mesmo

índice de impacto)

Internacional C (IC) : índice de impacto de 0,1 a 0,39 ( inclui as nacionais com o mesmo

Índice de impacto)

Nacional A (NA): indexada no LILACS e considerada de referência para o programa

Nacional B (NB) : indexada no LILACS e não considerada de referência para o programa

Nacional não indexada no LILACS não entra no cômputo

Na Revista Brasileira de Psiquiatria 2000; 22 (4) 157-158 o Prof. Ronaldo Laranjeira, que foi o representante da Psiquiatria no Comitê assessor da CAPES para a área II , trouxe índices específicos para a Medicina II na área da Produção Intelectual que ficaram assim:

Internacional A: artigos com índice de impacto maior do que 1. Cada artigo com essas características recebia a equivalência de 100 pontos.

Internacional B: artigos com índice de impacto entre 0,4 e 0,99. Cada artigo com essas características recebia a equivalência de 50 pontos

Internacional C: artigos com índice de impacto entre 0,1 e 0,39. Cada artigo com essas características recebia o equivalente a 10 pontos.

Nacional A: Lilacs + referência da área. A Revista Brasileira de Psiquiatria ficou como referência na área. Cada artigo nesta revista recebia a equivalência de 10 pontos.

Nacional B: LILACS + não referência. As revistas indexadas no Lilacs em psiquiatria são: Arquivos de Neuropsiquiatria, Jornal Brasileiro de Psiquiatria, Psiquiatria Biológica, Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Revista Brasileira de Psicanálise, . Informação Psiquiátrica, Revista de Psiquiatria Clínica e Revista de Psicanálise. Cada artigo nessas revistas recebia 2 pontos.

Nacional C. revistas não indexadas e que recebiam 1 ponto

Segundo Elkis,H "Os fatores de impacto são os melhores indices para avaliação do desempenho científico de publicações psiquiátricas. No entanto, no caso de avaliações da produtividade científica individual, esta também deve ser avaliada através de uma análise de citações."

Essa explicação é necessária para que você tenha uma idéia de como é avaliada a produção

Intelectual dos nossos pesquisadores e como é difícil manter uma produção científica consistente considerando todos obstáculos a serem vencidos. Nós constatamos que é muito freqüente um pesquisador apresentar uma produção qualificada durante o tempo em que ele esteve no exterior em busca de aprimoramento e desaparecer após sua volta para o país. Alguns conseguem boas condições de trabalho e seguem produtivos

Primeiros Trabalhos

O Prof. José Carlos Teixeira Brandão aparece como o pioneiro. Em 1884 publicou nos Annales Médico-Psychologiques (Paris) um artigo "Des établissements d’aliennés ou Brésil.

Seguem-se as publicações de Nina Rodrigues voltada a aspectos médico-legais. Ele publicou em revistas da Belgica, em Lyon e em Paris.

Em 1905 Juliano Moreira publica quatro trabalhos, dois em revistas alemãs. Em 1907, junto com Carlos Penafiel publica um artigo em Londres no Journal of Mental Science.

Seguem-se trabalhos médico-legais de Afrânio Peixoto, sobre sífilis de Waldemiro Pires e trabalhos de Ignácio Cunha Lopes e Antônio Austregésilo. No período de 1884 a 1936 conseguimos 17 artigos. (Sendo 14 em francês, dois em alemão e um em inglês)

De 1951 a 1960: 13 artigos

De 1961 a 1970 : 19 artigos . Destes, o Prof. J. Romildo Bueno publicou 9 e o Prof. Elisaldo Carlini 4.

De 1971 a 1980: 27 artigos

De 1981 a 1990: 131 Há uma coincidência com a estruturação dos Cursos de Pós Graduação e o surgimento de uma nova geração de pesquisadores.

De 1991 até 2000: 325.

Com o objetivo de um registro histórico e como um indicativo do volume e caraterística da pesquisa psiquiátrica no nosso meio, vamos examinar suas características.

Revistas em que os trabalhos são publicados. Num primeiro momento apresentamos as 12 revistas com maior número de publicações:

  1. British J. of Psychiatry; 22 trabalhos – Ranking no FI (10) FI= 3,503
  2. Biol.Psychiatr. ; 19 trabalhos – Ranking no FI (17) FI= 2,405
  3. Psychiatr. Res. ; 14 " " (31) FI= 1,424
  4. Addiction ; 10 (22) FI=1,620
  5. Acta Psychiat, Scandinavia ; 10 (27) FI= 1,554
  6. Schizophrenia Res.; 9 " (16) FI= 2,496
  7. Pharmacopsychiatry; 7 " (8) FI= 2,304
  8. Drug and Alcohol Dep.; 7 " (30) FI= 1,485
  9. Fortschr.Nerv.Psychiat.; 7 " (63) FI= 0,441
  10. Arch. Gen. Psychiatr.; 6 " ( 1) FI= 9,398
  11. Psychopharmacol (Berl); 6 (15) FI= 2,590
  12. Am.J.of Psychiatr. ; 5 " (2) FI= 5,939

A hierarquia dos autores brasileiros é mais complexa, existe a produção individual, a coletiva, a primeira autoria, a co-autoria, o FI das Revistas e outros critérios . Nosso primeiro critério foi o número de publicações e o ranking ficou assim:

  1. Wagner F. Gattaz FMUSP - 83 publicações
  2. Jair de Jesus Mari EPMSP 43
  3. Helena Maria Calil EPMSP 19
  4. Valentin Gentil Filho FMUSP 19
  5. Márcio Versiani UFRJ 17
  6. Isaac G. Karniol FMUNICAMP16
  7. Jorge Alberto Costa e Silva 15
  8. Clarice Gorenstein FMUSP 14
  9. Naomar de Almeida Filho FMSUFBA 14
  10. Euripides Constantino Miguel Filho FMUSP 13
  11. João Romildo Bueno UFRJ 12
  12. Jandira Masur EPMSP 12

Esta listagem de professores pesquisadores é feita a partir de publicações ao longo dos anos e não reflete o atual momento da psiquiatria brasileira. A Prof. Jandira Masur não está mais entre nós e a lembrança do seu nome, além do reconhecimento dos seus méritos, representa uma homenagem à sua contribuição para a pesquisa psiquiátrica brasileira.

Alguém poderá estranhar a ausência de alguns nomes nesta lista e posso dizer que foi proposital. Tem alguns pesquisadores na área psicobiológica que, certamente, estariam na lista, deixei-os de fora por atuarem mais na área básica; Ivan Izquierdo, Elisaldo A Carlini,

Frederico G. Graeff e M.Zatz.

Como último destaque dessa primeira parte vamos mostrar a distribuição das publicações por assunto:

Álcool (31)+ drogas e psicofármacos (140) respondem por 171 trabalhos num universo de 446.

Psiquiatria geral = 168 ;

Esquizofrenias = 39 ;

Validação de escalas = 30 ;

Epidemiologia 28.

Na segunda parte do nosso trabalho vamos nos aprofundar nas avaliações das produções por revistas e individuais.


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