Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2001 - Vol.6 - Nº 2

História da Psiquiatria

Voando sobre a Psiquiatria Brasileira:
ULYSSES PERNAMBUCANO (1892-1943) 

Walmor J. Piccinini

 

A história da psiquiatria em Pernambuco, no segundo quartel do século XX foi dominada pela figura ímpar de Ulysses Pernambucano de Melo Sobrinho. Assim começa o capítulo dedicado a Ulysses pelo Prof. Heronides Coêlho Filho no seu livro "A Psiquiatria no País do Açúcar e Outros Ensaios" (1977- Ed. Da Secretaria

Da Educação e Cultura do Estado da Paraíba). Em recente artigo, "Psiquiatria e Nordeste: um olhar" publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria o Prof. Tácito Medeiros presta significativa homenagem a Ulysses Pernambucano e me permito reproduzir alguns trechos:

"Na direção da velha "Tamarineira", Ulysses Pernambucano assentava singular psiquiatria social, aberta aos conhecimentos biológicos e psicológicos, aos antropológicos e sociais, cuja estratégica importância ecoa nas atuais reformas da assistência aos doentes mentais no país. No burgo recifense, itinerário de invasores holandeses, berço de revoluções literárias e de saber jurídico, sede do primeiro parlamento e da primeira sinagoga das Américas, são obras de Ulysses o primeiro ambulatório psiquiátrico público, a primeira escola especial para deficientes mentais e o primeiro Instituto de Psicologia surgidos no Brasil. A Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste, depois tornada nacional, reuniu na década de trinta importantes congressos multiprofissionais em Natal, João Pessoa e Aracaju. Neurobiologia, revista a circular desde 1938, sintetiza em sua denominação os interesses e as luzes da Escola de Psiquiatria Social do Recife.

O antigo Hospício da Tamarineira chama-se agora Hospital Ulysses Pernambucano. O escritor José Luís do Rego homenageou postumamente Ulysses, em artigo publicado em número especial da Revista Estudos Pernambucanos, atribuindo-lhe haver afugentado o terror que o nome da Tamarineira (árvore de estranhos e instigantes frutos do sertão nordestino) provocava à infância dos meninos de engenho e certamente das cidades, assim como de todo aquele mundo. A contribuição do Nordeste tem sido a de afugentar o asilo como abominado pouso da loucura. "

Num artigo in memoriam publicado nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria logo após o falecimento do insigne mestre, Renê Ribeiro apresenta o homem e sua obra. Outros ilustres psiquiatras pernambucanos como O Prof. José Lucena, o Prof. Galdino Loreto, o Prof. Othon Bastos e o Prof. Luiz Cerqueira sempre que se manifestavam a respeito de Ulysses o faziam com afeto, apreço e reconhecimento. No ano que a Associação Brasileira de Psiquiatria realizará seu Congresso Nacional em Recife,PE , estamos trazendo alguns depoimentos e informações sobre esse insigne psiquiatra nordestino e brasileiro.

Dados Biográficos

Ulysses Pernambucano de Melo Sobrinho é natural de Recife, PE onde nasceu em 6 de fevereiro de de 1892. Faleceu no Rio de Janeiro em 5 de dezembro de 1943.

Seu pai foi o Dr. José Antônio Gonsalves de Melo, bacharel em Direito e sua mãe, a Sra. Maria da Conceição de Melo.

Formou-se em Medicina no Rio de Janeiro em 1912 e foi médico generalista na cidade de Lapa, PR e em Vitória de Santo Antão, PE.

Em 1917 foi nomeado para o Asylo da Tamarineira e iniciou sua atividade em psiquiatria. Nos anos de 1924-26 e mais tarde, de 1931 a 1935 ocupou a Direção da Tamarineira.

Sua esposa foi a sra Albertina Carneiro Leão e o casal teve dois filhos: Jarbas Pernambucano de Melo, médico, sucedeu ao pai, mediante concurso, na Cátedra de Neurologia da Fac. de Medicina do Recife. Faleceu em 1956. E José Gonsalves de Melo, historiador (Tempos Flamengos) e prof. Da UFPE. Teve ainda um neto, o Dr. Ulisses Pernambucano Neto que é psiquiatra no Recife.

A carreira de Ulysses Pernambucano não se restringiu a Medicina, foi prof. da Escola Normal e do Ginásio Pernambucano. Na primeira prestou concurso para Cátedra de Psicologia e Pedologia foi aprovado em primeiro lugar (1918) e no ginásio foi Catedrático de Psicologia, Lógica e História da Filosofia.

Na Fac. de Medicina foi nomeado prof. Catedrático de Clínica Psiquiátrica em 1920. Renunciou em favor de Alcides Codeceira que desde 1915 já dirigia a cadeira. Em 1938 foi nomeado prof. Catedrático de Clínica Neurológica. Atuou ainda como prof. de Química e de Fisiologia.

Em 1938 fundou a Revista Neurobiologia que permanece vida até hoje. Foi um dos fundadores e grande entusiasta da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste

Conferência de Luiz Cerqueira apresentada na Academia Pernambucana de medicina em 28 de julho de 1976. Publicada nos Arq. Clin.Pinel de Porto Alegre em 1979, 5: 223-238. Também em ciclo de Estudos sobre Ulysses Pernambucano. Ed. da Academia Pernambucana de Medicina, Recife, 1978 e no livro de Luiz Cerqueira: Psiquiatria Social : problemas brasileiros de saúde mental. Cito todas estas fontes justificando a transcrição literal da mesma em Psiquiatria Online. Trata-se de um depoimento afetuoso e muito elucidativo da personalidade de Ulysses Pernambucano. Ficou no ar um pequeno problema, alguns autores escrevem Ulysses com Y e outros com i. Cerqueira escreve Ulisses. Resolvemos não mudar e deixar para o futuro um esclarecimento. Como deixaremos para mais adiante mais informações sobre a sua biografia.

Ulisses Pernambucano

Conheci Ulisses Pernambucano, pessoalmente, em 1934, lá para o fim do ano.

Foi certamente o encontro mais importante, decisivo, de minha vida.

Eu era um jovem humilde que se largara de Alagoas para estudar medicina no Recife.

Lera um livro de sociologia experimental (Delgado de Carvalho, 1934) e, ainda calouro, pretendia realizar um inquérito sobre as condições de vida do estudante pernambucano.

Sabia-o interessado em estudos sociais, pois vira-o participando, meses atrás, do 1 Congresso Afro-Brasileiro.

Notara o acatamento de que era objeto e, na minha insignificância, não ousei dele me aproximar. Apesar de ter percebido sua atitude nada acadêmica, tanto mais compreensível por vê-lo num congresso por sua vez nada acadêmico, entre pais-de-santo e intelectuais pouco convencionais, mesmo assim mantive-me à distância.

Resolvido mais tarde a levar adiante o inquérito, só pensei em procurá-lo a fim de, uma vez que era professor da Faculdade, fazê-lo contribuir com algum dinheiro para a impressão da ficha.

Foi o primeiro professor que procurei para tal fim, e o último como se verá.

Por que não o procurei, pesquisador bisonho que eu era, como orientador? Por multo tempo racionalizei isto com minha timidez. Afinal ele era o poderoso diretor dos serviços da Tamarineira, famoso psiquiatra.

E eu? Um simples calouro.

Por outro lado só mais tarde vim a saber que ele também fazia inquéritos, aplicava questionários.

Não seriam boas razões, inconscientes, para o pesquisador bisonho ignorar o interesse do Mestre e demorar a se dar conta de que pesquisador bisonho é o mais suficiente dos pesquisadores?

E como Ulisses identificava fácil estas suficiências, arrasando-as impiedosamente!

Afinal enchi-me de coragem e fui à -me no ombro:

—Vamos imprimir tudo nas oficinas da Tamarineira.

Contou-me sede do Serviço de Higiene Mental, na rua Femandes Vieira, onde tinha seu gabinete de diretor geral.

Mal lhe falei na contribuição, interrompeu-me:

—Não dou dinheiro nenhum.

Não deixou, porém, que me desconcertasse de uma vez, tomando-me, interessadamente, o modelo da ficha e as instruções a respeito de seu preenchimento. Fez-me sentar enquanto as lia atentamente. Por fim disse:

—Há alguns itens a acrescentar, outros a modificar.

E reteve consigo a papelada, chamando-me para junto de si, já francamente cordial. Trabalhamos algum tempo, refundindo o questionário. Aprendera muito naquela hora. E iria aprender muito mais. Certamente ele notara como eu estava surpreendido. Ao fim repetiu, agora com um sorriso:

—Não dou dinheiro nenhum.

Eu já não procurava um buraco de formiga para me enterrar, de vergonha, pois imediatamente acrescentou, pegando então que os doentes ajudavam na tipografia, onde se imprimiam os arquivos da Assistência a Psicopatas de Pernambuco e o Boletim de Higiene Mental, entre outras coisas. Pela primeira vez eu ouvia falar de praxiterapia, hoje terapêutica ocupacional.

Suspirei, aliviado. Notei-lhe então o olhar divertido com que sempre animou a todos que dele se aproximavam. Não elogiou o meu trabalho, mas aquele olhar divertido dizia tudo.

Mandou-me a Gilberto Freyre (seu primo, fiquei então sabendo) que acabara de publicar Casa Grande & Senzala, para a revisão final do questionário.

Sai dali com o Professor Ulisses Pernambucano como patrocinador do inquérito na Faculdade de Medicina. Ofereceu-me, ainda, cartas ao Diretor da Faculdade de Direito, Professor Edgar Altino, e ao Diretor da Escola de Engenharia, Professor Lutz Freire, para serem oficialmente o mesmo, naquelas instituições.

Havia necessidade disso, dada a suspeição de que então eram objeto os inquéritos sociais. Por esse motivo ofereceu-me também uma carta para seu amigo Anibal Fernandes, diretor do Diário de Pernambuco, o qual fez o que se chama hoje uma promoção.

- O ambiente político era, então, muito tenso e o mais inocente gesto poderia ser tachado de comunista; exatamente este qualificativo foi atribuído ao inquérito, por um professor integralista, ainda na fase da colheita de dados. Desolado, procurei o Mestre e lhe comuniquei que a pesquisa ia fracassar. Ouvi dele, então, estas palavras que nunca esquecerei: uma pesquisa nunca fracassará desde que iniciada honestamente, não se levando resultados preconcebidos. Esta nossa investigação, se não puder ser levada a termo, nem por isso deixará de fornecer uma conclusão — a de que o nosso meio ainda não comporta uma pesquisa social. Este poderá ser perfeitamente o resultado de nosso inquérito. E aquele que não estiver disposto a aceitá-lo jamais se tornará um verdadeiro investigador.

"Foram mais ou menos estas as palavras do professor que mais tarde seria preso por haver orientado um inquérito tendencioso." (2)

Isto escrevi num artigo de jornal dias após a morte de Ulisses Pernambucano, em 1943, e o pequeno necrológio do qual faz parte o trecho citado, foi reproduzido

em Neurobiologia, em 1945, a qual só dois anos após o falecimento de seu fundador, com a derrocada do Estado Novo, pôde dedicar-lhe um número especial.

Do chamado "inquérito dos estudantes" nada mais se publicou a respeito, apesar de apuradas as 283 fichas, reduzidas a tabelas e gráficos, com a ajuda de René Ribeiro e Manoel de Souza Barros, na Regional do IBGE, além de um texto que subscreveria ainda hoje, por satisfatoriamente científico.

Do ponto de vista dos achados, com o passar do tempo, evidentemente perdeu-se a oportunidade, a não ser para uma pachorrenta comparação, de sabor agora anedótico, com uma situação recuada 40 anos atrás.

Reproduzo, pelo menos, a malfadada ficha.

Como se verá, são 20 perguntas que nenhum censor poderá tachar de tendenciosas, em tempo algum.

Nome da escolaCurso

I — É empregado?Em quê"

II— Quanto percebe mensalmente por isso9

III — Recebe mesada de sua família?Quanto por mês9

IV— É sua família quem paga suas taxas e livros escolares"

V— Qual a sua despesa mensal com transporte (bonde e trem)?

VI — Paga pensão?Quanto por mês9

VII — O seu quarto tem janela?Ocupa-o sozinho?

VIII — Faz exercícios físicos"Quando" Onde"

IX — Quantas refeições faz?De que consta:

X — Quantos livros possui"Deste número quantos são didáticos?

XI — Quanto compra mensalmente de livros?

XII — Depois de aprovado nos examesvende seus livros?

XIII — Frequenta bibliotecas? Quais?

XIV— Que tempo dedica aos estudos"

XV — Dos livros que leu, qual o que lhe causou maior impressão9

XVI — É membro de algum clube ou associação9Qual?

XVII— Quais são os seus divertimentos9 Quantas vezes por semana os frequenta"

XVIII — Frequenta igreja?Qual"

XIX — Qual a profissão de seu pai?

XX — Por que escolheu a carreira que está seguindo"

É evidente que o inquérito dos estudantes foi mero pretexto para a prisão de Ulisses. O inquérito policial com que posteriormente se tentou acobertá-lo deu em nada. Quero crer que ele o esvaziou ao desmontar o jovem delegado que o inquiriu.

O episódio foi contado a vários de nós, pelo próprio Ulisses Pernambucano, no Sanatório Reçife, numa de suas inúmeras vindas da delegacia.

O policial lhe teria perguntado:

— É verdade que o Sr. prega idéias subversivas a seus alunos?

aquela extraordinária presença de espírito que Deus lhe deu, teria respondido instantaneamente:

O sr é que pode responder, pois foi meu aluno no Ginásio.

— Voltando agora àquele meu encontro inicial, acrescento que certamente não admitia que ele se interessasse por inquérito social tão restrito. Ainda mais, partindo de um neófito.

Quanto a ele, quem sabe, salvar um futuro investigador desmontando de saída sua possível suficiência imaginei só muito depois.

O fato é que todo perturbado, devo mesmo ter-lhe dado a impressão de que dele só queria dinheiro para a confecção do modelo de um ficha já definitivamente elaborada.

Saí daquele primeiro encontro me sentindo gente. Estava maravilhado com o inacreditável: uma pessoa tão importante se interessava pelo meu trabalho. Não me adulou, não se desculpou por ter sido duro, mas levou-me a sério.

De minha parte vivi aquele encontro não como um simples conhecimento pessoal que nunca deixa de ser existencial, mas nem sempre se tem esta consciência. Quero crer que a tive então.

Da parte de Ulisses só posso supor que tenha ficado mais ou menos esperançoso a meu respeito

Apesar de aparentemente não ter demonstrado curiosidade por minhas idéias ou interesses médicos parece que comigo às vezes caprichava no encontro insólito, como a me estimular.

Aliás, sem qualquer resquício de demagogia, Ulisses dava a impressão direta de interesse a muita gente, cada um se sentindo objeto de sua atenção singular. Tinha na verdade muito amor para dar.

Acreditava nas pessoas, esperava boas coisas delas, que por sua vez se esforçavam para não decepcioná-lo. Seu afeto não era superficial, sentiam logo os escolhidos.

Um que em suas pitorescas conversas ilustra bem isto é Augusto Rodrigues, o artista. Adolescente meio contestador, Ulisses percebeu-lhe logo o talento, não se escandalizando com suas irreverências. No Recife conservador da década de 30, o jovem renegado não era apenas tolerado pelo Mestre. Era compreendido, sentindo-se amado.

Diversamente de muitos orientadores de jovens, Ulisses de saída os considerava bons até prova em contrário, e não inversamente, só porque o catecismo fala em pecado original. Outro encontro significativo ocorreu quando já interno da Tamarineira, da qual ele não era mais o diretor . Em meus primeiros dias ali, lhe pedi que me indicasse bibliografia para iniciar meus estudos de psiquiatria. Queria usar adequadamente o palavreado da especialidade, na redação das observações psiquiátricas. Aliás palavreado foi o termo que ele usou e não eu, gozando a inautenticidade de minha pretensão.

— Leia Proust, foi sua resposta, acompanhada daquele olhar divertido, agora também provocação. O tímido toma coragem e tenta retrucar. Parece que era o que ele queria.

Pacientemente explica que a literatice psiquiátrica tem de tudo, menos de um escritor moderno não convencional. Fala em introspecção, na incapacidade de descrever um sentimento de outrem quem não o experimentou. Não se refina expressamente a uma compreensão dinâmica, mas à empatia de Scheeler (Manifestações e formas da simpatia )

Animou-me francamente a fazer minhas primeiras observações antes de ler qualquer tratado clássico, cingindo-me ao minuciosamente observado.

Antøs de Sullivan, dos gravadores, do espelho unidirecional, dos vídeo-teipes, recomendava, por exemplo, a descrição da entonação no dialogo, registrando-se rigorosamente não só o que o doente respondia mais igualmente o que lhe era perguntado, literalmente.

Era sua opinião que a leitura precoce, dos clássicos, pelos estudantes jejunos das primeiras experiências, leva a generalizações ao arrepio da objetividade.

Como não perdia ocasião para ridicularizar os que só querem ver nos doentes o que está nos livros, acreditando mais nestes do que naqueles, por certo no momento desancou psiquiatras que só estão interessados no "caso" e não no paciente como pessoa limitando-se a um belo diagnóstico, não indo além de uma psicopatologia freqüentementee engajada.

Defendia a, porém, que os clássicos eram indispensáveis, mas só depois de adotado um estilo de entrevista cujo modelo, à época, sem a vasta bibliografia de hoje, estaria mais em Mary Richmond, autora do único manual de serviço social então conhecido com um capítulo sobre casos individuais), do que em Bumke, por exemplo. Com os tratadistas o modelo pode se enriquecer, mas não nascer.

Naqueles primeiros tempos só consegui arrancar-lhe 3 indicações bibliográficas:

  • A missão da Universidade, de Ortega y Gasset;
  • Regras e conselhos sobre investigação científica, de Ramon y Cajal;
  • Organização do trabalho intelectual, de Chavigny.

O primeiro livro sobre psiquiatria a me indicar, mais tarde. foi "Um espírito que a si mesmo", de Clifford Beers, numa tradução de Manoel Bandeira, o poeta, um bestseller à época, escrito por um ex. doente. Comovente relato, hoje meio esquecido das injustiças do asilo, e um patético apelo por uma reforma da mentalidade assistencial. Ulisses o considerava básico. Imagine-se como teria vibrado com Goffman falando na profanação do ego no paciente asilado!

Aquele desprezo de Ulisses Pernambucano por uma psicopatologia livresca talvez explique o pouco caso, em certas rodas, por sua orientação, pejorativamente rotulada de "sociológica", conduzindo a uma psiquiatria "estatística", quando não a uma suspeita "psiquiatria social" de que nem Kraepelin nem Henrique Roxo falaram. A assinatura que Ulisses tomou contra certos psiquiatras de salão explicaria também por que o forte, seu e de seus discípulos, nunca foram os estudos de psicopatologia tradicionais, freqüentemente limitados a elucubraçôes teóricas.

Nenhum de nós ousava escrever um trabalho de mera compilação. Ulisses exigia estudos monográficos com documentação clínica e/ou estatística, enriquecidos por sugestões e bibliografia suprida principalmente por José Lucena, um jovem assistente por todos connsiderado uma biblioteca ambulante. Não foi por acaso que se tornou catedrático da Faculdade de Medicina do Recife e uma das mais sólidas culturas psiquiátricas deste país Mais uma referência pessoal para contar outro encontro insólito. Interno novato, no 3/o ano médico, ainda em caráter precário, esperando o 4 para prestar concurso na Tamarineira, fui designado para a seção de um psiquiatra da velha guarda o qual nunca leu sequer uma das minhas observações, apesar de ter que colocar nelas o diagnóstico. Também não examinava os doentes, limitando-se invariavelmente a perguntar-lhes:

— O que pesa mais, um quilo de algodão ou um quilo de chumbo?

Fosse qual fosse a resposta, também invariavelmente rotulava-os:

— Debilidade mental, episódio delirante.

Estávamos em 1937 e no hospital Ulisses ia simplesmente como "alienista" de uma das seções. Todos os internos queriam trabalhar aí, gozar do privilégio de conviver um Mestre. Podia Ulisses não merecer mais a confiança do governo, mas para nós era um ídolo e por ele fizemos muitas provocações, demos muita dor de cabeça aos novos dirigentes, ficando bem nítida a divisão.

Ulisses, elegantemente, pairava acima dos partidos, todo discreção.

Mesmo que ele tivesse prestígio para escolher seu interno, não ousaria me candidatar.

Ulisses não tolerava empenhos. Eu já compreendera que ele era visceralmente justo e me sintonizara com a onda de confiança que irradiava. A tal ponto que o candidato terminava se dando conta da impertinência do empenho, se não da própria candidatura.

Já estava porém saturado de "debilidade mental, episódio delirante". Aproveitei a oportunidade de Arnaldo Di Lascio deixar o lugar e alegando junto à direção a necessidade de um rodízio, fui afinal indicado para trabalhar com ele.

Não tinha dúvidas de que seria aceito, pois com a saída de seu interno predileto, eu me guindava, com Walderedo Ismael de Oliveira, na liderança de seu partido.

Terminamos demitidos, tinha que ser.

Minhas provocações chegaram ao ponto de, num relatório de plantão, registrar que determinado paciente só tivera como almoço 14 caroços de feijão. Chamado às ordens pelo diretor, aleguei o regulamento que me obrigava a relatar todas as irregularidades, e lá vai comício.

Não sei se Ulisses soube do ocorrido, mas quando lhe informei que noutra seção do hospital havia um doente amarrado, ele se limitou a este comentário:

—No meu tempo de estudante nós carregávamos um bisturi.

Para ser breve:

Deu um enorme rebuliço, apesar do doente nada ter feito, e nunca se soube quem o soltara.

E oportuno comentar que fora de Pernambuco não me sinto à vontade para dizer que no tempo de Ulisses Pernambucano não se amarrava doentes nos serviços por ele dirigidos. Com tanta "contenção" que ainda há hoje, é realmente difícil acreditar.

Conseguida aquela transferência, uma vez interno de Ulisses, caprichei na primeira observação que apresentei.

Foi outro vexame. Cheguei a me sentir objeto de "marcação" do Mestre.

—Não quero observação. Quero o doente.

Mal vem o paciente, pede logo o receituário. Tento interrompê-lo, já podia ser mais confiado.

—O Sr. não vai examiná-lo?

Faz que não me ouve e estende-me a receita: banho.

Argumento, ousado, que aquilo não era receita, não prescrevia medicamentos.

Retoma o papel, sem uma palavra, e me devolve, sisudo. Estava escrito e assinado em forma de prescrição:

Rx

Banho

U.P.

E me pergunta, incisivo.

Munido de lápis verme:

—Há quantos dias este doente não toma banho?

Eu não sabia.

—Pois o Sr. devia saber.

Oenfermeiro socorre-me informando a falta dágua no Hospital ultimamente.

—Só volto aqui quando os doentes tiverem banho.

Depõe o avental e sai. Acompanho-o até à portaria e lhe pergunto como tinha percebido que o paciente estava sem banho, o que eu não notara.

—Pelo cheiro da sujeira. E acrescentou:

—Você não sente porque está metido nela. Eu vim da rua.

Deve ter sido nesse primeiro dia que passou a referir seu tema predileto ao novo interno, em nossas andanças pela enfermaria: os cuidados quanto ao cotidiano dos pacientes como tarefa do médico. Seu papel não seria apenas receitar ou redigir lindas observações. Devia também zelar pela higiene, pela alimentação, pelo sono, pelo bem-estar deles. Ajudar a enfermagem. Aprender mesmo elementos de enfermagem. E de praxiterapia.

Oencontro seguinte aconteceu ser ainda mais insólito para o interno metido a doutor.

Mesmo doente, agora limpo lho, Ulisses pegou na observação e foi riscando logo na primeira página, aquela destinada à identificação do paciente.

Ointerno cujo chefe anterior nunca lera uma observação sua, estava espantado.

Sublinhou primeiro a data, com o comentário:

—Documento sem data não é documento.

Por que fui perguntar se observação era documento? Que sermão que levei.

—Tudo é documento: uma carta, um desenho, um diário, da mesma forma que o seu exame. Até uma abóbora que o doente lhe ofereceu. Documentos a serem colocados na observação, que é o documento clínico por excelência. Há que erigir uma montanha de documentos para daí se extrair uma verdade científica.

— E como entra a abóbora?

— Escrevendo: a-b-ó-b-o-r-a

Zangou-se quando leu a procedência do doente: Paraíba do Norte.

— Não devia ter sido internado.

— E um doente, um ser humano necessitado — retruco.

— A prevalecer este sentimentalismo, jamais a Paraíba organizará sua própria assistência .

Certamente a partir daí comecei a tomar consciência do princípio de regionalização em saúde.

Acrescentou, mais ou menos:

— O governo da Paraíba recolhe tributos e deve dar assistência a seus contribuintes O que Pernambuco arrecada mal dá para os pernambucanos. Não podemos ser a Irmã Paula do Nordeste. A generalizar-se este sentimentalismo terminamos pulverizando recursos e no fim nem paraibanos nem pernambucanos ficarão razoavelmente assistidos.

Era o grande administrador que falava, assumindo aparentemente o papel de homem frio.

.Para salvar um programa não media sacrifícios.

Alcides Benício diz numa carta:

"Quando se estava elaborando o orçamento do Estado para 1932, ocorria no Nordeste uma grande seca, especialmente em Pernambuco, trazendo em conseqüência uma queda violenta na arrecadação. Em vista disso o Governo teve de fazer vários cortes nos diversos serviços e repartições, pretendendo mesmo suprimir o novo serviço dirigido por Ulisses (a Assistência a Psicopatas de Pernambuco, estruturada em 1931, a partir do velho Hospital de Alienados). Amigo de Ulisses e sabendo-o no Rio, em gozo de férias, telegrafou-lhe o Governador comunicando-lhe a deliberação que teria de tomar, forçado pela depressão econômica do Estado. Ulisses imediatamente volta ao Recife, saindo diretamente de bordo para o Palácio do Governo, a fim de tentar salvar ø serviço recém-criado, chegando ao ponto de propor uma redução dos próprios vencimentos, no que foi acompanhado por todos os médicos e funcionários mais graduados."

Refere ainda Alcides Benício que nem mesmo o orçamento reduzido de Ulisses foi aceito, tendo o Governador Carlos de Lima Cavalcanti, apenas para não perder o amigo e grande administrador, oferecido como alternativa o orçamento de 1930, do antigo Hospital de Alienados, cerca de novecentos contos de réis.

Acrescentou Benício, textualmente:

"Ulisses prontamente respondeu a Carlos de Lima: é um desafio que V. me faz, mas eu o aceito, com uma condição — o Governo permitirá que eu próprio retire mensalmente do tesouro os duodécimos, mediante recibo e prestação de contas no fim do mês, com toda a documentação. Com o dinheiro na mão para comprar à vista, creio que conseguirei vencer a batalha (naquela época nenhum fornecedor queria vender mercadorias ao Estado e quando apareciam nas concorrências os preços cobrados eram 4, 5 ou 6 vezes mais elevados do que os correntes na praça, tendo em vista o tempo levado para receber as importâncias devidas). Apesar da grita do pessoal da Fazenda, o Governador concordou em permitir a retirada do dinheiro para Ulisses comprar à vista. I)aí por diante as concorrências feitas e presididas por Ulisses eram cheias, todos querendo fornecer à Assistência porque recebiam o dinheiro à entrega das mercadorias, os preços eram muito baixos, os gêneros eram rigorosamente fiscalizados quanto à qualidade e quando esta era inferior eram devolvidos. Dessa maneira foi mantido o serviço, sem quebra de sua qualidade e eficiência e agora não era só o Hospital de Alienados, mas também os novos órgãos criados pela reforma de 1931."

A bravura de Ulisses só tinha paralelo com sua coerência. Não era criador de casos, não tinha apego aos cargos, era coerente até o fim, amigo da verdade ao ponto de não aceitar as imitações de pedra nas construções, justo até o próprio holocausto.

Ao se iniciarem as atividades da Faculdade, em 1920, abdicou da cátedra de psiquiatria, tão importante para suas ambições de professor e reformador, só para não perder o respeito de seus contemporâneos acaso em dúvida sobre um direito, que para qualquer um seria líquido e certo, pois toda uma congregação o indicara nesta ocasião.

Mas como, em 1915, ele com 23 anos, no Paraná, recém-formado, clinicando na Lapa, a Faculdade em gestação, fora lembrado para o lugar o provecto Alcides Codeceira, uma eventual contestação podia não lhe deixar a cavaleiro para denunciar valentemente mentiras, falsidades, contradições e injustiças.

Ficaram na história de nossa assistência suas lutas contra os poderosos comendadores da Santa Casa, mobilizando a Sociedade de Medicina e o Sindicato Médico, de 1917 a 1924, quando conseguiu passar para o Estado o Hospital de Alienados. (4, 6)

Em 1942, no ostracismo, doente (morreria um ano depois) despenca-se do Recife para, no Rio de Janeiro, voz a princípio solitária, defender com tal veemência o patrimônio dos doentes, que salva o antigo hospício da Praia Vermelha — o mais belo edifício do Rio imperial — e suas terras. Desta vez enfrentava outros poderosos — os tubarões da indústria imobiliária, acobertados por figurões do Estado Novo.

Mas em 1931 estava empenhado na grande obra de sua vida — a reforma da Assistência a Psicopatas de Pernambuco, então limitada a um único órgão — o Hospital de Alienados. (11)

Nomeado em janeiro, só tomou posse em maio, certamente porque não queria começar sem dispor de um instrumento legal proposto por ele ao Governo - o Regulamento Geral—cogitando (note-se, há 45 anos) de órgãos de prevenção primária, secundária e terciária, já apontando para uma psiquiatria comunitária e visando, oficialmente, pela primeira vez no Brasil, em nossa especialidade, tratamentos extra-hospitalares e serviço aberto, bem como uma equipe multidisciplinar. (11, 14)

Meses depois pedia demissão, numa de suas demonstrações de que ocupava os cargos para honrá-los e não para deles se servir.

É que seu amigo Artur Marinho, Secretário da Justiça, a cuja pasta estava subordinado seu Serviço, pede-lhe para declarar ter estado internado na Tamarineira um político do regime passado que a situação no poder com a revolução de 30 tinha interesse

Ulisses recusou alegando que seu primeiro dever era para com os doentes e não para com o Governo que o nomeara. E ante o argumento final de que como diretor de uma repartição não podia deixar de atestar o que lhe requeria uma parte, disse-lhe:

— Procure outro diretor.

Artur Marinho, magistrado nato, não insistiu. Continuaram amigos.

Mas em 1933 o Secretário já era outro — Adolfo Celso — a cuja primeira demonstração de desconsideração Ulisses Pernambucano reagiu com o costumeiro brio, levando a Melhor.

Quem nos conta o episódio desta vez não é o próprio, mas João Marques de Sá, ao empossar-se na cadeira de que é patrono, nesta Academia, Ulisses Pernambucano. João Marques se estende por várias páginas, com documentação original representada pela correspondência havida triangularmente entre Ulisses, Adolfo Celso e o Governador Lima Cavalcanti. Adianto apenas que o pivot do caso foi Gildo Neto, seu discípulo amado, cedo falecido.

A crise surgida poderia ser sintetizada como "insignificante mal-entendido", nas palavras do Governador, ao qual Ulisses, recusando entrar no jogo de dourar a pílula, caracteriza como "uma divergência de orientação fundamental".

As cartas de Ulisses aos dois, em extenso transcritas por João Marques, fornecem detalhes suficientes para se compreender a grandeza de quem as assinou. A dirigida ao Governador terminava assim:

"entre mostrar o meu desprestígio perante o meu auxiliar e retirar-me dignamente de um ponto de vista do Governo, fico com a última solução." (9)

Venceram finalmente a franqueza e a hombridade. Assim foi a vida deste Quixote nordestino, peculiarmente inserido na realidade, mundo, que nunca quis largar sua terra, como Gilberto Freyre, Câmara Cascudo e outros

Pernambuco inteiro sabia que Ulisses fora preso em 1935 por defender valentemente, à sua maneira, verbas para seus doentes e respeito por sua obra de administrador, e não por frágeis alegações políticas.

Sabia também que ele estava pagando por sua irreverência anti-acadêmica, seu inconformismo, por sua coragem levada ao destemor de denunciam pela imprensa, em 1917, a internação de adolescentes femininas de orfanatos da Santa Casa, por castigo, como loucas, na Tamarineira, só porque contestavam os padrões de comportamento das freiras. (4,6)

Pagava também por outra heresia, à mesma época, jovem de 27 anos — a de ter tido a ousadia de concorrer com o Deão, famoso orador sacro, futuro bispo — D. José Pereira Alves — ao concurso para a cadeira de lógica no Ginásio Pernambuco, cabendo-lhe o primeiro lugar, tanto mais quanto, em prova pública de argüição recíproca dos candidatos, como era moda, espetacularmente o perturbou. (9)

Já no ano anterior, lograra o primeiro lugar (o nomeado foi outro) em concurso para a Escola Normal com uma tese a propósito de classificação de crianças anormais.(4,9)

Cometia o pecado de propor muitas novidades, então inaceitáveis: pedagogia moderna, técnicas sociais, testes, etc. configurando o futuro psiquiatra social que iria se definir em 1923, naquilo que ele sempre se intitulou — neuro-higienista — ao colaborar com Amaury de Medeiros, no Governo Sérgio Loreto.

Tendo deixado a Saúde Pública para dirigir de 1924 a 1927 a Escola Normal, se revelou o grande administrador provado depois no Ginásio Pernambucano, na Tamarineira e no Sanatório Recife. (4, 6, 7, 8, 9, 10, 13)

Tendo revolucionado o ensino em Pernambuco, ao ponto de abolir o ingresso e promoção das alunas na Escola Normal pela idade cronológica ou pela loteria dos exames de fim de ano, tudo substituído por testes psicológicos, capitalizou, com isto, como sempre, muitas incompreensões e resistências. As velhas estruturas sentiam-se abaladas, O gênio renovador de Ulisses desafiava tudo que era arcaico, ria dos formalismos, denunciava as contrafações, arrostando com as conseqüências. Os meios reacionários de Pernambuco terminaram apelidando-o de "o lixo pernambucano", (5) responsabilizando-o inclusive pela saída das freiras da Tamarineira em 1933.

Ulisses nunca se defendeu desta acusação. É verdade que Alcides Benícío me escreve: "No pequeno discurso que Ulisses pronunciou no momento da despedida, agradeceu a colaboração prestada pelas Irmãs, durante o tempo em que ali trabalharam, frisando que aquela era uma deliberação da Ordem e não uma imposição sua. E todo o corpo médico e funcionários do hospital liderados por Ulisses acompanharam as freiras até o Noviciado, continuando ele a manter amizade com as Irmãs."

Acrescenta que, em seguida, por ocasião do falecimento de Irmã Ancila, lhe foi prestada sentida homenagem por Ulisses. Mas este me contou certa vez que ao lado da aura de santidade que cercava aquela religiosa (à qual velhos funcionários atribuíam inclusive milagres) muitas outras batiam de urinol na cabeça dos doentes e, mesmo que houvesse agitação nas enfermarias, todas se retiravam na hora do ângelus.

Na verdade não houve expulsão formal. O que aconteceu foi a intransigência da Provincial e da Superiora ante a exigência de Ulisses, para que houvesse certa seleção das freiras no trabalho com pacientes mentais. Pretensão considerada como uma interferência indébita, não tendo elas cedido nem aos apelos do Prof. Alcides Codeceira, seu médico, e do Cônego Barata, capelão do hospital, o qual Ulisses manteve em toda sua administração, tornando-se seu grande amigo.

Nesta altura, pessoalmente, quer me parecer que não podem prevalecer os aspectos formais. No fundo, para mim, Ulisses certamente não admitia dividir sua autoridade de diretor nem com Nosso Senhor. Como bom administrador, sempre praticou a delegação de competência, mas na base do binômio confiança-responsabilidade, sem intermediários, mesmo celestiais.

Parece-me claro, naquela atmosfera, que os representantes da reação tinham que contestar Ulisses e Ulisses tinha que manter a coerência.

Havia de terminar preso. O golpe comunista de 1935 foi a ocasião oportuna.

Dois fatos talvez pouco conhecidos ocorreram um pouco antes, influindo na arbitrariedade mais do que os motivos alegados, embora para mim prevaleçam as causas remotas já mencionadas.

O primeiro pode ser assim contado:

Os nordestinos Ulisses Pernambucano e Agamenon Magalhães, professores, ambos, do Ginásio, eram amigos. Guindado o segundo a grandes alturas políticas no Rio, aceitou do primeiro (no momento presidente do Sindicato) sugestões para fazer eleger deputado classista, conforme a Constituição de 1934, um médico de Pernambuco. Agamenon comprometeu-se com um nome que naturalmente não era o de Ulisses, que nada pleiteava para si, mas o de um respeitável professor e cientista, então diretor da Faculdade de Medicina, isto é, o próprio irmão de Agamenon — Ageu Magalhães.

O oportunismo político de Agamenon viu, certamente, a seguir, que não seria fácil manipular pessoas tão independentes na política com que se iniciava uma era de peleguismo no Brasil, e rompeu o compromisso. Brigaram, então.

O indomável Ulisses se tornara um líder incômodo para quem pretendia governar discricionariamente Pernambuco. Era preciso destruí-lo. Capacidade de odiar não lhe faltava. Gilberto Freyre é um dos que lhe atribuem influência direta na prisão em 1935. (5)

Segundo fato:

Naquele ano a agitação provocada pela Aliança Nacional Libertadora, infiltrada pelos comunistas, deve ter deixado as autoridades preocupadas, exceto ao que parece, o Governador Lima Cavalcanti, que foi passear sua displicência na Europa, onde o surpreendeu o golpe armado de novembro. Seu substituto, provecto jurista, presidente da Assembléia Legislativa, deixou que o Chefe de Polícia fosse se tornando o super-governador.

Ulisses vinha pedindo aumento de verbas para manter e ampliar os serviços da Assistência a Psicopatas e o recurso que achou, para pressionar o Governo, ao mesmo tempo em que ameaçava se demitir, foi recusar-se a internar mais doentes, que terminaram se acumulando nas cadeias.

Chamado à Chefatura, o titular exige as internações. Às ponderações de Ulisses, teria retrucado:

—Onde comem dois, comem três.

—Onde comem dois, três passam forme — foi a resposta de Ulisses. E pede demissão. Estávamos a 8 de novembro, às vésperas portanto do golpe vermelho.

Ohomem todo-poderoso deve ter ficado furioso com o desassombro de Ulisses, que não queria ser simples carcereiro de doentes. Isto mesmo é quase certo que lhe tenha dito.

E não perdeu a oportunidade de ir à forra. Verbas não se mencionou, muito menos a briga azeda e recente com Agamenon, já dono da política estadual. Mas interferência com estudantes, patrocinando um "inquérito tendencioso", sim.

Agora não se tratava da gorada investigação, anos antes, sobre as condições de vida dos trabalhadores das usinas sugerida num texto escrito pelo então considerado perigoso esquerdista Gilberto Freyre a pedido de Ulisses, e publicado pelos dois, mais 01ívio Montenegro e Sílvío Rabelo. A reação logo identificou Ulisses como o responsável, concentrando sua ira sobre ele, acha Gilberto que por ser, dos quatro, o único que possuía automóvel. (5)

Quem já se metera também com os pais-de-santo, retirando da Polícia para o Serviço de Higiene Mental da Assistência a Psicopatas o controle das seitas afro-brasileiras, (1) se metera agora com os estudantes.

Imperdoável.

Quarenta dias de porta batida.

Um prisioneiro, muito mal-educado como tal, afrontosamente dá as costas ao Chefe de Polícia quando este visita a Casa de Detenção — era Ulisses Pernambucano.

À prisão seguiu-se o primeiro enfarte, longa convalescença e a aposentadoria compulsória dos cargos estaduais, pelo artigo 177 da Constituição do Estado Novo, em 1937. (No Ginásio Pernambucano o expediente usado foi a extinção de sua cadeira). (5)

Só lhe restou a Faculdade, onde desde o começo se auto-limitara como professor substituto, regendo a disciplina de fisiologia nervosa e agora ocupava a cátedra de semiótica neuropsiquiátrica, para ele especialmente criada em 1934 (passaria para neurologia em 1938). (6)

Mas a mesquinhez foi ao ponto de alterar-se o regulamento do Departamento Hospitalar, prescrevendo que os aposentados por aquele artigo estavam impedidos de usarem pacientes, instalações e material clínico do Estado para aulas e cursos, apesar do convênio com a Faculdade, suprindo a ausência de serviços clínicos. (9)

A medida atingia singularmente U1isses, já demitido de alienista da Assistência a Psicopatas e assim praticamente com uma demissão branca também da Faculdade, uma instituição que, não por ser universitária, mas por ser, à época, particular, não estava ao alcance do braço policial, a não ser, indiretamente, através de recursos daquele tipo.

Da prisão em 1935 até a morte em 43, aos 51 anos, não conseguiram dobrá-lo. Aliás nunca o conseguiram. Parece que encontrava na adversidade um estimulante, se não um desafio, desdenhando ostensivamente todas as tentativas de apaziguamento por parte de seus algozes. (5)

Em 1936 fundou o Sanatório Recife, primeiro e modelar estabelecimento particular em todo o Nordeste

Em 1938 fundou Neurobiologia, para substituir os Arquivos da Assistência a Psicopatas de Pernambuco, extintos um ano após sua demissão da Tamarineira. Neurobiologia circula há 38 anos. A dedicação de Alcides Benício garantiu-lhe a sobrevivência nos anos mais difíceis.

Outra realização de Ulisses Pernambucano, só por si suficiente para consagrar um psiquiatra foi a fundação, no mesmo ano, da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste, depois do Brasil, agora às vésperas de seu XIII Congresso em Curitiba*, tendo presidido, enquanto viveu, os 3 primeiros — os de João Pessoa (1938), Aracaju (1940) e Natal (1943). A situação política de Pernambuco não permitiu a realização de nenhum no Recife, enquanto ele foi vivo.

Em Natal, dois meses antes de falecer, como numa premonição, legou-nos página antológica a propósito da ação social do psiquiatra — seu canto de cisne, uma verdadeira profissão de fé, sobretudo se tivermos presente que a ela o coerente Ulisses Pernambucano foi fiel durante toda a vida.

Apesar de ser um texto bastante conhecido, acho que esta conferência deve ser encerrada com suas próprias palavras:

"O que nós temos de confessar é que, fora raras exceções, ainda nos cingimos, no Brasil, em nossos trabalhos, aos problemas terapêuticos, as bizantinices de diagnóstico ou a estudos teóricos, aspectos de nossas atividades que não interessam aos homens de governo, nem fornecem elementos com que nos possamos apresentar diante deles para pleitear alguma coisa além de ambulatórios, pavilhões ou pretensiosos institutos que o são só no nome.

Diretores de serviços que não percebem o alcance dessa nova diretriz, que dormitam pelos gabinetes, alheios à responsabilidade de suas funções, até serem sumariamente despedidos; homens que pleiteiam os postos de direção e por isso não podem exigir respeito ao seu saber; médicos que consentem que os seus doentes morram à míngua de medicamentos e até de alimentos e não elevam um protesto indignado -não são psiquiatras!

O psiquiatra é o protetor do doente mental. Essa função é inerente à sua pessoa. Quando um Governo nomeia um diretor para um hospital de psicopatas, não faz um funcionário de sua confiança. Designa antes um curador nato para esses doentes, um defensor de seus direitos a tratamento humano, à alimentação sadia, a cuidados de enfermagem, à dedicação dos médicos. Aquele que, entre o doente que sofre e o Governo que paga e distribui benefícios, prefere este não é um psiquiatra.

O que permite que sejam desorganizados serviços que encontrou em boa ordemnão é um psiquiatra.

O que permite que seus doentes andem nus, cobertos de vermina e cheios de equimoses não é um psiquiatra.

O que consente, ainda que por simples omissão de protesto, que se destrua um grande hospital psiquiátrico, ligado por tantos tïtulos, ao desenvolvimento e história da assistência a alienados não é um psiquiatra.

O que não afronta os poderosos para defender o doente mental, quando privado de qualquer dos seus sagrados direitos à assistência e proteção, por comodismo, interesse pessoal ou receio de represálias não é um psiquiatra.

Réus desses crimes deviam sofrer um castigo além do desprezo que os cerca. Como o capitão que abandona seu navio em perigo, o comandante que deixa sem direção os seus soldados na batalha, ou o pastor que abandona aos lobos o seu rebanho, deviam ser privados do direito de ter sob sua proteção doentes que não sabem se defender de agressões e exigir tratamento, ou sair para as ruas, à sombra da bandeira nacional, para solicitar pão e luz." (12)

*0 XIV Congresso realizou-se em Maceió, o XV foi em Campinas (SP) e o XVI em Porto Alegre.

Referencias bibliográficas

  1. CAVALCANTI, P. — Ulisses Pernambuco e as seitas africanas. Estudos Pernambucanos dr dos a Ulisses Pernambucano. Ofic. Graf. Jornal do Comércio, Recife, 1937.
  2. CERQUEIRA, L. — Ulisses Pernambucano.Neurobiologia, 8:298-300; Recife, 1945.
  3. CLARK, D. — Psiquiatria Administrativa. Ed. Nueva Vision, Buenos Aires, 1973.
  4. COELHO FILHO, H. — A psiquiatria em Pernambuco. Tip. Jornal do Comércio, Recife,
  5. FREYRE, G. — Ulisses.M: QuasePolítica. 2a. ediçâo. Livraria José Olimpio, Rio de Janeiro,
  6. FREITAS, O. — História da Faculdade de Medicina do Recife. Imprensa Oficial, Recife,
  7. LUCENA, 3 — Características da Escola Psiquiátrica orientada por Ulisses Pernambucar h Estudos Pernambucanos dedicados a Ulisses Pernambucano. Of. Graf. Jornal do Com Recife, 1937.
  8. LUCENA, J. — Histórico de Pernambuco como pioneiro, na América Latina, no campo da saúde mental. Neurobiologia. 38 :231-312; 1974.
  9. MARQUES DE SÁ, 3. — A cadeira n? 5 da Academia Pernambucana de Medicina. Pat Ulisses Pernambucano. Neurobiologia, 3 7:3-36; 1974.
  10. PAIS BARRETO, A. e CAMPOS, A. — Um decênio de atividdades no Instituto de Psico Arq. Asstst. a Psicopatas de Pernambuco, 1? e 29 semestres. 136-144, 1935.
  11. PERNAMBUCANO, U. — Idéias e Realizações. Arq. de Assist. a Psicopatas de Pernambuco 2 (1)5-18, 1932.
  12. PERNAMBUCANO, U. — A ação social do psiquiatra. Neurobiologia, 6:153-160; 1943.
  13. PERNAMBUCANO, U. — O ensino normal em Pernambuco (1922-1926). Reprodução (‘ bllcações Oficiais, Recife, 1926.
  14. PERNAMBUCANO, U. — Regulamento da Assistência a Psicopatas. (Ato n9 483 de abril de 1931). Imprensa Oficial, Recife, 1931.

Bibliografia de Ulysses Pernambucano coletadas pelo autor no Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria Volume I de 1998. Infiltramos um um artigo do Prof. Othon Bastos que ajuda na compreensão da influência de Ulysses Pernambucano na psiquiatria do Nordeste e do Brasil

  1. Bastos, Othon. A atualidade de Ulysses Pernambucano. Rev.Neurobiologia,Recife. 1992; 55(1):3-10.
    Keywords: Psiquiatria e História
  2. Pernambucano, Ulysses. A Ação Social do Psiquiatra. Rev.Neurobiologia, Recife. 1943; 6(4):153-160.
    Keywords: psiquiatra; ação social
    Notes: Republicado na Rev. Psiquiatr.RS, 7(1)69-73,1987
  3. ---. As doenças mentais entre os negros de Pernambuco. In:Estudos Afro-Brasileiros,Rio De Janeiro,Edit.Ariel. 1935.
    Keywords: doenças mentais; negros de Pernambuco
  4. ---. A Assistência a Psicopatas em Pernambuco.Idéias e Realizações. Arq.Assist.a Psicopatas De Pernambuco. 1932; 2(1):5-18.
    Keywords: Psicopatas de Pernambuco; assistência
  5. ---. Bases fisico-patológicas da ambidestria. Recife. Ed. Particular. 1919.
    Keywords: ambidestria'fisiologia; psicologia
  6. ---. Conferência sobre a Reforma da Assistência a Psicopatas de Pernambuco. Arq. Assist.a Psicopatas De Pernambuco. 1933; 2(2):208-210.
    Keywords: reforma da Assistência aos Psicopatas
  7. ---. Educação das crianças anormais de inteligência. Recife,Ed. Particular. 1918.
    Keywords: educação; crianças excepcionais
  8. ---. Estudo estatístico da paralisia geral. Arq.Assist.a Psicopatas De Pernambuco. 1933; 1:155-190.
    Keywords: estatística sobre a paralisia geral
  9. ---. Idéias e realizações. Arq. Assist. a Psicopatas De Pernambuco. 1932.
    Keywords: idéias; realizações; Ulysses Pernambucano
  10. ---. Neuropsiquiatria forense . Rev. Neurobiologia, Recife. 1941; 4.
    Keywords: laudo; neuropsiquiatria; forense
    Notes: laudo
  11. ---. O Trabalho dos Alienados na Assistência a Psicopatas de Pernambuco . Arq. Assist.a Psicopatas De Pernambuco. 1934; 4(1):19-25.
    Keywords: trabalho dos alienados
  12. ---. Organização de um curso de extensão universitária sôbre higiene mental na Faculdade de Medicina do Recife. Arq.Assist.a Psicopatas De Pernambuco. 1935; 5(1-2):78-81.
    Keywords: higiene mental; organização de um Curso; Fac. Med.Recife
  13. ---. Profissão de fé de um psiquiatra. Rev. Vivência. 1975; 1(1):49-50.
    Keywords: manifesto de princípios
    Notes: (republicação)
  14. ---. Recursos Modernos de Assistência aos Doentes Mentais. Rev.Neurobiologia , Recife. 1938; 1(1):1-13.
    Keywords: assistência aos doentes mentais; recursos modernos
  15. ---. Seis casos de miotonia congênita. Rev. Neurobiologia, Recife. 1939; 2.
    Keywords: miotonia congênita
  16. ---. Sobre algumas manifestações nervosas da heredo-sífilis. Doutoramento,Tese, Fac. Med.Rio De Janeiro. 1912.
    Keywords: heredo-sífilis; manifestações nervosas
  17. ---. Trabalhos de antialcoolismo-Os inimigos e os amigos do álcool. Archivos Bras.De Hygiene Mental. 1933; 6(..):234-237.
    Keywords: amigos e inimigos do álcool
  18. Pernambucano, Ulysses and Campos, Alda. O teste, a bola e o campo em crianças de 12 a 13 anos. Arq. Assist. a Psicopatas De Pernambuco. 1931.
    Keywords: testes em crianças; a bola e o campo.
  19. Pernambucano, Ulysses and Campos, Helena. As Doenças Mentais entre os Negros de Pernambuco. Arq. Assist. a Psicopatas De Pernambuco. 1932; 2(1):120-127.
    Keywords: doenças mentais; negros de Pernambuco
  20. Pernambucano, Ulysses and Di Lascio, Arnaldo. Estudos Estatísticos da Incidência das Moléstias Mentais em Quatrocentos Primeiros Internados em Casa de Saúde Particular . Rev.Neurobiologia, Recife. 1940; 3(4):497-504.
    Keywords: Primeiros internamentos; casa de saúde particular; sintomas mentais
  21. Pernambucano, Ulysses; Di Lascio, Arnaldo, and Benício, A. A neuromielite epidêmica ( Doença de Austregésilo) em Pernambuco. Rev. Neurobiologia, Recife. 1940; 3.
    Keywords: neuromielite epidêmica; doença de austregésilo
  22. Pernambucano, Ulysses; Di Lascio Arnaldo , and Guimarães A.Barreto. Alguns Dados Antropológicos da População de Recife . Arq. Assist. a Psicopatas De Pernambuco. 1935; 5(1,2):40-45.
    Keywords: População recifense; dados antropológicos
  23. Pernambucano, Ulysses and Lucena, José. Um caso de palilalia post-encefalítica. Arq. Assist. a Psicopatas De Pernambuco. 1932.
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  24. Pernambucano, Ulysses and Oliveira, Maria Leopoldina de. Quocientes de inteligência em escolares do Recife. Arq. Assist. a Psicopatas De Pernambuco. 1932.
    Keywords: Escolares do recife; quocientes de inteligência
  25. Pernambucano, Ulysses and Pais Barreto, Anita. Ensaio de aplicação das 100 questões de Bellard. Arq. Bras. Higiene Mental. 1930.
    Keywords: Questões de Bellard
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    Keywords: testes psicotécnicos; aptidão
  27. ---. O Vocabulário das crianças das escolas primárias do Recife . Arq. Assist a Psicopatas De Pernambuco. 1931.
    Keywords: Recife; escolas primárias; vocabulário; crianças
  28. Pernambucano, Ulysses and Pernambucano, Jarbas. Um caso de atrofia muscular pseudo hipertrófica. Rev. Neurobiologia, Recife. 1939; 2.
    Keywords: atrofia muscular; pseudo hipertrofia

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