Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Dezembro de 2001 - Vol.6 - Nş 12

Psiquiatria, outros olhares

Fumar Maconha Faz Mal?

Dr. Antonio Mourão Cavalcante (*)

Mais uma vez a imprensa é invadida pela polêmica sobre o uso da maconha. Assunto recorrente. Vai e volta. As autoridades parecem atônitas, os pais perplexos e a sociedade confusa. Nem é para menos!

A reflexão deve ter pontos de referência, para que não se torne um enfadonho desfilar de preconceitos e palpites.

Do ponto de vista médico, claro que maconha faz mal, sobretudo quando usada de forma excessiva, imoderada. Não causa dependência física. E a pessoa não fica violenta como acreditam os que desejam simplesmente assombrar ou assombrar-se. Dá no mesmo! É, obviamente, uma agressão ao sistema respiratório, como o cigarro.

Do ponto de vista psicológico, é uma droga que causa relaxamento. Deixa o usuário lombrado, meio desligado, sem iniciativas. Como eles dizem, bundão! Sem graça, ou melhor, com um riso despropositado. Alegrão, meio sem nexo.

Bergeret (1) assinala: "Cronologicamente, a sintomatologia desenrola-se segundo quatro períodos: excitação, alucinações e instabilidade mental, êxtase e repouso, sono que conclui a embriaguez".(...) "Não podemos mais afirmar, atualmente, que as propriedades farmacológicas da cannabis favorecem a agressividade. Numerosas experiências procuram provar que a cannabis reduz os desempenhos psicomotores e bloqueiam a eficiência da memória e da atenção.(...) "A cannabis provoca também um fenômeno de tolerância; a controvérsia, entretanto, persiste a respeito da dependência física; na clínica comum, nunca é constatada. No entanto, a cannabis provoca uma dependência psíquica, observada em indivíduos com forte apetência toxicofílica, e não devemos duvidar da existência de autênticas toxicomanias em relação à cannabis."

Para os adolescentes a coisa fica mais complicada porque a maconha é desmotivadora. Isto é, ataca aquilo que o jovem tem de mais sublime: sua impaciência. Sua garra. Sua vontade de ser diferente e de crescer, abrindo espaços com o próprio esforço. Fica desinteressado pelas coisas objetivas do mundo. Meio alegre. Uma alegria boba, porque falsa. Faz pena! Como se assumissem uma forma de alienação propositada.

Nesse ritmo, vai apresentar dificuldades em acompanhar a vida "normal". Não quer mais saber de estudos, desinteressa-se pela aparência pessoal, meio sem pique para a organização e os deveres elementares da vida...

Atenção! Estou falando do uso sistemático, repetitivo, abusivo.

Claro que essa situação traduz/revela uma crise. Melhor explicando, pode não ser apenas a droga, mas uma outra dificuldade. A droga é, quase sempre, um sintoma. O uso revela um mal-estar, expresso dessa forma.

Daí porque, o mais significativo não está no combate desesperado e – algo histérico – àquele que se droga, como se fosse um marginal. Um bicho perigoso. Um criminoso contumaz. Nada disso! O uso da droga deve ser entendido como um enigma e um apelo.

Olievenstein (2) diz que: "É na repetição e na busca que, ao longo de sua história, o toxicômano inscreve em sua memória a imagem idealizada e superestimada do prazer, e a decepção com tudo o que encontra em seu caminho é o que o leva a transgredir sempre mais.."

Na perspectiva social, não seria pertinente inquietar-se? Por que esse uso virou moda e se propaga com tanta insistência e intensidade?

Não existiria um profundo mal estar entre os jovens de hoje? Qual a perspectiva que lhes asseguramos para o futuro?

Não se pode restringir essa discussão apenas aos malefícios da droga. A questão central passa pela noção de limite e transgressão. Afinal, quais são as normas que estabelecemos para os nossos jovens hoje? O que é o basta? Será que podem tudo? Será que ficam assim, totalmente soltos, impunes? Ao sabor de qualquer desejo?...

E, da parte dos jovens a busca nem é tanto o gosto da droga - seu princípio ativo e efeitos - mas a oportunidade de transgredir. De mostrar que são capazes de medir forças com quem é autoridade e detém o poder. Logo, se aceitamos o libera geral, estaremos inaugurando a grave perplexidade de filhos que não viveram a experiência de ter pais, nem lhes foi ditado rumo ou norma.

A questão central da maconha não é insistir sobre o thc (tetrahidrocanabinol, substância ativa), mas aprofundar a compreensão sobre a noção de limite e transgressão.

Na dinâmica familiar e social o pai é o símbolo da autoridade. Ele lembra a unidade, o projeto comum, o caminho. Um pai é sempre necessário. Indispensável. Curiosamente, quando nossa sociedade mais precisa, estamos órfãos. Cadê o pai?

No plano mais íntimo da família o pai também está desautorizado. Um dos elementos psicodinâmicos mais evidente é a falência do pai. Já não manda grande coisa. Os filhos ficaram respondões e desafiam acintosamente essa figura histórica. Alguns mais saudosistas exclamam: já não se faz pai como antigamente...

Nesse clima de tensão não é raro que deixem a família. Outros, numa atitude mais paroxística, tentam impor uma autoridade arbitrária e estapafúrdia. Tanto o vazio da ausência e descompromisso quanto a desesperada insistência em manter um padrão que ninguém obedece senão em caricatura, viceja um campo fértil para novas experiências, dentre elas o uso das drogas.

A escola está igualmente despreparada para impor normas. No mais das circunstâncias ensino virou negócio e o que importa é construir uma imagem de sucesso – tipo o êxito no vestibular – do que a formação equilibrada do adolescente.

É desesperador para a juventude saber que os seus pais são uns frouxos!...

Bibliografia –

Bergeret, J...(et.al.) – Toxicomanias: uma visão multidisciplinar, Porto Alegre, Artes Médicas, 1991;

Olievenstein, C. – A Clínica do Toxicômano, Porto Alegre, Artes Médicas, 1990.

 

(*) Antonio Mourão Cavalcante é médico psiquiatra e antropólogo. Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Autor do livro: DROGAS, ESSE BARATO SAI CARO (Ed. Record). E-mail [email protected].


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