Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2001 - Vol.6 - Nš 11

Psiquiatria, outros olhares

MAGIA, EVIDÊNCIA E CASAL

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Doutor em Psiquiatria pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica),
doutor em Antropologia pela Universidade de Lyon (França),
professor titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Autor de diversos livros, sendo o mais recente: Casal, como viver um bom desentendimento. (Ed. Record, 2001).

Esse mês apresento dois textos distintos. Um aborda o tema central do Congresso Brasileiro de Psiquiatria, recém realizado em Recife (Pe): Da Magia à evidência. O outro é o Primeiro Capítulo do livro que acabo de publicar: CASAL, COMO VIVER UM BOM DESENTENDIMENTO (Ed. Rosa dos Tempos/Record). Boa leitura!

MAGIA E EVIDÊNCIA

Antonio Mourão Cavalcante (*)

A Associação Brasileira de Psiquiatria teve a brilhante idéia de escolher o

Temário: Da Magia à Evidência, para o Congresso Brasileiro, realizado em Recife (31.10 a 03.11). Logo de saída o risco de uma percepção preconceituosa: magia é o antigo, o superado. Evidência, o que está atrelado ao certo e é científico.

Claro que assim posto o tema alimentou viva discussão, mesmo que tenha sido poucas as atividades programadas sobre o assunto. Objetivamente, se a magia continua seduzindo o povo, não se trata de algo passado e atrasado.

Suscitar dessa forma a discussão parece equivocado. Religião ou ciência, eis um falso dilema. A questão é saber se o terapeuta irá ou não incorporar à sua práxis os elementos da cultura, destacando-se, dentre outros, a religião.

Se estamos abertos, e não discriminatórios ao que se passa ao nosso redor, podemos constatar que para o paciente as circunstâncias do sagrado estão absolutamente presentes. Basta verificar, por exemplo, o espetacular sucesso de determinadas seitas religiosas e a audiência dos programas das religiões eletrônicas.

Para muitos a doença mental (e mesmo orgânica) é concebida como um castigo. Uma culpa a espiar. Ela aconteceu porque foi experimentada a ruptura da norma. O curar, nessa percepção, realiza-se igualmente como ritual da expiação. A purgação da falta, pelo arremedo da culpa. Por isso o tratamento assume uma conotação simbólica muito expressiva. O remédio de cor vermelha é mais eficaz do que o de cor amarela. O que dói - tipo injeção - mais forte do que o outro que é engolido. Para não falar daquelas drogas que a família teve que fazer o maior esforço para conseguir. Só existia no estrangeiro... E, por isso, era mais eficaz. Agora que a farmácia da esquina passou a vender, perdeu toda a sua força... Parecem detalhes caricatos, mas facilmente observáveis no cotidiano da prática ambulatorial.

Devo refutar, igualmente, que não se trata apenas de uma conduta ligada às camadas mais pobres. Sendo elemento inerente à cultura, verifica-se em todas as camadas. Lembro uma senhora, de classe abastada, que estando em Canindé (Ce), centro de romarias à São Francisco, agradecia as graças do Santo. A cicatriz no peito indicava que fora operada. Fizera três pontes de safena. Por que aquela promessa, indaguei-lhe. De pronto ela respondeu: Foi São Francisco quem guiou as mãos do médico e por isto escapei e estou aqui agradecendo.

Não se deve contrapor a medicina da cultura com a medicina naturalista. Uma, percepção cultural, defende o valor da fé, da confiança, do set sistêmico, do vitalismo, da eficácia clínica. O outro (cientificismo) insiste na eficacidade, no objetivismo, no empírico, no laboratório. Um vê o ser humano, o outro trabalha com a pessoa, o cliente. Deveriam ser complementares.

O transtorno mental não pode ser reduzido a uma mera explicação bioquímica. Aliás, o ser humano não é apenas neurônios em cadeia intermediados pelos neurotransmissores.

A prática profissional tem demonstrado a necessidade de uma maior formação e conhecimento da Antropologia por parte do médico. Lembrando Marcel Mauss, a doença é um fenômeno social total.

E, ninguém pode ser psiquiatra no Brasil como se é psiquiatra nos Estados Unidos.

Não se trata de incorporar essas práticas ao nosso cotidiano profissional, mas saber que elas existem e que elas pautam a conduta da população que trabalhamos. Encontrar uma justa e respeitosa convivência é entender que ainda hoje, como sempre, medicina se faz nos limites da magia e da evidência.

CAROLINA, COM SEUS OLHOS FUNDOS

Carolina tem um olhar triste, triste mesmo. Não mais parece aquela menina que se vê na foto, correndo, ainda no jardim de infância. Filha de gente rica, Carolina teve um casamento muito bonito. Até as flores que ornamentaram a igreja vieram do exterior. O coral cantou um hino ao amor.

Os pais de Carolina sempre fizeram o melhor pela filha. Ela freqüentou uma escola espetacular, andou pelos ambientes mais sofisticados, recebeu bons conselhos e exemplos. Tinha tudo para ser uma esposa feliz e mãe ideal.

E assim foi.

Um belo dia, já casada há oito anos, chega ao consultório ainda sustentando o choro. Nem deu tempo de perguntar o que se passava. Cai em prantos! Quase urrando: - "Meu casamento ruiu! Descobri que meu marido não me ama. Tenho sofrido muito. E meus pais não imaginam o que está acontecendo. Eu não agüento mais! É muita coisa passando pela minha cabeça. Até em me matar e levar comigo os meus filhos, eu já pensei."

Carolina repete, insistentemente, que não sabe em que falhou. Sempre procurou conversar com o Zeca, mas ele é arredio. Nem dá muito papo. Trabalha feito louco. Chega em casa já dizendo que não quer saber o que se passou e que Carolina vive com reclamações o tempo todo. E justifica, afirmando que a hora de ele crescer profissionalmente é agora ou nunca! Liga o televisor e ali, em frente à tela, se instala e cai no sono. E nunca se liga ao lar, à família e à esposa...

Por que o amor entrou em desuso?

Carolina busca ajuda. Deseja entender onde errou. Sente que aquele "lar doce lar" virou um inferno. Não dá mais para manter as aparências.

Aprendeu que era para dar certo. Que o casamento é a construção da felicidade. Os noivos são até obrigados a participar de seminários de "preparação para o matrimônio": palestras enfadonhas, celebrando o prazer de se estar casado; as delícias e bênçãos que Deus reserva aos construtores do novo lar. Fica combinado que jamais haverá qualquer atrito entre eles.

Vem, então, o grande susto. Não demora muito e Carolina descobre que se trata de uma ilusão. Não vai ser bem assim. Não será jamais assim.

Duas pessoas completamente diferentes: o homem, que foi educado de certa maneira, freqüentou uma escola organizada sob certo método e introjetou comportamentos e valores de como ser macho; a mulher vem de outra família, outros pais, outros valores. Como duas pessoas, juntas, podem conviver sem atrito? E, até que a morte as separe!

A chave da compreensão do casal não é a paz nem a concordância, mas a possibilidade de viver suas diferenças. A constante construção de desencontros. Nem acontece de outra forma. É impossível evitar que um casal entre em crise. Todos irão passar por atritos, sofrer desgastes e conflitos.

A grande preparação para o casamento não está na vivência pacífica, muito menos na construção da concórdia e do entendimento. Está, sim, no desafio de administrar diferenças e, mesmo de aceitá-las. De viver - mais forte ainda: conviver - com alguém que é o oposto de si. E, como preservar a individualidade sem anular o outro? Como aceitar o estranho, se ele vem morar comigo, para sempre?

Este é o grande impasse e a maior riqueza do casamento. Conviver com a alternativa e o diferente.

Um grande desafio: um homem, uma mulher...


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