Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2001 - Vol.6 - Nš 10

Psiquiatria, outros olhares

Alô, alô amizade

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina/UFCe, autor de O Ciúme Patológico e Drogas, Esse Barato Sai Caro (Ed. Record) 

Se dependesse unicamente da quantidade de programas e textos publicados sobre sexualidade na mídia nacional, nossa juventude estaria salva. Nunca se falou tanto em sexo como agora. Nunca o assunto foi tão exaustivamente exposto nas páginas das revistas, dos jornais e na televisão. Cada emissão procura ser a mais explícita (sem fazer jogo de palavras, mas já fazendo!). Os detalhes são exaustivo. Tudo reduzido a uma mecânica impressionante. Uma fisiologia puxada com ares de sabedoria e naturalidade, passando aos jovens a impressão que tudo é possível e aceito. Insistem em afirmar: sexo é uma coisa natural. Normal. Como chupar sorvete.

Essa insistência em trazer o tema sexo para a mídia, longe de significar uma contribuição espontânea e mesmo uma preocupação com o futuro dos jovens, está mais inserida no contexto do exacerbamento das condutas erotizadas. No afã de conquistar audiência, abordar sexo é um filão generoso de audiência.

A mídia não discute quando o jovem deveria iniciar sua vida sexual, mas quando ele transou pela primeira vez. Isso evoca uma cobrança. Ninguém pode guardar-se. Tem que soltar, e soltar o mais cedo e rápido possível. Pois, o castigo será o mais atroz para o jovem: ser excluído do grupo ao qual deseja ardorosamente participar. A erotização das relações de gênero e mesmo intragênero é evidente. O adolescente só tem direito de conversar com uma garota, por exemplo, se for para ficar ou para transar.

Em nossa experiência profissional temos constatado que falar sobre os jovens é sempre muito complicado. E conversar com eles, ainda mais delicado. Na interlocução eles buscam credibilidade e autenticidade. Não basta ser "natural", falar bonito ou mesmo ser franco. É preciso que o adulto - pai ou educador - mostre coerência entre o que diz e o que faz. Algumas pessoas chamam isso de desconfiança, prefiro crer que essa relação deva se construída na lealdade.

A insistência no tema e, sobretudo, a forma como é abordado, enseja muito mais expectativas e desafios. Desperta no jovem o sentimento que se ele não segue o modelo da extraordinária espontaneidade - libera geral! - ele é careta, ele está por fora. Um exemplo bem típico é a questão da preservação da virgindade.

A expectativa do sexo pelo sexo gera um vazio porque o conhecer-se não se dá apenas pela manipulação adequada da genitália. O jovem acaba sofrendo muito com isso.

O conhecimento do outro, obviamente, não exclui a sexualidade. Mas, não se esgota nisso. As diferenças de gênero exigem mais do que o saber sobre a sexualidade. Pode-se afirmar que há um grave equívoco nessa educação/informação atual que tem uma base prioritariamente biológica, com grande enfoque na dimensão da procriação e mesmo do ato sexual.

Educadores modernosos excitam-se na apresentação desse tema aos jovens. Fazem-se conferencistas, animadores de programas de tv. Tentam esclarecer que tamanho deve ter o pênis, quando e o que a menina deve sentir quando o cara desejar penetrá-la. Algo reduzido ao puramente mecânico. E a insistência quase obsessiva do "use a camisinha", como se todo contato possível entre jovens devesse reduzir-se a prática de um ato sexual.

Pensando que está sendo muito avançado, porque está falando disso aos adolescentes, não raro, o tal conferencista está sendo gozado/ridicularizado pelos próprios jovens. Prova disso é a quantidade de perguntas desconcertantes que eles fazem, muitas vezes com o intuito único de assustar o doutor/professor. Fica uma situação de faz-de-conta, algumas vezes muito incômoda para os que desejam saber além do "aquilo".

O grande desafio estaria na aventura de descobrir o outro. Saber transar as emoções e os sentimentos. Encontrar-se no outro, pela experiência do diferente. Daí ser essencial insistir na necessidade do diálogo entre os jovens. Da indispensável experiência da ternura. Do abraçar. Do sentir o outro. Do dançar. Do calor humano. Da construção de esperanças e projetos comuns. Enfim, entender que podemos amar. Mas, sabendo que para amar é indispensável conhecer o outro. Sair de si mesmo.

A preocupação dos jovens de hoje não pode se restringir à contabilidade fria dos orgasmos. Na descoberta da zona G e outras comemorativos de uma sexualidade anódina. Isso eles já sabem. O que é mesmo complicado, para estas gerações, é o abrir-se ao outro. É o conversar. É a longa e desejante construção do amor.

As dificuldades dos pais podem ser colocadas em dois eixos. Primeiro é a construção do diálogo. Poucos pais sabem conversar com os filhos. Os filhos estão, geralmente, mais preparados do que seus pais. Mesmo porque a convivência dos jovens nas escolas, por exemplo, permite a parceria, seja nas atividades físicas, nos trabalhos em grupo. Além disso, as escolas são mistas, o que leva à interação entre os meninos e as meninas desde cedo. Antes, as escolas eram separadas por gênero.

O outro eixo de dificuldade consiste em estabelecer valores e como eles devem ser passados aos filhos. Outro dia um pai abordou-me e perguntou-me se devia ensinar seu filho a ser honesto ou a ser esperto. Simplesmente respondi: nem ser honesto, nem ser esperto. Mostre que ele pode ser feliz.

Existe um dado que complica: a adolescência dos filhos reatualiza a adolescência dos pais. Então, a dificuldade é lidar com o adolescente que eu fui e que hoje está projetado no adolescente que é o meu filho. Além disso, o mundo mudou muito e isso influi em várias direções. O relacionamento homem/mulher não é mais ditado unicamente pelas contigências sociais. Aquela história da mãe perguntar qual era a família do rapaz que estava cortejando sua filha, qual o trabalho dele, etc; parece procedimento do passado. Hoje, o preponderante é o afetivo. A mãe que tenta repetir estas perguntas antigas, escutará com tristeza a pronta resposta da filha: "Mas mamãe, eu gosto dele!" No passado, isso era impossível. Havia uma injunção de interesses familiares e sociais que decidiam a questão.

O relacionamento homem/mulher era mais centrado em interesses materiais, financeiros e patrimoniais. Havia a preocupação de escolher um bom marido para a filha. E o que era a bom esposo? Aquele que assumisse o comando da casa. O provedor. Casamento era assunto para a família decidir.

A revolução feminina conseguiu colocar o homem numa posição de defesa. Basicamente, a mulher passou a exigir o prazer na relação, a exigir o seu direito ao orgasmo. Antes era apenas um objeto. Conheço pacientes que, depois de mais de trinta anos de casadas, confessam: nunca tive um orgasmo com meu marido. Hoje, isso é impensável. Portanto, isso gera no homem atual uma inquietação e uma insegurança. Mesmo porque se a mulher não se sente bem com aquele parceiro, ela pode simplesmente procurar um outro.

Houve um deslocamento do eixo. Fala-se em gostar. Gostar de significa ter uma identificação afetiva. A mulher estudou intensamente. Tem diploma, tem emprego. Não precisa mais de um macho para sustentá-la. Nem aceita ser dependente.

Isso rompe uma lógica muito profunda. E, esse tipo de "educação para a sexualidade" nem sabe que essa revolução aconteceu. Não se dá conta que a grande transformação situa-se no relacionamento e suas condicionantes. A aprendizagem não pode reduzir-se ao puramente anatomo-fisiológico.


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