Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2001 - Vol.6 - Nº 1

Psiquiatria, outros olhares...

A Cura que vem do povo

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Doutor em Psiquiatria pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica),
Doutor em Antropologia pela Universidade de Lyon (França), Professor
Titular de Psiquiatria da Fac. Medicina/UFCe, Diretor do Centro de Estudos da Família.

Comecemos com duas reflexões:

1. Kubrick em seu clássico filme "2001, Odisséia no Espaço" tem uma cena extraordinariamente bela. Um homem das cavernas observa atentamente um osso.

Pelo tamanho bem que poderia ser um fêmur. De repente ele tem a idéia de jogar aquele osso para o ar, pensando talvez transformá-lo numa arma para abater os inimigos ou alguma caça.

Na cena, aquele osso planando, vai se distanciando, para se transformar gradativamente numa nave espacial. Nesta genial metáfora, Kubrick resume milhares de anos da criação humana. Ou se insistimos numa explicação mais didática, esta cena sugere os milhares de anos que estão por trás de cada nova descoberta humana. Que o pensamento e a criação não são estáticos. Estas descobertas se acumulam, se modificam. Elas fazem avançar as ciências e a tecnologia.

2. O atual Papa João Paulo II, quando jovem, participou da resistência polonesa à ocupação nazista. A maciça intervenção impunha, goela abaixo, o modelo cultural ariano. Nas escolas eram ensinadas novas canções, outros hábitos, histórias e lendas diferentes da tradição. Conta Woitila que uma de suas tarefas era reunir as crianças, em lugares escondidos, nas florestas, para ensinar-lhes as canções populares e as lendas de seu povo.

Eles estavam muito preocupados que os meninos e as meninas, progressivamente, esquecessem as suas origens culturais e adotassem outros modelos. Esta questão era fundamental para a manutenção da identidade nacional polonesa. O medo dos resistentes era que se a ocupação nazista continuasse, em pouco tempo, não existiriam mais como povo, nem como cultura polonesa.

O estudo das práticas médicas populares tem algo a ver com estas duas pequenas histórias.

Ao tentarmos repertoriar as diversas práticas de medicina popular encontradas no Brasil, seria importante compreender que estas manifestações não são coisas do passado, totalmente esquecidas ou em vias de extinção. Elas estão presentes em todos os lugares e constituem, com frequência, o único recurso ao qual o nosso povo tem acesso.

Doutra parte, é importante assinalar que a busca destes recursos não está condicionada apenas a questões de ordem econômica - a pobreza. Cremos que o povo procura estas propostas de cura porque encontram nelas uma maior sintonia/ressonância cultural. Elas calam mais fundo no imaginário ao povo. Enquanto que, as práticas oficiais são destituídas de qualquer senso para os mais simples. Na realidade, as manifestações populares estão ligadas à cultura. Elas fazem parte do todo cultural.

É muito difícil precisar onde terminaria a Medicina Oficial e onde começaria a Medicina Popular, sobretudo aqui no Brasil. Muitas das práticas populares são recuperadas pelo saber instruído, enquanto outras formas são abandonadas. Com o passar do tempo outras práticas vão surgindo e os fenômenos de acumulação e sincretismo são extremamente importantes para a compreensão da nossa realidade cultural.

Como parte fundamental da cultura e considerando que a nossa é multifacetada, fica fácil imaginar que as "medicinas" sejam as mais variadas possíveis e com apelos a diferentes recursos. Temos a fitoterapia, as orações, tanto as católicas, como as tradicionais e modernas, as manifestações espíritas, umbandistas, pentecostais, as romarias, os santos protetores, etc.

O questionamento que se levanta a respeito das práticas populares deve permitir um enriquecimento das partes em confrontação. Não podemos esquecer, por exemplo, o aspecto do equipamento linguístico das práticas populares que, geralmente, é mais consentâneo com a realidade popular. O nome da doença, a descrição dos sintomas adquirem para o paciente uma compreensão mais clara.

A duração mesma da consulta não se limita a uma rápida descrição de queixas com a subsequente prescrição medicamentosa. Procuram conhecer a realidade familiar e social do paciente. Aliás, o terapêuta vive na mesma comunidade e do mesmo modo que o cliente. Estes elementos são, sem dúvidas, aspectos muito significativos para tentar justificar o relativo sucesso que estas manifestações possuem, além delas questionarem, de forma direta, algumas condutas, lamentavelmente comuns, entre os que praticam e defendem a medicina oficial.

Doutra parte, devemos assinalar a grande ligação existente entre os diversos sistemas de curas populares e as crenças religiosas. Religião e saúde estão intimamente ligadas. Corpo e fé são entidades contíguas e em muitos casos a cura passa pela resolução do conflito espiritual existente. A rigor, não existiria a separação clara de instâncias a estudar. Tudo funciona como um só universo. O esforço é concentrado, na maioria dos casos, em procurar estabelecer uma lógica única que possa integrar o sagrado e o profano.

As manifestações populares que estão ligadas aos processos terapêuticos e religiosos, no Brasil, chamam atenção dos cientistas sociais e dos técnicos de saúde que estudam o assunto, pela persistência e dimensão das mesmas na realidade brasileira.

Quando em momentos de comoção social - lembremo-nos, por exemplo, do episódio Tancredo Neves - o noticiário da agonia e sofrimento do povo pode ser mostrado com toda nitidez. Era o primeiro presidente civil, depois de um longo período de manus militaris. A equipe médica do Instituto do Coração, em São Paulo, unidade do maior complexo hospitalar da América Latina, estava desejosa de mostrar todas as suas aptidões e habilidades. Lá fora, nas calçadas, o povo aguardava ansioso. Rezava, fazia promessas, organizava romarias, trazia líderes espirituais, pais e mães de santos dos terreiros de umbanda e candomblé. Tínhamos, nesse episódio, a imagem do Brasil real. Os casos podem se repetir, como aconteceu com o cantor Leonardo ou a mulher de Roberto Carlos.

Diariamente nas favelas e nos bairros populares das grandes cidades do país, quando anoitece, pode-se facilmente escutar o rufar dos tambores de umbanda. O fenômeno das romarias se repete todos os anos. Não é exclusivo do Nordeste, com São Francisco das Chagas de Canindé ou Padre Cícero Romão Batista em Juazeiro do Norte. Elas ocorrem também no Sul e no Norte. Por sinal, a maior romaria no Brasil fica em Aparecida do Norte, cidade do estado mais desenvolvido do país. Existem também, espalhados por todo o país, milhares de centros espíritas, cultos pentecostais, preces poderosas, todos se propondo a realizar curas e milagres.

Todos estes anos de dominação cultural não conseguiram impor um modelo único de concepção e prática da medicina no Brasil. As formas alternativas, locais, continuam presentes até como uma maneira de resistência e de identidade cultural. Se no passado a rejeição era a atitude mais frequente, hoje, cada vez mais, se coloca a questão de como a medicina científica pode se articular com as diversas manifestações e práticas populares.

É importante a confrontação de todas as práticas terapêuticas, de tal modo que cada uma destas partes possa guardar sua especificidade.

Não se trata de legitimar uma ou outra, mas que possam surgir novas expectativas e outras atitudes, provavelmente mais ricas que as atuais. A diferença, nesse caso, deve ser pensada não como uma confusão ou equívoco, mas como algo extremamente rico. Aquilo que sempre foi dito que era a nossa pobreza e nosso atraso, nos parece evidente que é exatamente o contrário. É aí que está a nossa grande riqueza.

Ensejar a participação ampla da população em programas de saúde, passa necessariamente pela identificação e integração daqueles que são os representantes mais legítimos e comprometidos com a saúde da comunidade. Não se trata de uma conquista, mas de um justo reconhecimento.

Indicações bibliográficas -

  1. Araújo, Iaperi - A Medicina Popular, Natal, Ed. Universitária, 1981;
  2. Araújo, Alceu Maynard - Medicina Rústica, 3a ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional;
  3. Camara Cascudo, Luiz da - Dicionário do Folclore Brasileiro, 3a ed., Rio de Janeiro, Ed. Ouro, 1972;
  4. Campos, Eduardo - Medicina Popular do Nordeste, 3a ed., Rio de Janeiro, Ed. O Cruzeiro, 1967;
  5. Laplantine, François - Anthropologie de la Maladie, Paris, Payot, 1986;
  6. Loyola, Maria Andréa - Médicos e Curandeiros, São Paulo, Difel, 1984;
  7. Magalhães, Josa - Medicina Folclórica, Fortaleza, Imprensa Universitária, 1966.

TOP