Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2001 - Vol.6 - Nº 7

No Paiz dos Yankees

Infecção e obsessão: a síndrome PANDAS

Dr. Erick Messias

Uma das novidades que desde os anos 80 tem dado muito o que falar , foi a descrição de um subgrupo de pacientes que desenvolve transtorno obsessivo compulsivo (TOC) ou tiques na infância associados a infecções por estreptococos. Esse subgrupo foi identificado pela excepcional equipe de pesquisadoras liderado por Judith Rappaport, que incluía nomes como Susan Swedo – que está de volta ao NIH, depois de uma passagem pela Johns Hopkins, e Henrietta Leonard – hoje na Brown University, em Providence, Rhode Island.

Essa investigação teve origem na observação de que Coréia de Sydenhan, uma complicação neurológica da infecção estreptocócica, poderia ser um modelo pra TOC e transtornos de tiques, principalmente quando esses trantornos apereciam na infância. A partir daí foi criado o conceito de transtornos estreptocóccica, em inglês Pediatric Autoimmune Neuropsychiatric Disorders Associated to Streptococcal Infections, PANDAS.

O modelo de Coréia de Sydenhan postula que pessoas susceptíveis, quando infectadas com sepas de estreptococos beta hamolíticos do grupo A produzem anticorpos que reagem com componentes celulares do sistema nervoso central causando inflamação nos gânglios da base, resultando em coréia, labilidade emocional, entre outros sintomas neuropsiquiátricos. Em três de cada quatro pacientes esses sintomas envolviam obsessões e compulsões semelhantes àquelas encontradas em TOC: medo de contaminação, preocupação acerca de ferir ou machucar alguém, rituais de limpeza e arrumação. A partir de então se desenvolveu a idéia de que aqueles pacientes com curso clínico caracterizava-se por início abrupto de sintomas, em geral seguindo infecções por Estreptococcos, teriam PANDAS.

Diagnóstico

Os critérios diagnósticos propostos para PANDAS incluem:

- Presença de TOC ou trantorno de tique

- Início dos sintomas antes da puberdade

- Curso marcado por exarcebação aguda e grave de sintomas

- Anormalidades neurológicas, presentes durante as exarcebações

- Relação temporal entre infecção estreptocóccica e exacerbação dos sintomas

Sendo a relação temporal, sintoma-infecção, a mais importante e distinta característica. A razão dessa importância vem da alta prevalência de estreptococcus na população infantil-escolar.

PANDAS e Febre Reumática

Apesar da relação e da similaridade do modelo, PANDAS e Coréia da Febre Reumática, a hipótese atual é de que PANDAS não deve ser classificada como sequela de Febre Reumática – de modo que evidência de febre reumática exclue o diagnóstico de PANDAS

Mudanças estruturais

A análise volumétrica de pacientes com PANDAS mostrou que o volume do núcleo caudado, bilateral, era menor nos pacientes que nos controle. Achados como esse são importantes na determinação de uma entidade nosológica separada.

Profilaxia com antibióticoterapia

O uso preventivo de antibiótico, e seu impacto em pacientes com de Febre Reumática, levou a um estudo sobre o uso de penicilina nesse grupo de pacientes. Nesse estudo, apesar do grupo em penicilina ter apresentado um número menor de remissões, esse resultado não alcançou significancia estatística e levou a um outro estudo, dessa vez utilizando imunoterapia.

Imunoterapia

Novamente derivando a partir do uso de imunoterapia em Coréia de Syndehan, um teste clínico foi realizado, utilizando troca de plasma (therapeutic plasma exchange) e imunoglobulina endovenosa (intravenous immunoglobulin). O resultado foi publicado recentemente no The Lancet. Vinte e nove pacientes completaram o ensaio clínico, com resultados positivos para ambos os tratamentos. Mais informações sobre o ensaio podem ser encontradas no Lancet, 1999, pgs 1153-8.

Futuras direções

A grande esperança em torno desse conceito é que o modelo fisiopatológico possa ser utilizado em TOC, e possivelmente em outros transtornos psiquiátricos. O futuro dirá se essa esperança tinha fundamento.

Até o próximo mês.


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