Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2001 - Vol.6 - Nº 6

No Paiz dos Yankees

Resquícios do segundo ano

Dr. Erick Messias

Na coluna anterior falei sobre a minha experiência na unidade de internação do Hospital da Universidade de Maryland. Nesse mês falarei um pouco sobre a outra metade da experiência, que passei no hospital Sheppard Pratt.

Um pouco de história

Quando Moses Sheppard recebeu Dorothea Dix em sua mansão, no inverno de 1852, ele já conhecia de perto a situação dos miseráveis e doentes de sua cidade, Baltimore. Mesmo assim ele ficou tão impressionado com suas idéias e com a situação dos lunáticos nos asilos públicos, que a partir de então decidiu liderar um movimento para a criação de um asilo privado ‘livre das pressões políticas’ de seu tempo. Ao falecer, em 1857, Sheppard deixou sua fortuna de meio milhão de dólares para a contrução do hospital devotado a cuidar ‘primeiro dos pobres pertencentes à sociedade dos amigos, ou quakers, depois para os membros da comunidade que pudessem pagar e depois para os pobres em geral’. Uma fazenda foi comprada nas imediações de Baltimore, ao Norte, onde hoje está o hospital e a universidade de Towson. No entanto, veio a guerra da secessão e os trabalhos ficaram interrompidos até o final dos 1870’s. O hospital ficaria pronto no final de 1891. Chamava-se então Sheppard Asylum, nome que duraria até 1898 quando foi mudado para Sheppard and Enoch Pratt Hospital – Enoch Pratt deixou sua fortuna ao morrer para o asilo, mediante uma condição: acrescentar seu nome ao da instituição.

Nos anos 20, o hospital viveu seus dias de glória com Harry Stack Sullivan sendo diretor de uma das unidades. Essa unidade fora devotada ao tratamento de esquizofrênicos e Sullivan limitou seu trabalho a pacientes do sexo masculino, sendo que toda a equipe também era composta de homens. Aqui Sullivan desenvolveu suas idéias e atingiu o ápice de sua carreira. Seus conceitos de ‘distorção’ e do papel das relações interpessoais no desenvolvimento da doença mental foi sistematizado no seu trabalho no Sheppard, onde ele teve a liberdade necessária de criar e implementar suas idéias. Hoje Sullivan empresta seu nome a uma das alamedas do campus e ao hospital-dia. Assim o Sheppard Pratt ganhou uma reputação de tratar aqueles com transtorno mental grave, com humanismo, psicoterapia e terapia ocupacional. Essa reputação dura até hoje, com o Sheppard figurando na lista dos melhores serviços psiquiátricas do país.

No Sheppard os residentes de segundo ano rodam em duas unidades: a B1, unidade de pacientes psicóticos, comandada pelo psiquiatra John Boronow, e a A2, geriátrica, comandada na época em que passei por lá por Maria Klement.

Boronow e Klement são dois supervisores que imprimem sua marca nos residentes. O primeiro pelo saber psicopatológico e psicofarmacológico, e a segunda pela sagacidade clínica. Boronow é organizado ao ponto da obsessão, conhece psicofármacos como poucos e foi o criador do serviço de parecer psicofarmacológico do Sheppard. Seu conhecimento de psicopatologia se estende muito além da média norte-americana, e com ele discutimos sintomas schneiderianos e fenomenologia jasperiana.

Maria Klement cresceu na Áustria e migrou para os EUA, onde estudou medicina, depois da segunda guerra – mantendo ainda hoje o R arrastado dos alemães. Apesar da idade, sua mente continua aguda e perceptiva, e sua energia é maior que a da maioria dos jovens. Uma de suas máximas favoritas é: além de conhecer o paciente a fundo, o psiquiatra, no decorrer do tratamento com qualquer paciente, deve aprender algo de si mesmo, senão o tratamento não está sendo válido.

Nesse ambiente intelectualmente estimulande, passei outros três meses do segundo ano. Ao final do qual, passamos para o terceiro ano, onde atendemos somente pacientes ambulatoriais. A ansiedade de começar a ver pacientes fora da segurança da unidade de internação gerou um sonho, nos últimos dias de segundo ano. Abaixo segue o texto que escrevi baseado nesse sonho, e foi publicado no jornal da sociedade de psiquatria de Maryland.

The Baby and The Spider

By Erick Messias, M.D.

June, not April, is the cruelest month for residents in training. In June we change year and rotation. In my case, I went from an inpatient unit to an outpatient practice when I finished the second year of my psychiatric training. Well, every change in routine or service causes anxiety, but moving from an inpatient, fully supervised, safe practice to an outpatient clinic, with psychotherapy and medication responsibility is a special case.

When the patients are in the unit they have 24 hour/day monitoring of their activities. Now I have to see the patients once, perhaps twice, a week.

They go home with bottles of Tylenol shining in the bathroom cabinet, knifes hanging in the kitchen, ropes and rat poison filling the attics and family members sleeping at night. There is the benefit of not having night call, but I sometimes found that I had a hard time sleeping anyway.

Then, in the last week of June of 1999, my sleep was disturbed by a vivid dream. In the dream, I was in a room with my classmates. We were listening to a lecture and there were lines of soft white chalk on the blackboard. In the interval between classes, one of my classmates came in the room to announce that she wanted to transfer a patient to me. This young woman is a tall, charming and intelligent colleague, whom I respect tremendously, so it was with joy and pride that I accepted the transfer. She then began to leave, I asked for details about the case. She turned back and answered, "Actually, I am going to bring her in here." She left the room and, some minutes later, returned with a huge, hairy, black spider in her hand. I looked at the animal and was puzzled by it. My colleague commented, "Now that you know the patient, I will take her back." More shocking than the spider-patient was the phlegm of my colleagues. In distress, I saw her leaving the room and cried, "Can you tell me at least what medication is the patient on?" She turned back and said with an ironic tone, "Do not worry about medication, it is for psychotherapy only!" Needless to say, I woke up in despair.

How could one describe the year? I learned that cliches turn into cliches because they are mostly true. ‘The patient will teach you best,’ ‘listen to your gut feelings, ’ ‘the best way to learn is to do it,’ ‘sometimes doing nothing is doing something,’ ‘never underestimate your patients or their illnesses,’ and I would like to add ‘never underestimate your supervisors.’

Actually, after the patients, my supervisors were the ones who taught me the most. I had the privilege of having three brilliant and experience supervisors. I would present the same patient and listen to two or three opinions on the case, and this was often helpful.

That year, the resident who appeared in my dream became pregnant. In late May she gave birth to an active and healthy little boy. Maybe this is a good metaphor for the year: we started with dreams and fears, and reality gave us hope and life. A baby is a gift to the future; his is the light of the day. The spider is somewhere in darker areas of the mind, tossing its webs and spreading its long paws to smaller prey.

And now it is June once again.


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