Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Abril de 2001 - Vol.6 - Nº 4

No paíz dos Yankees

Memórias de um residente de psiquiatria
Tragédias cotidianas da unidade de internação

Dr. Erick Messias

Alguns meses atrás estava de plantão no Carter Center quando escrevi as memórias do meu primeiro ano por lá. Hoje, estou de plantão na unidade psiquiátrica do hospital geral da Universidade de Maryland, onde passei metade do tempo de 'inpatient' do segundo ano.

Fiquei na unidade 12 oeste, sob a supervisão do Dr. Konstantin Sackles, um grego, cujo interesse maior era terapia de grupo. O outro residente na unidade era meu amigo Ikunga Wonodi, um chefe de tribo na Nigéria que compartilha comigo os interesses pela pesquisa e pelos aspectos transculturais da psiquiatria. Assim passamos três meses: um grego, um nigeriano e um brasileiro, no comando da unidade psiquiátrica adulta do hospital da Universidade. A equipe ficava completa com as enfermeiras, uma terapêuta ocupacional e duas assistentes sociais.

Os pacientes que ficam internados na universidade compõem uma população heterogênea. Cerca de metade do grupo é composta de usuários de drogas, sendo heroína a principal. Outro grupo são os pacientes admitidos depois de tentativas de suicídio. Pacientes com transtorno bipolar em fase maníaca e pacientes em surto psicótico compõem o restante da população.

Os três meses foram cansativos. Os plantões, a cada seis dias, se acumulavam na mente, no cansaço do corpo e os pacientes iam se acumulando na memória. Um rapaz em surto maníaco que viera a Baltimore para salvar o mundo das tentações do diabo; outro, Etíope, cantando hinos a seus deuses, noite adentro no plantão. Houve tambem um paciente psicótico que, numa tentativa de suicídio, lascerou os pulsos, incluindo os tendões, que foram reparados no Shock Trauma, e depois limpou o sangue derramado na banheira para que sua mãe não reclamasse da sujeira.

Tudo isso sem contar os inumeráveis usuários de drogas. As histórias eram tão sofridas, tão cheias de tragédias, e ao mesmo tempo tão semelhantes, que hoje duvido de Tolstoi quando dizia que todas a famílias felizes parecem entre si, as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. As tragédias se repetiam com pequenas variações: ora era um padrastro que molestava a jovem enteada, ora um tio que morava com a família, por vezes a mãe usava drogas diante dos filhos, ora o pai alcoólatra chegava em casa carregado por amigos. Enfim, o repertório de sofrimento e abandono que gera o submundo das drogas – acoplado ao sistema judicial criado pela "war on drugs’ tão bem retrado no recente filme Traffic.

Hoje a noite está calma. Aproveito para ir jantar num pequeno restaurante grego a um quarteirão do hospital, pensando no Dr. Sackles, que desde então se aponsentou da universidade. A residente de segundo ano, a quem devo orientar, tem o número do meu ‘pager’. Em meio a meu prato de ‘suvlaki’ o ‘pager’ anuncia uma emergência. Ao telefone a residente me comunica que fora chamada à UTI para realizar uma avaliação psiquiátrica de um paciente que precisaria receber um transplante hepático. Ora, em geral essas avaliações são feitas quando o paciente se inscreve na lista para transplante, e envolve uma série de entrevistas, incluindo família e amigos, para identificar se o paciente tem condições psicológicas/psiquiátricas de receber e cuidar de um fígado novo. Nunca fizera tal avaliação ‘de emergência’.

Encontrei a residente da UTI e fomos avaliar o paciente: ele nos recebeu aos gritos e se recusou a falar conosco. Queria morrer. Olhei para ele, tinha 23 anos de idade, um corpo coalhado de tatuagens e um rosto de adolescente. Consultamos o prontuário. Aquele paciente havia injerido uma caixa de acetominofen uma semana antes da internação e passara dois dias num hospital das proximidades. Tivera alta do hospital, saira de lá e comprara duas novas caixas de acetaminofen e novamente tentara se matar. Voltou para casa, onde a mãe vivia com o terceiro marido, e ficou três dias vomitando. A mãe chamou a polícia depois que encontrou as duas caixas de acetaminofen. Fora internado contra a vontade e transferido para Universidade ao se constatar insuficiência hepática fulminante. Estava entrando em coma hepático e a equipe de transplante gostaria da nossa avaliação, se aquele paciente deveria entrar na lista de urgência para o transplante.

Na sala de espera, a mãe, chorando, nos recebe.

‘Meu filho vai receber um fígado?’

Conversamos com ele e o padrasto por mais de uma hora. Novamente as tragédias se repetindo: o paciente sempre fora um filho problemático: nunca estudou, desde muito jovem se envolvera em gangues e crime. Começara a roubar para usar drogas aos quinze anos e fora mandado para uma unidade do juizado aos 16 anos. Ao sair de lá, tinha deixado as drogas pelo álcool. Passou um ano e meio na cadeia e estava tentando re-construir, acho que no seu caso construir, a vida. Arranjara uma namorada e um emprego. Há um mês tiveram notícias que o pai biológico falecera. O paciente voltou a beber, perdeu o emprego e fora posto para fora de casa pela namorada. Ficara nas ruas até a primeira tentativa uma semana atrás. Agora deslizava diante dos nossos olhos para o coma e a morte.

Voltamos à UTI, revisamos novamente o prontuário, tentamos novamente falar com ele. O quadro não melhorava. Seu nível de consciência flutuava, em intervalos cada vez maiores de coma. Lentamente o Delirium se instalava. Ligamos para o psiquiátra responsável pelas avaliações para transplante. Depois de discutirmos o caso, terminamos de escrever o parecer.

O paciente seria classificado por nós como ‘alto risco’, que naquele momento significava uma condenação à morte. Doeu ver aquelas palavras escritas sob minha supervisão. Mesmo sabendo que seria injusto para alguém na lista de espera, que mostrou capacidade de abstinência e aderência ao tratamento, passarmos um orgão para meu paciente na UTI, ou que suicídio possa ser um direito do indivíduo. Mesmo sabendo que dificilmente chegaria um fígado em tempo para ele, e que a morbidade é alta, mesmo sabendo tudo isso, dói ver um jovem de vinte e poucos anos ter as possibilidades de vida cortadas pelo nosso punho. Não há desculpa quando um jovem comete suicidio, assim como não há desculpa quando um jovens perdem a vida em favelas, cidades ou presídios – somos todos culpados.

Enfim, novamente as histórias e tragédias se repetem e os limites da medicina e da psiquiatria se desnudam perante nosso olhar quase-inocente. Aqui eu fora um residente de segundo ano, aqui eu sou um residente de quarto ano se preparando para desembarcar no mercado de trabalho. Lembro do Canto Negro de Drummond:

    À beira do negro poço
    Debruço-me e nada alcanço
    Decerto perdi os olhos
    Que tinha quando criança

(o segundo ano, intenso e rico de experiência se concluiria no Sheppard Pratt, por outros três meses de unidade de internação – dos quais falarei no próximo mês.)


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