Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2001 - Vol.6 - Nº 1

No paíz dos Yankees

Memórias de um residente de psiquiatria – Ano 1

Dr. Erick Messias

Esse mês começo uma série de colunas acerca dos quatro anos de residência pelos quais passei na Universida de Maryland em Baltimore. Esse série é resultado de uma mistura de perguntas de vários colegas acerca da estrutura e da experiência de residência nos Estados Unidos com uma certa nostalgia e acerto de contas pessoal, já que me aproximo do final do último ano de treinamento. Espero que esses relatos possam também enriquecer de alguma forma os debates acerca de residência em psiquiatria no Brasil, assunto levantado com competência pelo Calil na nossa lista de psiquiatria.

A estrutura

Durante o primeiro ano de residência nosso trabalho consiste de seis meses de medicina interna – 2 na neurologia, 1 na emergência e 3 na clínica médica – e 6 meses de psiquiatria – 4 meses numa unidade psiquiátrica de internação e 2 meses num programa de drogadição. Durante esse ano o residente fica de plantão uma em cada quatro noites, de modo que ao final do primeiro mês nosso ritmo circadiano está virado de cabeça pra baixo.

O primeiro serviço: Unidade psiquiátrica do Carter Center

Recém-chegado à Baltimore, começei a residência no Walter P Carter Center, um hospital estatual, contruído na década de 60 para ser um grande centro comunitário de saúde mental para da cidade. Na época em que trabalhei por lá, o hospital contava com 3 unidades públicas e uma privada que prestava serviço ao estado, de modo que ganhavamos um extra por cobrir essa unidade durante os plantões.

Fui mandado para a unidade 6 Leste, onde trabalhava com uma psiquiatra chinesa, formada médica no Texas e com residência em Washington. Já daí começava o contato com essa cultura mundial, polimorfa, que habita os Estados Unidos hoje. Chamava-se Cecilia Tang – um dos hábitos dos orientais ao chegar nos EUA é ‘americanizar’ o nome, sempre pensei que seu nome original fosse Cing Ling, mas nunca perguntei e ela nunca me disse. Com a Dra. Tang, além de psiquiatria e psicofarmacologia, aprendi muito acerca dos esportes americanos: descobri a fama dos Texas Rangers, a perfeição do Tiger Woods e a leveza da Christina Yamagushi.

Na unidade tinhamos entre 10 a 15 pacientes e eu ficava responsável pela prescrição e avaliação de um máximo de 6 pacientes de cada vez. Os outros dois residentes nas outras unidades eram o Hassan Shazeb, um paquistanês que trabalha como correspondente político para o maior jornal do Paquistão, e Ben Borja, um médico filipino cuja grande vocação era a política – acabou sendo escolhido chief resident agora no quarto ano…mas assim já estou colocando o carro na frente dos bois…estavamos pois no primeiro ano.

Um dos problemas que tive ao chegar nos EUA foi o fato de não possuir o tal Social Security Number, registro sem o qual o departamento não liberava meu salário. Fiquei assim quase dois meses vivendo com os restos do dinheiro que havia ganho em Pedra Branca, no interior do Ceará, trabalhando como médico do Programa de Saúde da Família. Meu colega Hassan, mais abastardo residente, já que jornalista, me salvou várias vezes desses apertos de dinheiro nos primeiros meses.

Os pacientes desse serviço constituem uma população a parte. Como hospital psiquiátrico de referência para a cidade de Baltimore, todo paciente que necessita admissão por conta de problemas psiquiátricos é transferido para o Carter Center, assim como os casos que o serviço de psiquiatria forense do tribunal não consegue determinar capacidade civil. A grande maioria dos casos é ideação suicida, boa parte dos quais oriundos de problemas com drogas. Baltimore é uma cidade onde a heroína domina as áreas mais pobres – que são predominantimente negras. Assim, a maioria dos meus pacientes eram negros, usuários de heroína, e cerca de um em cinco, portador do HIV. Durante esse primeiro ano foi publicado por aqui um livro acerca de Baltimore entitulado The Corner. Falava das esquinas da cidade em áreas infestadas por traficantes, prostitutas e usuários. Um dos meus pacientes no serviço de manutenção de usuários de heroina com metadona, tinha como orgulho o fato de ter sido entrevistado pelos autores do livro. Tinha cerca de 50 anos, vivia na rua, usava heroína endovenosa diariamente até que conseguio admissão no serviço de metadona. Mas então ja tinha desenvolvido AIDS. Quando fiz sua admissão havia perdido alguns dedos num acidente nas ruas, costumava me dizer:

"I am the end product of the corner, doc, this is what they told me…"

"sou o produto final dessas esquinas, doutor, foi o que eles[os autores do livro] me disseram"

Outra paciente dessa clínica também ficou gravada na minha mente. Ela se destacava na multidão da clínica, pois era jovem, bastante alta e loira. Trabalhava como ‘dançarina exótica’ – que meu supervisor logo me ensinou ser um efemismo para stripper - num dos bares do block – a área de prostituição da cidade. Foi minha paciente por 4 meses, até terminar meu período do serviço e somente no último mês ela conseguio me dizer porque havia decidido parar com a heroína: seu marido tinha tomado a custodia dos filhos baseado no fato de mãe ser usuária de drogas.

Esses eram pacientes ambulatoriais que atendia na clinica de metadona. Na unidade de internação o ritmo era puxado, cada paciente com uma estadia média de 5 dias. Essa tem sido a tendência nos EUA: internações curtas, voltadas para resolver crises, re-iniciar medicação e providenciar seguimento em clínicas na comunidade.

Assim fui aprendendo psiquiatria, adaptando o ouvido ao ritmo do inglês de Baltimore, estudando os casos, conhecendo dramas humanos crônicos e agudizados, indo às aulas, toda quinta de manhã, no sexto andar no hospital dos veteranos, um quarteirão do Carter center…a estrutura das aulas e o programa de ensino merecem uma coluna separada que escrevo próximo mês.

Por uma ironia do destino termino essa crônica de plantão no Carter Center. Mesmo no quarto ano de residência os plantões extras por aqui são uma possibilidade de complementar o salário de residente. Olho pela janela e vejo Baltimore reluzindo, o frio de 5 graus negativos rodeia a cidade, enquanto um vento furioso canta nas greta da janela. A imagem de Fortaleza vista do último andar do Hospital Geral no tempo em que’u era interno vem à mente. Fecho os olhos, respiro, ao abrir, Baltimore me olha.

Fico pensando se um dia terei saudade deste lugar.


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