Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2001 - Vol.6 - Nš 10

Artigo do mês

Cafeína: generalidades, farmacologia, mecanismos neurobiológicos de ação e potencial de abuso

 

Guilherme Rubino de Azevedo Focchi
Mestre em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)

Resumo

O autor tece considerações gerais sobre a cafeína, incluindo dados históricos, e analisa seu efeito neurobiológico, que poderia levar ao abuso dessa substância.

Unitermos: Cafeína. Neurobiologia. Abuso.

Abstract

The author makes general considerations about caffeine, including historical data, and analyses its neurobiological effect, that should contribute to abuse.

Key-words: Caffeine. Neurobiology. Abuse.

Generalidades

A cafeína é a substância psicoativa mais usada no mundo - cerca de 80% da população geral faz uso dessa substância diariamente, seja pelo consumo de café, chá, chocolates, refrigerantes à base de cafeína ou medicamentos. Exatamente por serem múltiplas as fontes de cafeína, torna-se difícil quantificar seu consumo (STRAIN & GRIFFITHS, 2000). Nas últimas décadas, o uso de cafeína tem crescido, sobretudo entre os adolescentes, atribuído ao aumento do consumo de refrigerantes (JAMES, 1997; STRAIN & GRIFFITHS, 2000). Seu consumo é maior que o de álcool e nicotina juntos, e é mais prevalente entre pacientes psiquiátricos e presidiários (STRAIN & GRIFFITHS, 2000).

A cafeína é consumida há milênios, havendo relatos de consumo dessa substância pelos chineses, já no século IVa.C. Nichos de cultivo e consumo de cafeína já existiam na Arábia e na Etiópia há séculos. Os espanhóis e holandeses popularizaram a cafeína na Europa, durante o período de conquistas ultramarinas européias (JAMES, 1997). Atualmente, a cafeína é mundialmente consumida, fazendo parte da cultura de muitos países e sendo, inclusive, vital para algumas economias; a Grã - Bretanha, a Escandinávia e os EUA são os maiores consumidores de cafeína (STRAIN & GRIFFITHS, 2000; JAMES, 1997).

O interesse pelo estudo dessa substância teve início no século XIX, sendo que naquela época, a cafeína era vista como tônico mantenedor da sobriedade; nas últimas décadas, uma vasta gama de estudos tem sido realizada, no sentido de averiguar seus efeitos nocivos e potencial de abuso (JAMES, 1997).

A cafeína é útil no tratamento da apnéia neonatal, de quadros de dor e como adjuvante da eletroconvulsoterapia; pode ser usada como medidor da função hepática e no diagnóstico da hipertermia maligna; pode ser útil no aumento da resistência física. Entretanto, sabe-se que os efeitos benéficos da cafeína somente ocorrem no uso agudo (JAMES, 1997). Os efeitos nocivos da cafeína ocorrem no uso crônico dessa substância, havendo evidências do aumento de risco para neoplasias gastrointestinais e cardiopatia, além dos riscos aumentados na gestação - aborto, redução do peso fetal, potencialização de agentes teratogênicos (JAMES, 1997). Cabe salientar que esses estudos são controversos (STRAIN & GRIFFITHS, 2000).

Sob o ponto de vista psiquiátrico, a cafeína pode exacerbar estados ansiosos e contribuir para distúrbios de sono, havendo relatos de intoxicação e tentativas de suicídio com seu uso (APA, 1994; JAMES, 1997). A intoxicação por cafeína pode cursar com vômitos, cólicas abdominais, convulsões a arritmias, havendo necessidade de cuidados intensivos (JAMES, 1997).

Há relatos de abuso dessa substância, o que é preocupante devido ao seu uso disseminado. Nesses casos, o uso de técnicas comportamentais pode ser útil (STRAIN & GRIFFITHS, 2000). O abuso da cafeína dar-se-ia mediante reforço negativo, pois o indivíduo consumiria cafeína para minimizar efeitos de sua abstinência, como ansiedade e depressão (JAMES, 1997); porém, a inclusão de categorias Abstinência de Cafeína e Dependência de Cafeína no DSM - IV permanece controversa, pois os sintomas da abstinência seriam comuns a outras drogas (ex: ansiedade e depressâo, que também ocorrem na abstinência de cocaína) e porque é difícil definir um síndrome de dependência para a cafeína - por exemplo, é difícil imaginar um dependente de cafeína que tenha um prejuízo social semelhante ao de um dependente de álcool (APA, 1994; STRAIN & GRIFFITHS, 2000).

Farmacologia

A cafeína é uma metilxantina, rapidamente absorvida por via oral. Atinge o pico plasmático cerca de uma hora após sua ingesta, e tem meia vida plasmática de 3 a 7 horas. É metabolizada no fígado, por desmetilação no sistema P450, e tem como metabólitos a paraxantina, a teofilina e a teobromina. A cafeína é excretada na urina. A nicotina aumenta a eliminação da cafeína, e antibióticos, notadamente as quinolonas, aumentam sua concentração sérica. A dose letal de cafeína para o ser humano é de cerca de dez gramas, lembrando-se que uma xícara de café contém cerca de 125 mg de cafeína (JAMES, 1997).

Mecanismos neurobiológicos de ação e potencial de abuso

A cafeína atravessa a barreira hemato - encefálica, tendo uma série de efeitos neurobiológicos (STRAIN & GRIFFITHS, 2000); em doses maiores que o consumido normalmente, a cafeína provoca inibição das fosfodiesterases e aumento do cálcio intracelular (FREDHOLM, 1995). Em condições normais, a cafeína inibe competitivamente os receptores de adenosina, e esse é seu principal mecanismo de ação (JAMES, 1997).

A adenosina é substrato do ATP, e foram descritos quatro receptores para essa substância: A1, A2a, A2b e A3. No caso dos receptores A1 e A2a, a ligação da adenosina a esses receptores provoca, respectivamente, inibição da produção de neurotransmissores e inibição da neurotransmissão dopaminérgica (FREDHOLM, 1995).

A cafeína antagoniza especificamente os receptores A1 e A2a, aumentando portanto a síntese de neurotransmissores e a neurotransmissão dopaminérgica (FREDHOLM, 1995). O estímulo da neurotransmissão dopaminérgica ocorreria pelo aumento da ligação de dopamina a receptores dopaminérgicos D2, mecanismo esse que, pelo menos para a cocaína, mostrou-se como responsável pelo reforço do consumo da droga (FERRÉ, 1992; SELF, 1996). Isso poderia explicar, pelo menos em parte, o potencial de abuso da cafeína.

Dessa forma, são necessários mais estudos, com ênfase à neurobiologia, no sentido de elucidar o potencial de abuso da cafeína, seus riscos e benefícios.

 REFERÊNCIAS

  1. APA - American Psychiatric Association. Substance related disorders. In: Diagnostic and statistical manual of mental disorders. Washington, American Psychiatric Press, 4th , 1994. p. 173 - 272.
  2. FERRÉ S.K., et al. Adenosine - dopamine interactions in the brain. Neuroscience, 51: 501 - 12, 1992.
  3. FREDHOLM, B.B. Adenosine, adenosine receptors and actions of caffeine. Pharmacology & Toxicology, 76: 93 - 101, 1995.
  4. JAMES, J.E. Understanding caffeine - a biobehavioral analysis. London, Sage, 1997. 226 pgs.
  5. SELF D.W., et al. Opposite modulation of cocaine-seeking behavior by D1 and D2 - like dopamine receptor agonists. Science, 271: 1586 -9, 1996.
  6. STRAIN, E.C. & GRIFFITHS, R.R. Caffeine related disorders. In: SADOCK, B.J.; SADOCK, V.A. kaplan & Sadock´s Comprehensive Textbook of Psychiatry. Baltimore, Lippincott, 7th, 2000. p. 982-90.

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