Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Agosto de 2001 - Vol.6 - Nº 8

Artigo do mês

2001 Ano da Saúde Mental

Dr. Luís Carlos Calil
Psiquiatra e Psicoterapêuta
Professor de Psiquiatria da FMTM
Mestre em Saúde Mental pela FMRP-USP

A década de 90, foi considerada a "Década do Cérebro", havendo incentivo financeiro, notadamente nos EUA, para pesquisas em neurociências e psicobiologia. Obteve-se grandes avanços nos diagnósticos e na terapêutica das doenças mentais.

Este ano, pela primeira vez em mais de 50 anos, o tema Saúde Mental foi escolhido pela Organização Mundial da Saúde como foco de atenção, com o lema Cuidar, Sim. Excluir, Não.

Até pouco tempo atrás, os estados mentais conhecidos como ‘loucura’ eram motivo de isolamento do paciente, afastando-o do convívio social. Atualmente, são considerados como doenças perfeitamente tratáveis por meio de novas abordagens terapêuticas que respeitam os direitos de inclusão social e a dignidade do paciente.

A saúde mental é importante em todos os aspectos de saúde do ser humano.
As doenças mentais são diagnosticáveis e se não tratadas podem gerar sofrimento para o indivíduo e perdas econômicas para a sociedade.

Problemas de saúde mental não podem ser resolvidos sem políticas nacionais de saúde, com investimentos na promoção de saúde mental e de tratamento das doenças mentais (pesquisas e formação de equipes técnicas qualificadas).

Há mais uma novidade na legislação da Psiquiatria brasileira. Este ano foi assinada a lei da reforma psiquiátrica, uma atualização melhorada do projeto do deputado Paulo Delgado que tramitava há mais de dez anos no Congresso. O projeto original que propunha o fim dos Hospitais Psiquiátricos era uma cópia retardada do que foi tentado na Itália nos anos 60 pelo psiquiatra Franco Basaglia, muito mais como um manifesto político que psiquiátrico. Lá na cidadezinha de Trieste onde foi fechado um hospital, deixando pacientes pelas ruas sem assistência, mendigando alguns, suicidando outros. Voltaram os hospitais na Itália e organizou-se uma rede de cuidados médicos com equipes multiprofissionais para atendimento extra-hospitalar após alta das situações de crise.

O maior mérito do trabalho político de Basaglia e de alguns ingleses fomentadores da anti-psiquiatria, além de vender muitos livros sensacionalistas e cientificamente vazios, foi chamar a atenção para a humanização no tratamento de doentes mentais. Esta preocupação humanista também não é novidade, pois já era tratada por Philippe Pinel há dois séculos na França. Contudo maquiando de nova, idéias antigas, alertou-se para abusos da prática e da má prática psiquiátrica. Esses movimentos festivos de antipsiquiatria ou as Comunidades Terapêuticas que se mostraram inviáveis economicamente em virtude dos altos custos com resultados pouco efetivos comparados a tratamentos clássicos bem conduzidos. O pressuposto destes grupos onde todos eram iguais (equipe técnica e pacientes), resultou numa perda de identidade profissional. Abriu-se uma ampla porta para a ação de profissionais oportunistas ou despreparados que não conhecem os limites de sua competência ou campo de ação. É vetado ao médico prescrever Florais de Bach, que funciona como placebo, já que médicos tem à sua disposição drogas comprovadamente eficazes farmacológicamente. Da mesma forma, é vetado a outros profissionais de saúde, prescreverem um antidepressivo quimicamente ativo.

Há que se impor um modelo claramente médico a um hospital psiquiátrico, usando os recursos atuais e mais eficazes para o tratamento, entre eles o ECT (eletroconvulsoterapia ou eletrochoque como preferem alguns). Espanto! Sim estou afirmando que ECT é um recurso eficaz e muitas vezes salvador em casos de depressão muito grave com alto risco de suicídio e em casos graves de depressão pós-parto. ECT foi criado em 1937 na Itália, época em que não existiam medicamentos psiquiátricos surgidos à partir de 1952. Entretanto até hoje o ECT tem se mostrado insuperável em sua eficácia nas depressões graves. Sendo realizado com correta indicação médica e cuidados anestésicos, é seguro e eficiente. Sua má fama vem do uso indiscriminado, para quaisquer pacientes, em condições desumanas de aplicação em grandes enfermarias onde um paciente via o outro recebendo o ECT num cenário Dantesco. Houve também seu uso para fins de tortura, aplicando-se choques em várias partes do corpo (não creio que esta seja uma indicação médica).

Deve-se considerar que a boa prática psiquiátrica só será obtida com investimentos e firme compromisso governamental, para assegurar uma rede ambulatorial com equipe treinada, Hospital-Dia, Hospitais Psiquiátricos para tratamentos breves em situações criticas, casas de custódia ou asilares para pacientes crônicos sem familiares (asilo, significa dar proteção). Disponibilidade de recursos diagnósticos laboratoriais e por imagens radiológicas, além de medicamentos com qualidade assegurada por testes de bioequivalência e biodisponibilidade (norma não cumprida pelos genéricos atualmente).

Tudo isto demanda mais investimentos que os asilos como depósitos humanos. Requer também mais que promessas políticas eleitoreiras que sabe-se não tem nenhuma intenção de serem cumpridas, apenas visam impressionar eleitores.

Percebo que muitos loucos tem uma visão lúcida desta realidade, pois o fato de serem loucos não implica que também tenham que ser burros. Bem, este é meu diagnóstico do universo da Saúde Mental e seus possíveis tratamentos em nosso meio.

Psiquiatras são profissionais que devem ter competência para elaborar um diagnóstico médico e prescrever um tratamento (atos exclusivamente médicos, daqueles que concluíram uma faculdade de medicina).


TOP