Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2001 - Vol.6 - Nº 7

Artigo do mês

Epilepsia e Religiosidade

Epilepsy and Religiosity

Guilherme Rubino de Azevedo Focchi
Médico psiquiatra pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Pós-graduando do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.

RESUMO

O autor relata aspectos históricos da relação entre epilepsia e religiosidade, mostrando casos ilustrativos. Ressalta a hiperconexão temporal na epilepsia como fator subjacente.

Unitermos: Epilepsia. Religiosidade. Temporal. Hiperconexão.

 

ABSTRACT

The author analyses historical aspects on the relationship between epilepsy and religiosity; clinical reports are made. Temporal hyperconnection is the most probable mechanism.

Key-words: Epilepsy. Religiosity. Temporal. Hyperconnection.

"Nossa forma de pensar e de ver as coisas (...) é função de uma organicidade neurossensorial (...), a serviço da conservação da espécie."

Konrad Lorenz

Epilepsia constitui sintoma de disfunção cerebral crônica, caracterizada por crises recorrentes.Vários processos patológicos podem causar epilepsia, como por exemplo trauma, infecções, tumores e vasculopatias do Sistema Nervoso Central. Isso culminaria em descargas neuronais síncronas, paroxísticas, excessivas e intermitentes, com expressão fenomenológica nas crises epilépticas.

As crises epilépticas podem ser classificadas basicamente em parciais e generalizadas, se as descargas neuronais atingem parte do córtex cerebral ou todo ele, respectivamente, sendo que crises parciais podem sofrer generalização. Nas crises parciais simples ou "auras", ao contrário do que ocorre nas crises parciais complexas, não há perda de consciência. A sintomatologia das crises dependerá da área acometida no córtex cerebral.

A prevalência da epilepsia na população geral varia de 3 a 6 por 1000 e em aproximadamente 75% dos casos não se encontra evidência de patologia cerebral subjacente.

A epilepsia está associada a uma série de transtornos psiquiátricos, ictais, peri-ictais, a saber: quadros demenciais, depressão, psicose, transtornos de personalidade, disfunção sexual, transtornos ansiosos, delirium, agressividade, suicídio.

Em decorrência disso, pacientes epilépticos podem ser vítimas de grande prejuízo psicossocial e a abordagem desses pacientes deve ser necessariamente multidisciplinar. A investigação da síndrome epiléptica deve levar em conta a caracterização das crises epilépticas e exames subsidiários – EEG, vídeo-EEG, CT de crânio, SPECT cerebral, PET, Ressonância Nuclear Magnética e investigação clínica geral, no sentido de esclarecer diferenciais com outros transtornos, psiquiátricos ou não.

A terapêutica deve enfatizar o controle das crises, via medicação anti-epiléptica, tratamento dos transtornos psiquiátricos associados e estratégias de reabilitação (FENTON, 1993).

Dentro da vasta gama de manifestações psicopatológicas associadas à epilepsia, é interessante o incremento da religiosidade em alguns pacientes epilépticos. Entenda-se como crença religiosa uma afirmação sem explicação lógica, a partir da qual o indivíduo tenta explicar sua vida ou o que lhe ocorre (PERSINGER, 1993). A crença dependerá, evidentemente, de experiências pessoais e do contexto sócio-cultural (STEVENS, 1988).

A hiperreligiosidade nos pacientes epilépticos já foi várias vezes descrita e constitui assunto controverso (BLUMER, 1995; TUCKER et al, 1997). Tanto que, já na Antiguidade, a epilepsia era atribuída à possessão demoníaca ou por espíritos; foi por muito tempo tida como doença sagrada, cercada de superstição e misticismo (DE VILLIERS, 1993). Em 1784, o médico mexicano Pedro de Horta escreveu o primeiro tratado sobre epilepsia na América, com ênfase à religiosidade dos pacientes. Para ele, o comportamento bizarro exibido durante os ataques epilépticos seria devido à possessão demoníaca (SORIA & FINE, 1995).

A Literatura há muito se ocupa do problema. Casos ilustres de indivíduos acometidos pela epilepsia que desenvolveram comportamento religioso notável são, possivelmente, o Apóstolo Paulo, Joana d’Arc, Dostoievsky e Swendenborg, conferindo expressão positiva ao espectro comportamental epiléptico (DEVINSKY & VAZQUEZ, 1993; FOOTE-SMITH & BAYNE, 1991; JOHNSON, 1994; VERCELLETO, 1994).

O escritor russo Dostoievsky, provavelmente vítima de epilepsia generalizada, já contribuía para o estudo da epilepsia, ao descrever as crises do Príncipe Mishkin em O Idiota, que eram precedidas por sentimento de plenitude, harmonia universal e a crença na existência de Deus e da beleza absoluta (GASTAUT, 1978; OZER, 1991).

O filósofo sueco Emanuel Swendenborg (1688-1772), conhecido como "Aristóteles sueco", sofreu, aos 56 anos de idade, mudança radical em sua biografia. Catedrático de Matemática na Universidade de Upsalla, abandonou seus interesses intelectuais, passando a dizer que fazia parte do mundo espiritual, que podia conversar com anjos e chegou mesmo a se autoproclamar o Messias. Não se sabe, nesse caso, se a transformação deveu-se à epilepsia ou à esquizofrenia (JOHNSON, 1994; WHITE, 1887).

A freqüência com que a hiperreligiosidade ocorre em pacientes epilépticos não foi determinada. Estudo com 30 pacientes epilépticos mostrou religiosidade significativa: 83% dos pacientes disseram ter uma religião, 76% se identificaram como católicos, 83% nunca mudaram de religião, 91% seguiam uma religião desde a infância e 52% freqüentavam templos religiosos com certa freqüência (FACURE et al, 1992). Em outro estudo, com 59 pacientes epilépticos, mostrou-se que 60% desses pacientes apresentava interesse demasiado por assuntos religiosos e que 51% havia se convertido religiosamente no passado (ROBERTS & GUBERMAN, 1989).

Clinicamente, a hiperreligiosidade no paciente epiléptico pode apresentar-se como mero interesse aumentado por assuntos religiosos; pode haver também misticismo, trocas de religiões, fanatismo religioso, idéias de paranormalidade e interesses cósmicos (BLUMER, 1995; FACURE et al, 1992; PERSINGER & MAKAREC, 1993). Estes passam a prevalecer no cotidiano do paciente, que se refere ao assunto de maneira constante ou enfática, o que pode ser percebido na entrevista. O "Inventário Neurocomportamental Bear-Fedio", através da aplicação de questões tipo verdadeiro-falso, aventa a presença, dentre outros atributos, de convicções religiosas e interesses cósmicos (BEAR & FEDIO, 1977).

Deve-se frisar, entretanto, que a aplicação de escalas é criticável, pois tudo dependerá do que se entende por religiosidade e hiperreligiosidade, conceitos subjetivos e arbitrários.

A seguir, casos clínicos ilustrativos da relação entre epilepsia e religiosidade:

CASO A: M.T.S., 46 anos, atendida no IPQ-HC-FMUSP. Refere ter crises epilépticas desde os 12 anos, que se iniciavam com aflição (sic), seguida de perda de consciência. Quando acordava, mostrava-se confusa. Tinha, de início, cerca de 20 crises diárias. Ressonância Nuclear Magnética mostrou esclerose têmporo-mesial à direita, confirmando hipótese diagnóstica de epilepsia temporal. A paciente refere que se tornou mais religiosa desde o início das crises e até tornou-se crente. Atribuía constantes significados religiosos aos fatos, repetindo várias vezes a palavra "Deus".

CASO B: G., 35 anos, tem crises parciais secundariamente generalizadas desde os 10 anos de idade. Na primeira entrevista, mostrava-se muito preocupada com problemas espirituais. Semanalmente, dizia apresentar estados de exaltação religiosa, que poderiam durar um dia inteiro. Começava seu dia orando e lendo a Bíblia, ia à Igreja 3 vezes por semana, escrevia profusamente sobre sentimentos religiosos e regozijava-se de trabalhar para um padre. Apresentava, também, sintomas depressivos. Teve boa melhora com medicação (BLUMER, 1993).

É necessário salientar que a hiperreligiosidade ocorre na epilepsia do lobo temporal, sobretudo no acometimento do lado esquerdo, talvez devido a uma assimetria entre os hemisférios cerebrais (BEAR & FEDIO, 1977; CSERNANSKY et al, 1990; PERSINGER, 1993; PERSINGER & MAKAREC, 1993; SKIRDA & PERSINGER, 1993). Sugere-se também a ocorrência de hiperreligiosidade como parte da sintomatologia de crises parciais simples e mesmo crises generalizadas (cirignotta et al, 1980; SENSKI & FENWICK, 1982). A religiosidade seria conseqüência da psicose epiléptica ou, talvez, de um padrão de emocionalidade aumentado nesses pacientes (BEAR & FEDIO, 1977; FENWICK, 1995). Padrões familiares também seriam influentes na psicose e, indiretamente, na hiperreligiosidade (WOLF et al, 1986). Nisso, crenças religiosas estariam relacionadas a alterações no lobo temporal cortical e a paranormalidade teria gênese em alterações subcorticais (PERSINGER, 1993).

Para a compreensão do que ocorre fisiopatologicamente no Sistema Nervoso Central, levando ao comportamento religioso exacerbado, devemos enfatizar primeiramente o conceito de conexão sensório-límbica: processo neuronal específico, caminhando desde o córtex temporal ventral até a amígdala (BEAR, 1979).

Por esta via, significados afetivos seriam emprestados a percepções e pensamentos. Nesse sentido, a conexão sensório-límbica faria parte de um "continuum" de sensibilidade do lobo temporal na população geral, o que seria útil no estabelecimento de diagnósticos diferenciais com epilepsia, como por exemplo, fenômenos dissociativos (BEAR, 1979; PERSINGER & MAKAREC, 1987; PERSINGER & MAKAREC, 1993; ROBERTS, 1991; SPIEGEL, 1991).

No caso de uma desconexão sensório-límbica, haveria dissociação entre estímulos e valores afetivos, conforme demonstrado em animais (BEAR, 1979).

O que ocorre nos pacientes epilépticos com hiperreligiosidade é o inverso, ou seja, uma provável hiperconexão sensório-límbica: o foco epiléptico potencializaria novas conexões neuronais próximas, criando um gradiente, em que haveria aumento da organização de sinapses excitatórias em detrimento das inibitórias, resultando em descargas neuronais anômalas (BEAR, 1979; FENTON, 1993; HALGREN et al, 1980; PERSINGER, 1993; TREVISOL-BITTENCOURT & TROIANO, 2000). O resultado seria o incremento de significações afetivas para o paciente, a religiosidade sendo apenas um modo de expressão.

Entretanto, alguns autores não conseguiram estabelecer a hiperreligiosidade como desordem interictal característica da epilepsia temporal; não haveria relação causal, porque tudo seria secundário à patologia cerebral subjacente (TUCKER et al, 1987).

Concluindo, epilepsia a religiosidade estão relacionadas, seja por processo de hiperconexão neuronal, seja porque ambas seriam secundárias à patologia cerebral de base. Origina-se daí questão neuroepistemológica, na medida em que um processo orgânico, objetivo (epilepsia, lesão cerebral), dá origem à manifestação subjetiva (religiosidade) (RUBIA-VILA, 1994). De qualquer modo, são necessários mais estudos no sentido de se elucidar a relação entre epilepsia e religiosidade.

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