Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Março de 2001 - Vol.6 - Nº 3

O artigo do mês

A História de como uma Vassoura Assustou um Hospital Inteiro

(Relato de um caso de interconsulta psiquiátrica ocorrido em hospital geral da região metropolitana de São Paulo)

João Paulo Consentino Solano

RESUMO: o autor tenta descrever como o caso de apenas um paciente ocupou três horas do trabalho de um psiquiatra socorrista de plantão num hospital secundário na região da Grande São Paulo; descrever como o paciente mobilizou o envolvimento de vários especialistas dentro e fora do pronto-socorro daquele hospital, inclusive daqueles que, objetiva e tecnicamente, não precisariam haver-se envolvido; como a atuação do psiquiatra da equipe teve de estender-se bem além do caso para que se fosse possível chegar a uma compreensão mais verdadeira dos acontecimentos; e como a participação de cada profissional, médico ou não, e as inter-relações entre os mesmos, transcenderam para os níveis pessoais de cada um, e interferiram decisivamente na evolução e desfecho do atendimento. Toda a história é verídica, tendo sido suprimido o nome do hospital, e alterados os nomes dos envolvidos, apresentados apenas por iniciais de nomes próprios.

* * * * *

Um certo dia, o psiquiatra de plantão em um pronto-socorro de hospital geral foi abordado por dois cirurgiões de sua equipe:

  • "Ei, SJ, dá pra você avaliar este paciente pra nós?" – disse o cirurgião AL, oferecendo algumas radiografias de abdome para o psiquiatra olhar. "Veja quanto ar tem aqui, em cima do fígado... é cirúrgico, tem que abrir!".
  • "É!", disse o outro cirurgião. "Mas o paciente está tigrando... não quer operar".
  • "Veja se você o convence", disse AL. "O cara só pode ser pancada da cabeça... faz uma coisa desta, e agora nos afronta, dizendo que não quer operar!? Veja se você o convence, SJ!
  • "É, e se não convencer, manda um dormonid no cara, que nós vamos operá-lo", disse o outro cirurgião.

O psiquiatra resolveu atender de imediato a este chamado, e, de posse dos RX e de algumas prescrições dos dias anteriores, do paciente M, de 25 anos, foi até a "sala de observação" do pronto-socorro. À porta, já parecia aguardá-lo um jovem de olhar algo indignado... Não, pensou SJ, é mais que isto... é um olhar enojado...; neste preciso momento, o psiquiatra SJ entendeu tratar-se de M, e , de repente, percebeu também que os dois cirurgiões, também indignados ou enojados, haviam-no escoltado até ali (algo improvável quando se trata de um pedido regular de interconsulta). SJ, aí, pensou: comecei mal... ; M vai pensar que eu vim especialmente para ajudar os dois cirurgiões a operá-lo.

  • Oi, você é o M? É... bem, o meu nome é SJ; eu sou médico deste hospital...; vamos até o meu consultório? Eu só gostaria de conversar um pouco com você.

Com uma aparente e enorme desconfiança, M foi até a sala da Psiquiatria, mas, ao ler a especialidade na porta, cobriu parcialmente seu rosto com uma das mãos, e disse:

  • Não, aí eu não vou entrar!.
  • Mas... por quê, M? Vamos até ali dentro apenas... sentamos e conversamos.
  • Não adianta chamar nenhum psiquiatra de novo... eu já entrei aí... eu não quero operar!!, disse M, exaltadamente, para todos os que no corredor estavam.
  • Eu não quero operar você... só quero que a gente converse. Entre, M!
  • Não. Se eu entrar aí, você vai entrar também e, aí, já foi! Você vai é querer perguntar o como que eu fiz, os porquês, e todos os detalhes... se eu entrar aí, você vai querer entrar na minha ...

O psiquiatra entendeu "cabeça"; ou privacidade. Curiosamente, até este momento, SJ havia-se esquecido da razão pela qual M deveria ser operado, a despeito de ter sido disto informado pelos cirurgiões, logo de início, quando estes lhe mostraram as chapas. Olhou para M e pensou que não seria possível "entrar em sua privacidade" ali na porta do consultório, outros pacientes presentes. Olhou para aquele rapaz franzino, tão branquelo, de olhos azuis e ar pueril... e irritou-se. O tempo se passava; até ali, nada de o psiquiatra mostrar aos colegas consultantes as suas habilidades, e os recursos de sua especialidade; a enfermeira da sala de retaguarda, que viera junto, já estava dentro do consultório, apontando a cadeira em que M se deveria sentar. Num piscar de olhos, o psiquiatra agarrou M pelo braço e o empurrou para dentro do consultório, alçando a voz:

- "Isto aqui não é brincadeira não, viu! Isto aqui é um hospital... aqui tem doentes! Você pára com criancice, e senta aí. Falei que vamos conversar e vamos conversar!!!".

Fulminada pelo olhar de SJ, a enfermeira saiu do consultório, entendendo que seria uma conversa apenas a dois.

A portas fechadas, psiquiatra e paciente conversaram. Subitamente, e logo no início, o psiquiatra lembrou-se da história de M. Estava no hospital havia três dias. Tinha introduzido em seu ânus um cabo de vassoura; tinha escorregado e dera entrada no hospital com fortes dores difusas pelo abdome. Segundo os cirurgiões AL e VM, a lesão causada em seu reto tinha sido responsável pelo pneumoperitônio, e o paciente deveria ser operado. O psiquiatra lembrou-se que, desde que chegara àquele plantão, já vinha ouvindo colegas falar no "impalamento internado". Lembrou-se de já ter ouvido comentários jocosos. Ouvira a Dra. CE, cirurgiã, aludir ao fato de ter feito o seu exame com um endoscópio, já que o colonoscópio não estava disponível: "um aparelho tão mais fino que o colonoscópio, e o paciente ficou gemendo de dor..., dizendo ‘ai, ai, pára, Dra., a senhora já enfiou muito’; realmente, eu introduzi uns 30 centímetros além de onde poderia ter chegado o agente lesivo, e só vi umas escoriações no reto, recobertas por fibrina", declarara a Dra. CE. Durante toda a entrevista com o psiquiatra, M manteve uma de suas mãos interposta entre o olhar daquele e o seu próprio rosto. Quando o psiquiatra perguntou-lhe, por fim, o que exatamente lhe havia acontecido, M exclamou: "Eu não disse?! Vai começar o interrogatório tudo de novo!!"; mas explicou que havia escorregado e o cabo o penetrara com violência. Várias vezes se disse arrependido. Que não iria mesmo operar. Que suas dores de barriga já haviam cessado. Que os cirurgiões dos dias anteriores, olhando para os mesmos RX, disseram-lhe que a cirurgia não seria necessária. E que a endoscopista, Dra. CE lhe explicara o resultado do exame, quanto ao fato de não ter encontrado nada de grave, apesar de ter avançado com o aparelho 30 cm acima do local provável de lesão. Durante a entrevista, o psiquiatra levantou o histórico (subjetivo) de rendimento escolar do paciente, e fez-lhe perguntas para tentar avaliar sua inteligência, e concluiu que o paciente não só não era um "pancada da cabeça", como também não era intelectualmente limitado. E concluiu que o paciente, podendo responder por seus atos, não deveria ser operado à revelia.

Lá fora, os cirurgiões, enfermeiras e assistentes sociais desdobravam-se para localizar a mãe do paciente; para que esta autorizasse a cirurgia, diziam...

O psiquiatra finalizou a entrevista dedicando um tempo para discutir com o paciente o por quê de ele estar cobrindo o rosto. E desistiu de perguntar coisas como "você já tinha feito isto outras vezes?", ou "por que você fez isto?". O resultado foi que o paciente acabou queixando-se de que os médicos e funcionários da enfermagem estavam-lhe todos criticando, a boca pequena; e de que, na sala de observação onde estava, um contava ao outro, com detalhes, o que tinha acontecido, sem se preocuparem com a existência de outros pacientes, de ambos os sexos, em derredor; "neste hospital não há sigilo", disse M; "estão todos lá, passando de um lado para o outro, dia e noite, fazendo piadinhas de mim". O psiquiatra reconheceu que M estava muito desconfiado, e ambos conversaram também sobre este assunto, assim como do fato de ser por vergonha que M cobrira o rosto durante toda a entrevista. Mas concluiu que M não portava sintomas delirantes paranóides, nem auto-referência patológica. Suas queixas da equipe tinham substrato real, à realidade estavam firmemente ancoradas, e eram lícitas, compreensíveis. O psiquiatra fez ainda algumas tentativas de convencer M a se deixar operar, mas em vão. M exigia ser liberado do hospital.

O psiquiatra levou M até a sala de observação, e disse ao cirurgião AL que achava aconselhável não fosse M sedado e levado à cirurgia, uma vez que M não queria mesmo ser operado. Com muita delicadeza, disse também que seria interessante se a equipe toda revisse se o caso constituía ou não uma Emergência Cirúrgica. A cirurgiã e endoscopista, CE, concordou em não operar M à revelia. O psiquiatra SJ também disse a todos que não devessem considerar a recusa de M a se deixar operar como indicativa de ser o mesmo portador de alguma perturbação mental; e que ali, para o momento, M não merecia nenhum tipo de tratamento psiquiátrico.

Porém, M não havia voltado ao seu leito, e ouvia toda a conversa. À pergunta de SJ, sobre se a cirurgia seria mesmo necessária, apesar de M estar clinicamente estável, o cirurgião AL respondeu que "era, sim, necessária, apesar de, até aquele momento, não configurar uma emergência". M imediatamente defendeu-se afirmando que até suas dores já haviam cessado. AL rebateu ,com ar de saber, que as dores abdominais haviam remitido certamente por causa dos antibióticos e analgésicos que ele mesmo havia tido o cuidado de prescrever a M. O psiquiatra SJ, neste momento, lembrou-se de que, na verdade, M não vinha tomando nenhum analgésico e tinha-se recusado, de acordo com as anotações da enfermagem daquele dia, a receber qualquer medicação, numa visível manifestação (outra de várias) de mau relacionamento paciente-equipe assistente. M argumentou ainda que os cirurgiões dos outros plantões não tinham visto a necessidade de cirurgia. AL, agora visivelmente muito irritado, contra-atacou dizendo que os mesmos não deviam ter olhado os RX, ou não deviam ter visto o pmeumoperitônio. Exaltado, AL disse:

  • Você me assina aqui, declarando que não quis ser operado, mesmo sabendo que corria risco de vida!!
  • Se eu assinar, o Sr. me libera?
  • Não, mas você tem que assinar. Se você não assinar, eu vou chamar a polícia e fazer boletim de ocorrência!
  • O Sr. está-me intimidando?... Pra isso, estou vendo que o Sr. é bom...
  • Se você não assinar, o delegado vai vir aqui com um monte de guardas e... todo mundo vai ficar sabendo...
  • Está vendo – disse M dirigindo-se agora ao psiquiatra – desde o começo ele está tirando uma comigo, está com piadinhas!

E, voltando-se de novo para AL, permitiu que sua cólera explodisse:

  • Já não basta o Sr. ter passado o dia hoje falando alto por aí, pra todo mundo, o que eu fiz?? Isto não lhe bastou ainda ??
  • Escreve e assina – prosseguia AL, agora sorridente – ou se não, a polícia vem aí e você vai acabar saindo na televisão, no programa do R... (o autor aqui se permitiu uma rápida licença para manter a inicial verdadeira deste nome que é próprio, mas não se refere propriamente a algo que possa ser chamado de programa).

O psiquiatra ajudou M a escrever, de fato, um texto, e explicou-lhe que era mesmo necessário assinar; que o texto não o implicaria de forma desfavorável; que não se tratava de nenhuma armadilha que o cirurgião lhe pudera ter preparado, e que o texto só seria utilizado para isentar o hospital no caso de seu quadro clínico se agravar.

M assinou o texto, mas AL chamou o delegado para fazer um boletim de ocorrência.

Quando o delegado chegou, escoltado por seus detetives, o psiquiatra achou por bem antecipar-se para recebê-lo; porém, outra vez com muita delicadeza e diplomacia, pois não era ele o "dono" do leito. Também aproveitou o fato de que AL estivesse ocupado, terminando um procedimento, e apresentou-se ao destacamento como sendo um dos médicos envolvidos com o caso (e realmente o era). Esta estratégia foi adotada na esperança de se evitar um alastramento maior da situação.

Juntamente com a Dra. CE e o paciente M, delegado e psiquiatra concordaram em que não havia necessidade de se lavrar um boletim de ocorrência, já que o paciente já assinara a tal declaração; e que, na presença de um responsável, o paciente poderia deixar o hospital.

Não deixou, porém, o delegado, de agourar o paciente:

  • Você vai morrer na sua casa... e eu vou ter que mandar uma viatura pra lá, pra recolher o seu cadáver!

A situação já parecia controlada e M já começava a respirar aliviado. Mas um dos detetives, dedo em riste, ainda gritou para M :

  • Você não é gente, é um aborto da natureza... sua mãe o abortou, aquela coitada!

Bom, aí foi a vez, de novo, de o psiquiatra explodir. Interrompeu o discurso do detetive, dizendo-lhe:

  • Olha, não é assim que se trata um paciente no hospital...
  • Eu só estou querendo puxar um pouco pela cabeça dele, Dr....
  • O Sr. é o quê aqui?
  • Eu sou o investigador do hospital...
  • Então deixe que, se for necessário, eu puxo pela cabeça do doente, que eu sou o psiquiatra.

Enquanto o delegado e sua equipe iam embora, a Dra. CE, única representante dos cirurgiões naquele momento, confessou aos cochichos, que achava que as lesões que vira no reto do paciente eram tão pequenas que as defesas omentais deveriam ser capazes de bloquear o processo, de forma que acreditava que o paciente continuaria evoluindo bem pela conduta expectante até então adotada.

Concluindo, é patente que houve, pelo que foi relatado, um fracasso na tarefa para a qual o psiquiatra foi chamado (convencer o paciente M a se deixar operar). No entanto, SJ não se sentiu fracassado. Pelo contrário, depois de uma maratona de horas, perseguindo um único objetivo, sentiu-se revigorado. Sentiu que saía do caso vivenciando um agradável e gratificante fortalecimento de sua escolha profissional; e que tinha talvez caminhado mais alguns passos no sentido de ter "lavado a alma-ética" de sua práxis diária.

Depois de alguns meses, a Dra. CE diria ao psiquiatra SJ que o paciente M realmente evoluiu sem complicações, a despeito de não ter sido operado, e a despeito de tantas lesões suportadas por sua identidade no transcorrer daqueles dias.

Mais alguns meses, e esta cirurgiã seria convidada a chefiar o setor de Endoscopia daquele hospital, cargo que ocupa até hoje.

De quando em quando, temos cruzado com a Dra. CE. Na última vez em que nos vimos, passados já quase dois anos do caso ilustrado, perguntou-me ela se eu ainda me lembrava de M e de seu caso. Eu lhe respondi "claro que sim !"; e ela me confessou que, desde o ocorrido, mais ou menos uma vez a cada três meses, M liga para o seu telefone móvel, só pra dizer coisas como : "Oi, Dra., estou ligando pra saber se a Sra. vai bem... e pra dar pra Sra. um paradeiro de minha pessoa... eu continuo bem, graças a Deus...nunca mais tive mais nada... Obrigado por tudo, doutora".

                        * * * * *

DISCUSSÃO :

Pra quê?

Isto mesmo, com o devido respeito a todos, mas... discussão pra quê? A descrição dos acontecimentos, em se crendo verídica, fala já e com bastante eloqüência.

Uma discussão formal aqui (como também sói acontecer em muitos outros trabalhos escritos, ou exposições, ou discursos, ou simples aulas) poderia é "queimar", segundo pensamos, a possibilidade de cada qual conscientemente ver o que pode ver no momento mais oportuno.

Portanto, optaremos aqui por uma técnica distinta, talvez aprendida (não sei se bem) com algum amigo seguidor de Lacan, que é a de se interromper o encadeamento lógico do aprendizado, quando este mesmo está na iminência de se auto-neutralizar ou sumir dragado, quer pelo cartesianismo asfixiante dos significados ocidentais, quer pela frialdade natural dos significantes lingüísticos.

Mas ficaram indicados no texto, através de palavras deixadas em itálico, alguns portais para discussão. E cremos que o aparato pré-consciente de cada um que leu, participou ou já se percebeu envolvido em situações parecidas, operará a seu tempo o inevitável diálogo com a consciência. E disto resultará que cada um poderá comunicar ao seu próximo coisas que talvez antes sobrevivessem escondidas sob forte recalque, como "desconhecidas", como sinistras; e compartilhar com os colegas – verbalmente – aquilo que já temos em comum, e em comum temos silenciosamente enfrentado, há anos, que é : a dificuldade de se praticar uma Medicina para pessoas nos dias de hoje.


TOP