Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Agosto de 2000 - Vol.5 - Nş 8

A "solidão acompanhada"

Júlio Machado Vaz

Andei em digressão, o que se vai tornando raro. Em geral, invoco o passar dos anos como álibi para este apego às esquinas do Porto, mas também admito que me surpreendo mais complacente para com a enorme preguiça que sempre rumorejou cá dentro. Depois de a sacudir, sobretudo quando o público é jovem de cabeça e prefere a conversa às exposições doutorais, ainda sinto correr a adrenalina: sou um privilegiado, faço o que gosto.

Se muitas das perguntas são as mesmas, outras vêm surgindo, claramente em função dos avanços tecnológicos. A Net nunca falta à chamada, mas se uns lhe querem discutir consequências e virtualidades, outros esperam que a fulmine; dá segurança ouvir o "especialista" trovejar com ar bíblico: "Ali reside Satanás, em verdade vos digo, evitai aquele caminho". Sou péssimo a desempenhar tal papel, nem sequer tento, creio firmemente que a vida é cinzenta ou de todas as cores do arco-íris, a preto e branco é que não.

Escura como breu a disposição de alguém que se lamentava: "Ainda há pouco li que faz aumentar os divórcios!". Já de regresso, dei comigo a recordar versos de Roger Waters: "Hanging on in quiet desperation is the english way/The time is gone, the song is over, thought I'd something more to say" (Aguentar num desespero sossegado é o estilo inglês/O tempo foi-se, a canção terminou, pensava que tinha mais alguma coisa para dizer). Bom, não conheço o desespero britânico, mas este que presencio é frenético em horário de trabalho e silencioso portas adentro, em ambos os casos as pessoas falam de solidão.

Pouco solitária. Quase com vergonha, homens e mulheres afirmam estar sós, apesar do companheiro, outros dizem que também por causa dele - as "solidões acompanhadas", amiúde longamente escondidas, depois gritadas em discussões de alcova e cozinha ou dirimidas por cartas dos respectivos advogados, acolheram a Net de braços abertos. Como se - esperem! - roubo de novo a poesia dos Floyd: "We're just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year" (Somos apenas duas almas perdidas nadando num aquário, ano após ano). A rede pesca-nos porque torna mais transparente o vidro baço do aquário das nossas vidas.

Milhões de príncipes e princesas encantados estão ali, ao alcance de um reconfortante anonimato inicial. Até que alguém parece preencher os requisitos, arrisca-se a intimidade absoluta que, contudo, não implica sequer uma festa nos cabelos, a angústia da nudez física, o aqui e agora de um telefonema. Conversa-se. Horas, dias, semanas a fio, por vezes com marido ou mulher dormindo no quarto ao lado. À chegada a casa, procura-se o correio, um simples "mail" faz acreditar que a vida não é tão rotineira assim, as palavras no ecrã chegam livres de todos os pequenos dramas quotidianos que fazem esmaecer os sentimentos.

A Net propicia um caldo de cultura ideal para a paixão, que nunca é por alguém, mas pela sua imagem, construída no ecrã das nossas cabeças. A Net permite uma enorme intimidade psicológica associada à distância física que autoriza os maiores exercícios de fantasia. A Net cria uma realidade fora da realidade, uma espécie de jardim secreto onde já não somos obrigados a vaguear sozinhos.

A Net, a Net, a Net - Culpar a tecnologia é ignorar o verdadeiro problema. Numa sociedade que erigiu a felicidade individual como objectivo, o sonho de "repartir a zero" - agora apetece-me citar Edith Piaf - permanece vivo. Não é a Net que desfaz ligações. Ela só permite a busca, muitas vezes inconsciente, que já começou antes de ligarmos o computador. Porque há pessoas desesperadas, o tempo corre e algumas delas acham que ainda têm uma palavra a dizer sobre o futuro, como cantaram os Floyd. É o seu direito e risco. Não substituamos as costas largas de Deus e da sorte pelas da tecnologia, afinal quem escreve os "e-mail" somos nós!


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