Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Maio de 2000 - Vol.5 - Nº 5

O sapo e o porco espinho

Rubem Alves

Nossos espelhos são os olhos dos outros. Somente os outros podem dizer que somos belos’

‘A feiura da raiva não agüenta a leveza do riso’

Dedico esta crônica aos casais que se amam e sofrem porque brigam muito.

A Fonte estava feliz. Ela estava amando. Tinha uma namorada: uma Menina. Ela viria naquele dia. A Fonte estava esperando. A Fonte não sabia explicar as razões do seu amor pela menina. O amor não tem razões. Mas havia certas coisas que a comoviam...

...O olhar da menina: aquele sorriso que dizia: "Que bom que você existe!" Os olhos falam sem palavras, acariciam sem tocar.

...Sua voz: era sempre mansa. Como se fosse um eco da própria voz das fontes, que falam sempre murmurando.

A Menina se debruçava, se curvava toda, mergulhava seu rosto na água, e bebia-beijava ao mesmo tempo...

A Fonte se via refletida nos olhos da Menina (também eles eram uma fonte) e ficava feliz: ela se via bonita.

Na Fonte morava uma Rãzinha. Rãzinha moleca... Gostava de mergulhar.

Fonte e Rãzinha: eram amigas inseparáveis.

A Fonte dizia que a Rãzinha era a sua alma.

Era a Rãzinha que impedia que a Fonte ficasse velha. A cada nova manhã, quando a Rãzinha mergulhava na Fonte, a Fonte ria e voltava a ser criança.

Naquele dia a Fonte estava especialmente feliz. Muito cedo um bando de crianças passou por ali. Viram a Fonte e a Rãzinha; beberam água e riram de felicidade. Fonte e Rãzinha foram então possuídas pelo espírito moleque das crianças.

A Menina também estava muito feliz. Iria beber da Fonte que ela tanto amava.

A Menina não sabia explicar as razões do seu amor pela Fonte: o amor não tem razões. Mas havia certas coisas que a comoviam...

...A fidelidade da Fonte: ela estava sempre lá, à sua espera.

...Seu jeito manso de falar. Sua voz jamais se alterava, jamais se encrespava. Era sempre um murmurar manso e sem pressa.

...E gostava de ver o seu rosto refletido na Fonte, quando se abaixava para beber água. Rosto bonito. Antes ela não sabia disso. Porque nós não nos vemos a nós mesmos. Precisamos de espelhos. Nossos espelhos são os olhos dos outros. Somente os outros podem dizer que somos belos. A beleza é uma dádiva dos olhos do outro.

A Fonte tinha a Rãzinha.

A Menina tinha um Coelhinho branco de olhos vermelhos. Liso, macio, tímido. Ah, como era tímido. Assustava-se à toa.

Igualzinho à Menina. A Menina dizia que o Coelhinho era a sua alma. Mas da Fonte o Coelhinho não tinha medo porque a Fonte nunca o assustava.

Vivia, no alto de uma árvore, um Tucano.

O Tucano era um palhaço. Ria de tudo o que fosse engraçado. Quando a risada do Tucano se ouvia na floresta, a bicharada toda sabia que algum número de circo estava em andamento...

A Menina chegou. A Fonte murmurou palavras de amor.

A Menina se aproximou para beber água.

Aí, quando seu rosto se aproximava da água, a Rãzinha moleca resolveu fazer uma brincadeira com a Menina: mergulhou justo no lugar onde a sua boca ia tocar a água.

"Velha lagoa a rã salta

o som da água" (Bashô)

Splash! A água espirrou. Menina e Coelhinho ficaram todos molhados. Menina e Coelhinho recuaram assustados, rostos amedrontados!

A Fonte se assustou também, com a cara de susto que Menina fez. Ela nunca a havia visto daquele jeito. A pele da fonte se enrugou.

E a Menina, então, se viu feia, refletida enrugada no reflexo enrugado da Fonte.

A Menina se enrugou por dentro: ficou com raiva da Fonte. Ela estava feia-enrugada por causa da Fonte.

A raiva provoca estranhas transformações: a Madrasta da Branca de Neve, por exemplo, virou bruxa quando se viu feia refletida no espelho.

O Coelhinho virou um Porco Espinho raivoso.

O Porco Espinho sacudiu-se todo, para se enxugar da água.

Seus espinhos se soltaram e caíram na Rãzinha.

A Rãzinha sentiu a dor dos espinhos. E ficou com raiva da Menina. Aí foi sua vez de se transformar. A Rãzinha virou um sapo enorme, feio, de língua venenosa. Que magia mais tenebrosa!

Fonte e Menina, apaixonados, transformados agora em Porco Espinho e Sapo Venenoso, enraivecidos.

Foi então que uma gargalhada enorme ecoou pela floresta.

– Quiá, quiá, quiá, quiá...

Era o Tucano. Ria tanto que quase caiu do galho.

– Que número mais cômico! Que grandes artistas vocês são, e eu não sabia!, ele disse. Será isso uma sessão de psicodrama ou ensaio para algum número de circo? Já vi mágico tirar coelho de cartola. Mas você Menina, é melhor que qualquer mágico: tirou um Porco Espinho espinhudo de dentro de um Coelho branco peludo. E você, Fonte, de uma rãzinha do tamanho de um ovo de pato tirou um Sapo horrendo maior que um sapato.

Ditas essas palavras, e sem parar de gargalhar, o Tucano saiu voando, espalhando aos quatro ventos a notícia do espetáculo de circo que acabara de presenciar.

A Fonte e a Menina, ao se verem assim com cara de Sapo e cara de Porco Espinho, caíram também na risada. Era muito engraçado! Riram até chorar de sua feiura raivosa. E à medida em que riam deles mesmos, a mágica ao contrário aconteceu: o Porco Espinho voltou a ser Coelhinho, e o Sapo voltou a ser Rãzinha. O riso é santo remédio pra curar as doenças da raiva.

A Fonte e a Menina se abraçaram, sabendo que nenhum dos dois tinha razão. Eram dois tolos... E abraçados, voltaram a se amar como sempre tinham se amado. Mas agora sabiam que dentro do Coelho morava um Porco espinhoso e dentro da Rãzinha morava um Sapo horroroso. A qualquer momento era possível que aparecessem de novo. Mas já não tinham medo.

Conheciam o antídoto: a feiura da raiva não agüenta a leveza do riso. Toda a vez que Sapo Horroroso ou Porco Espinhoso apareciam, eles se lembravam da risada do Tucano. Riam também, e de novo voltavam a se amar.


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