Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Dezembro de 2000 - Vol.5 - Nº 12

Psicanálise em Debate

O Psicanalista vai ao cinema e à exposição do MASP

Dr. Sérgio Telles
Sérgio Telles (54) é psicanalista do Departamento de Psicanálise de Instituto Sedes Sapientiae e escritor, autor de MERGULHADOR DE ACAPULCO (1992 – Imago – Rio) 

1) O PSICANALISTA VAI AO CINEMA – A PULSÃO DE MORTE EM "DANÇANDO NO ESCURO" DE LARS VON TRIER

Parece-me surpreendente o sucesso que o filme "Dançando no Escuro" tem feito com a crítica e o público. É um filme extremamente desagradável, que beira o insuportável no desfiar do calvário de Selma, uma miserável imigrante checa nos Estados Unidos, personagem interpretado à perfeição pela cantora islandesa Bjorg.

Selma vive humildemente como operária. Está perdendo a visão e seu filho tem a mesma doença genética. Trabalha desesperadamente para poder pagar a operação que garantirá a visão ao filho. Não mede esforços frente a este objetivo, levando-o a extremos inimagináveis. Tem como único lenimento sua paixão pelos musicais norte-americanos, lugar onde, diz ela, "tudo sempre acaba bem". Cada vez que a realidade a confronta com graves impasses e limitações, escapa imaginariamente, transformando-os em situações de musical, onde tudo se equaciona de acordo com seu desejo.

Do ponto de vista cinematográfico, Lars von Trier subverte o gênero musical, pois, ao contrário do que Selma diz a respeito deles, aqui tudo "acaba mal"; a música de Bjorg não é fácil, agradável, "cantabile"; as coreografias são ríspidas e duras. O efeito geral é o oposto do encantamento distante da realidade produzido pelos grandes clássicos do musical. Aqui é enfatizada a aspereza dos destinos humanos, com suas misérias e suas sofridas vitórias.

Embora tenha sido alardeada a novidade do uso de câmaras digitais, que permitem, devido a seu baixo custo, filmagens simultâneas (na cena do trem, mais de 100 delas teriam sido usadas), possibilitando novos regimes de filmagem e montagem final, penso que nada disso transparece visualmente para o espectador médio.

Como um filme tão ríspido pode atrair a platéia e a crítica ?

Poder-se-ia evocar uma interpretação sociológica. O fato de Selma ser uma operária checa que vai para os Estados Unidos em busca de um mundo melhor e ali encontra seu martírio, poderia ser entendido como a desilusão do operariado, representando toda a humanidade, frente ao fracasso das promessas de um mundo melhor feitas pela revolução socialista e à injustiça social que o capitalismo continua produzindo mesmo no centro do império norte-americano, que também tem seus miseráveis. Neste sentido, não é a toa que sua melhor amiga, "Cvalda" (interpretada por Catherine Deneuve) é também uma imigrante européia.

Selma está ficando cega, metaforicamente não tem perspectivas, não vê saídas para seu impasse. É verdade que essa desilusão não leva inteiramente ao desespero, alude-se a uma esperança para as futuras gerações: mesmo às custas de um sacrifício supremo, a elas deve ser assegurado o direito de ver.

A interpretação psicanalítica acrescenta importantes sub-tons a essa configuração. Selma suporta todas provações com paciência e bonomia, jamais se permitindo qualquer revolta, qualquer sentimento agressivo. Seu comportamento pareceria, para um observador externo, apático e inteiramente passivo, não opondo qualquer resistência aos reveses que a acometem. Mas sabemos de atrás de sua aparente fraqueza está uma férrea resolução - a de proporcionar a operação do filho.

Sua atitude com o filho, ao contrário da relação que tem com todos, é de uma dureza incomum. Mostra-se intransigente, exigente, impaciente com suas pequenas faltas escolares. Quando o drama está totalmente instalado, recusa-se terminantemente a atender seu pedido de vê-la.

Essa atitude de máxima severidade com o filho parece basear-se na presunção de que o melhor para ele é ter garantida a própria visão. Garantir-lhe isso é, em sua concepção, a máxima expressão de amor materno. Tudo deve estar submetido a esse princípio. Não importa que, para tanto, possa assumir atitudes de aparente rejeição e indiferença. "Mais vale que ele tenha a própria visão que ter uma mãe viva e cega", diz corajosa e corretamente Selma.

Em linhas gerais, embora severa, essa é uma grande verdade, do ponto de vista analítico. O maior amor que os pais podem ter pelos filhos e deixá-los crescer e partir, é ajudá-los a ter autonomia própria, a prescindir deles mesmos, pais. Isso, que parece uma obviedade, está longe de sê-lo. Muitos pais narcisisticamente desejam manter os filhos ligados, não tolerando qualquer movimento de independência.

Por outro lado, o desejo de Selma de tornar autônomo o filho, independente dela, ou seja dos pais, a forma inflexível com a qual o exerce, poderia revelar outros aspectos de seu psiquismo. Sabemos que Selma não teve pai, nada é dito sobre sua mãe. Cria imaginariamente um pai que justifique suas idiossincrasias, como o amor pelos musicais. A falta deste pai idealizado, que a protegeria e amaria, fica patente nas cenas finais. O filho de Selma também não tem pai.

Sua dureza para com o filho, seu desejo de fazê-lo autônomo, tendo sua própria visão, sem depender de mãe ou pai, furtando-se ela mesmo a ter uma atitude mais compassiva e carinhosa com o filho, pareceria mostrar que muito sofreu com o abandono e quer poupar tal sofrimento ao filho, forjando-o independente. Mas ao fazê-lo, termina por infligir a ele a carência que sofreu e da qual queria protegê-lo.

Mas nada disso justifica a postura que Selma assume para executar seu plano de salvar o filho, garantindo-lhe a operação. Metida em inúmeras complicações, Selma nunca se defende, tem uma passividade bovina, mantém em segredo o motivo de suas ações, não pede ajuda aos amigos e a recusa quando estes querem protegê-la . A justificativa dada no filme - o filho não pode saber que tem uma doença na vista, pois isso o angustiaria, o que agravaria o problema - mostra-se inconsistente, pois as consequências do obstinado silêncio de Selma e sua recusa em ser ajudada desencaderiam muito mais angústias no filho do que o conhecimento de sua doença.

A atitude de Selma - seu abandono, seu não defender-se, sua indiferença para consigo mesma - parece apontar para um inconsciente desejo de morte, uma raiz profundamente melancólica. Ela confessa ter um intenso sentimento de culpa frente ao filho, sente uma necessidade de punição por considerar-se responsável pela doença dele. Censura-se pelo egoismo de ter desejado a gravidez, mesmo sabendo que transmitiria ao filho sua doença.

Considera-se, pois, uma má mãe e se pune por isso.

É possível que ao sentir-se desta forma, esteja identificada com a imagem odiada e destruída do pai que a abandonou (ou de uma mãe que ao sequer ser mencionada, permite supormos um mau relacionamento entre as duas). Ao invés de dizer "tive um mau pai (e uma má mãe) e o(s) odeio por isso", por identificação diz, "sou uma má mãe, me odeio por isso e por isso me castigo". Ou seja, identificada com este pai odiado (e essa mãe), ao se punir, está punindo o pai (e a mãe).

Ao se deixar morrer, mata o pai internalizado (e a mãe) com os quais está identificada. Também ao não se defender, porta-se como uma criancinha indefesa e abandonada, atitude com a qual acusa os pais de abandono.

Em outras palavras, a atitude de Selma parece ilustrar bem o masoquismo e a melancolia enquanto expressões da pulsão de morte voltada sobre o próprio sujeito.

Como Freud mostrou, há três tipos de masoquismo: o moral, o feminino e o erógeno. Este último é o mais conhecido, envolve práticas sexuais onde a dor e a passividade de um dos parceiros envolvem o comportamento complementar sádico por parte do outro. O masoquismo feminino, para Freud, seria um dos avatares da sexualidade feminina e o masoquismo moral é aquele onde impossibilidade de defletir para o exterior a pulsão de morte, sob a forma de agressão, faz com que ela rertorne ao próprio sujeito, alimentando o sadismo do próprio super-ego. Na melancolia, diz Freud, vemos uma cultura pura da pulsão de morte, na medida em que a agressão está voltada para um objeto que se internaliza ( o que faz com que a agressão retorne para o interior do sujeito) e ao mesmo tempo, a culpa pela agressão a este objeto internalizado reforça o rigor sádico do superego. O resultado é fatal, levando frequentemente ao suicídio.

Selma é incapaz de voltar a agressão para o exterior que a agride. Volta a agressividade contra si mesma, internalizando-a como um super-ego sádico que a impede de cuidar de si mesmo e preservar a própria vida, deixando-se matar.

Assim, é curioso, pois apesar de todo o aparato repressor do Estado se levantar contra Selma com a pena máxima, no fundo o que vemos é a realização de um suicídio.

Se o masoquismo de Selma é predominantemente moral, tem também alguns traços eróticos. Sua relação com o proprietário que lhe aluga o lugar onde mora deixa transparecer algum erotismo. Selma submete-se inteiramente ao desejo deste, não esboça nenhuma reação frente a suas investidas, organizando um bom modelo de relacionamento sádo-masoquista.

Assim, uma explicação para a aceitação de "Dançando na Chuva" residiria na capacidade que tem de tocar profundos aspectos masoquistas e melancólicos da platéia, que tem ali uma oportunidade de ver de forma sublimada os movimentos sombrios da pulsão de morte.

2) FREUD: CONFLITO E CULTURA, mostra organizada pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em exposição no MASP

A exposição "Freud: Conflito e Cultura" tem uma longa história.

Ao ser proposta em junho de 1995 pelo curador da Biblioteca do Congresso, Michael Roth, estava ele inadvertidamente reacendendo uma acerba polêmica iniciada nos anos 70, envolvendo a história oficial da psicanálise e seus vários revisionistas, liderados por Peter J. Swales. Tal polêmica centrava-se na atitude da IPA e dos Freud Archives, chefiados por Kurt Eissler, que - por mais de 40 anos - recusara acesso a historiadores de documentos inéditos ali depositados. Tal atitude excessivamente sigilosa deu margem a desconfianças e a uma proliferação de fantasias denigratórias que tomou corpo num movimento que terminou por ser chamado de "Freud bashing" (espancamento de Freud).

Assim, ao ser pensada a exposição – que deveria ser montada pela IPA e pelos Freud Archives – todo o lobby revisionista se articulou fazendo pressões para que fossem introduzidos entre os organizadores da exposição pessoas ligadas a uma visão mais crítica e contestadora da psicanálise. Peter J. Swales organizou um abaixo-assinado com este teor. Como tal questionamento não teria sido aceito pela IPA e pelo Freud Archives, a exposição foi cancelada em dezembro de 1995, com a desculpa esfarrapada de falta de fundo. Novos abaixo-assinados foram realizados, um deles liderados pela psicanalista e historiadora da psicanálise Elizabeth Roudinesco, questionando tal cancelamento. Como resultado final, a exposição foi finalmente organizada para o outono de 1998, com a inclusão dos historiadores revisionistas. Tal política foi imposta para a apresentação da exposição nos demais lugares que passaria a visitar. A versão brasileira é a quarta a se realizar.

Como ecos desta disputa, no dia 14 de novembro, foi publicado um artigo em "Tendências e Debates", na página 3 da "Folha de São Paulo", com o título "Complexo de Édipo e Pedofilia". Este artigo pode ser lido na internet, acionando-se o site do jornal e seu arquivo. No dia 30 de novembro, ali saiu a resposta que julguei necessário fazer àquele amontoado de informações truncadas. Abaixo está a reprodução do mesmo.

INTERPRETAÇÃO ERRÔNEA

Sérgio Telles

O leitor deste jornal, sabedor da pretigiosa exposição "Freud: Conflito e Cultura", montada pela Biblioteca do Congresso americano e atualmente em exibição no Masp, deve ter ficado perplexo ao ver nesta página, no dia 14 pp, o artigo "Complexo de Édipo e Pedofilia". Ali o autor, um psicólogo do Paraná, diz ser o complexo de Édipo "uma fraude montada corporativamente para substituir a teoria da sedução", o que desautorizaria etica e moralmente a Freud, colocando-o na posição de impostor.

Tais escandalosas afirmações foram também proferidas quando da organização da exposição em Washington, o que provocou um adiamento da mesma. Fazem elas parte do que se convencionou chamar nos Estados Unidos de "Freud bashing" (espancamento de Freud), decorrente - entre outras coisas - de uma visão revisionista radical da história da psicanálise, que contesta - de forma fantasiosa e caluniosa - a história oficial.

Esta visão revisionista, como diz Elizabeth Roudinesco - importante historiadora da psicanálise - aparece como reação ao excessivo zelo daqueles que se julgavam responsáveis pela história oficial da psicanálise: a International Psychoanalytical Association (IPA), que mantem o controle e a gestão do Sigmund Freud Archives (Arquivos Freud) , criado por Kurt Eissler e depositado na Biblioteca do Congresso americano. Diz ela: "(...) a política de retenção conduzida por Eissler com a concordância de Anna Freud, iria revelar-se catastrófica, como sublinhou o historiador Peter Gay: 'A opção pelo sigilo, à qual Eissler esteve e continua muito firmemente ligado, só pode incentivar a proliferação dos mais extravagantes boatos sobre o homem (Freud) cuja reputação quer proteger'."

Essa situação teve seu ponto crítico quando Eissler ao invés de abrir os arquivos a historiadores profissionais encarregou um jóvem e brilhante analista, Jeffrey Masson, de coligir papéis para uma nova edição da correspondência entre Freud e seu amigo Fliess. Masson, para constrangimento de todos, ao ter acesso a novos documentos, faz deles uma leitura leviana e equivocada, transformando-se num contestador radical do "establishment" psicanalítico e da própria teoria psicanalítica. O fruto desta sua aventura foi o livro, publicado em 1980, "Assalto à Verdade" (José Olympio Editora - Rio - 1982), onde estabelece a tese que o autor do artigo acima citado repete.

No momento o Arquivo Freud, dividido em "séries" (A, B, E, F e Z) está aberto aos pesquisadores, com exceção da série Z. Esta ficará plenamente acessível no ano 2100.

É necessário dizer que a mudança que Freud fez, ao abandonar a teoria da sedução (quando acreditava na realidade fática dos abusos sexuais na infância relatados pelas pacientes histericas) e criar a teoria do complexo de édipo (quando dá prioridade à fantasia realizadora de desejos destas pacientes), diz respeito a uma importante questão teórica para a psicanálise, na medida em que aponta para as duas vertentes essenciais do acontecer psíquico - a realidade externa e a realidade psíquica, interna.

As teorias pós-freudianas se alinham entre as que privilegiam mais uma vertente ou outra, o que faz com que o psicanalista francês Jean Laplanche as classifique em teorias "ptolomáicas" (mais centradas na realidade psíquica) e as "copernicanas" (mais centradas na realidade externa). Nestas últimas fica clara a importância fundamental do Outro, o poder traumático de seu desejo, causador da alienação estrutural na qual todos nós nos constituimos.


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