Volume 11 - Marηo de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2000 - Vol.5 - NΊ 11

Psicanálise em Debate

Um balanço da coluna

Dr. Sérgio Telles

Motivos alheios a minha vontade me impediram de ir ao Congresso Brasileiro de Psiquiatria, onde participaria da mesa coordenada por nosso editor, Giovanni Torello, sobre psiquiatria e internet. Deveria falar sobre a experiência de escrever uma coluna de psicanálise no Psychiatry on Line.

De qualquer forma, isso me deu oportunidade para refletir um pouco sobre o assunto, coisa que não tinha feito até então. Para tanto, a primeira coisa que fiz foi rever os textos publicados nas 26 colunas, de agosto de 1998 até o presente.

Confesso que tive uma agradável surpresa ao ver esse material reunido, perfazendo umas duzentas e poucas páginas impressas, praticamente um livro!

Constatei como a coluna me tem sido importante estímulo, ao obrigar-me a escrever, uma tarefa nem sempre fácil dentro das ocupações e atribulações diárias da clínica. Proporciona-me um meio de comunicação com os colegas, rompendo a solidão do consultório. Voltarei a esse ponto posteriormente.

Lembrei da ocasião, em julho de 1998, na casa de Itiro Shirakawa, em que Giovanni Torello me convidou para iniciar a coluna. Sem muitas ponderações, concordei. No dia seguinte, comentando o fato com um colega, ele perguntou-me "e você terá gas para tanto?" Aí é que me dei conta da tarefa que assumira. Sem me deixar intimidar pelas exigências super-egóicas nem pelas pressões narcísicas do ideal-do-ego, tentei delimitar meu campo de ação, levantando as questões que me pareciam pertinentes a meu objetivo. Em primeiro lugar, os problemas específicos ligados a escrever uma coluna de psicanálise; em segundo, os ligados ao fato de estar esta coluna num jornal de psiquiatria e, finalmente, mas o que mais interessaria do ponto de vista da mesa do congresso, o estar esta publicação na internet.

Acreditando que, por mais prolífico e criativo que seja, um autor não conseguiria escrever um trabalho de fôlego todo o mês, ficava claro que a coluna teria, necessariamente, uma conotação de informação e divulgação da psicanálise, o que implicaria o cuidado de não cair em banalizações ou vulgarizações superficiais, riscos inerentes à divulgação de qualquer conhecimento complexo.

Acreditando, como posteriormente escrevi numa coluna, que existe uma weltanschauung (visão de mundo) psicanalítica, resolvi que a coluna seria uma mostra desta weltanschauung, um olhar sobre a realidade imediata através das lentes da psicanálise. Embora tenha feito isso desde o início, somente mais recentemente cheguei à formatação atual, onde "O Psicanalista Vai Ao Cinema" ou " O Psicanlista Lê o Jornal" ocupam lugar de destaque na "Miscelânea".

Pretendia também que este espaço ficasse aberto para outras vozes, em entrevistas ou colaborações escritas. É algo que, por falta de tempo, não consegui explorar adequadamente.

Delimitado o enfoque que a coluna teria, voltei-me para a questão seguinte: ela estaria no Psychiatry on Line, um jornal de psiquiatria e não de psicanálise. Na ocasião em que comencei, sentia – através da leitura da nossa Lista - uma hostilidade contra a psicanálise, atitude, de resto, condizente com o espírito geral (mais naquele instante, acho que está um tanto diferente neste momento) da psiquiatria dominada pela neurociência.

Acredito ser um falso problema, a dicotomia radical entre psicanálise e a psiquiatria. Por esse motivo, ao invés de estimular hostilidades e aguçar contradições, julguei que o melhor caminho a seguir seria o expressar a weltanschauung psicanalítica da maneira mais honesta e clara possível, dispondo-me ao debate, sem aceitar eventuais provocações. Acho que foi uma boa escolha.

Neste sentido, um episódio interessante ocorreu quando recebi de um colega leitor um attach de 20 páginas com virulentos ataques à psicanálise e resolvi respondê-los (abril de 1999).

Acredito que os exageros e fanatismos devam ser sempre combatidos, na medida em que evidenciam-se como situações sintomáticas, fortemente enraizadas no narcisismo onipotente infantil.

Finalmente, o último tópico, o mais específico deste coluna - o fato de ser a coluna on line. Devo dizer que aí reside o motivo de uma certa decepção, que se mantem até agora. Ao começar a escrevê-la, imaginei ter um intercâmbio efetivo e intenso com os leitores, dado a imensa facilidade que os e-mails proporcionam. Não é o que tem acontecido. Nestes dois anos e pouco, recebi apenas 9 cartas, com críticas e sugestões. Continuo aguardando um contato maior, acreditando que isso beneficiaria em muito o trabalho.

Coloco abaixo um sumário do que já foi publicado na coluna de psicanálise , por temas e pela data.

Foram comentados cinco livros: Observando a Imaginação Erótica, Imago Editora, 1998, Robert Stoller; Theroigne de Mericourt – Uma mulher melancólica durante a revolução, Rocco, 1997, Elizabeth Roudinesco; O alienista, Machado de Assis; As Fúrias da Mente, Iluminuras, Teixeira Coelho, 1998; Concebido com Maldade, Louise de Salvo, Resord, 1998.

Foram analisados 15 filmes: Caráter de Mark van Diem, The Truman Show (em co-autoria com Guillermo Bigliani); Amor além da vida de Vicent Ward, Festa em Família de Thomas Vintenberg, Happiness de Todd Solondz, Os Idiotas de Lars von Trier, Eyes Wide Shut de Kubrick, Tudo sobre minha Mãe de Almodovar, American Beauty, Quero ser John Malkovich, Meninos não choram, Magnólia, Buena Vista Social Club, Gente da Sicília, Cronicamente inviável.

Foi vista uma peça teatral, Estórias Roubadas, e um espetáculo de dança Butô.

32 Notícias foram lidas com o olhar analítico, abordando os seguintes assuntos: eleições de 1998; Padre Marcelo Rossi e a nova igreja; o nome "Hitler Mussolini"; manual de exorcismo lançado pela igreja católica; assassinato de filhas mulheres na China; condenação de Dr Kervorkian - um serial killer?; corrupção politica em São Paulo; chacinas semanais em São Paulo; comentários sobre artigo de Erik Kandel; comemorações do dia das mães; menino de Honduras procura pai nos EUA; negro americano mata filho; crianças medicadas com psicotrópicos nos EUA; as atitudes de Nicéia Pita; o pedido de perdão do Papa; um caso de pseudociese; apedrejamento do diabo; o poder de Rasputin; um assassino esquartejado no final do século; porque beija o Beijoqueiro; suicídio coletivo em Uganda; o caso Elian; corrupção no Brasil; a festa dos 500 anos; interesses da industria farmaceutica e a psiquiatria; o texto integral do escritor americano Wolf; casais americanos não desejam procriar; crise no Greenpeace; senso comum gera medo; o acidente com o submarino russo; Ministério Público brasileiro acusado de usar métodos nazistas; Clinton na Colômbia.

15 artigos: A questão das mães esquizofrenogênicas; O Dom de falar Línguas; Visitas às casas de Freud; Psicanálise – o inferno astral; A questão da eutanásia – a propósito do Dr. Kervorkian; Laio (avô), Édipo(filho), Antigona(neta?) – uma família trágica; O nome do próprio e o desejo da mãe (a respeito do nome de Vincent Van Gogh); Kubrick e Schnitzler – incursão no Unheimlich; Transtorno da personalidade; Cem anos de A Interpretação dos Sonhos – sua vigência teórica, clínica e metodológica; Terapia psicanalítica de família – um importante campo a ser estudado; O último Almadóvar (Tudo sobre minha mãe e nada sobre meu pai); Existe uma weltanschauung psicanalítica; Uma fantasia comum sobre a anális; Pornografia, algumas idéias iniciais..

Foram recebidas e respondidas 9 cartas de leitores.

Foi realizada uma entrevistas – com Luis Barros, presidente do Projeto Fenix.

 Agosto de 1998 – Comentário sobre artigo do Der Spiegel reproduzido no O Estado de São Paulo em 11/7/98, sobre psicanálise. Resenha do livro Observando a Imaginação Erótica de Robert Stoller.

Setembro de 1998 – Resenha do livro Theroigne de Mericourt – Uma mulher melancólica na Revolução, de Elizabeth Roudinesco.

Outubro de 1998 – Comentário sobre o filme Caráter, A questão das mães esquizofrenogênicas, O alienista de Machado de Assis. Informe sobre os Estados Gerais.

Novembro de 1998 – Falando de cidadania (comentários sobre as eleições). Entrevista com Luis Barros, do Projeto Fenix.

Dezembro de 1998 – Comentário sobre o filme The Truman Show, co-autoria com Guillermo Bigliani

Janeiro de 1999 – O Dom de falar línguas e Miscelânea

Fevereiro de 1999 – Resenha de livros e comentários (Fúrias da mente e Mentes em Fúria)

Março de 1999 – Visita às casas de Freud – Uma ficção freudiana

Abril de 1999 – Psicanálise, o inferno astral

Maio de 1999 – Miscelânea (comentários sobre notícias)

Junho de 1999 – Algumas ideiais sobre famílias ( Dia das mães, Filmes "Happiness" e "Festa em família"

Julho de 1999 – A morte do pai (a partir de duas notícias) e comentários sobre o filme "Os Idiotas"

Agosto de 1999 – Laio (avô), Edipo (pai), Antígona (neta?) – Uma trágica família

Setermbro de 1999 – O nome próprio e o desejo da mãe

Outubro de 1999 – Kubrick e Schnitzler, uma incursão no Unheimelich – Algumas observações sobre Eyes Wide Shut

Novembro de 1999 – Transtornos de personalidade

Dezembro de 1999 – Cem anos de "A interpretação dos Sonhos" de S. Freud

Janeiro de 2000 – Terapia psicanalítica de família – um importante campo a ser estudado

Fevereiro de 2000 – O Último Almodovar – ("Tudo sobre minha mãe")

Março de 2000 – Miscelânea: a) American Beauty, b) notícias comentadas e c) cartas

Abril de 2000 – Miscelânea a) psicanalista vai ao cinema ("Todos querem ser John Malkovicht"), b) psicanalista lê o jornal

Maio de 2000 – a) psicanalista vai ao cinema ("Magnólia"), b) psicanalista lê o jornal e c) correspondência

Junho de 2000 – Miscelânea – a) Existe uma weltanschauug psicanalítica? b) o psicanalista lê o jornal e c) correspondência

Julho de 2000 – Miscelânea – a) uma fantasia comum sobre a análise, b) noticias sobre os Estados Gerais

Agosto de 2000 – Miscelânea – a) o psicanalista vai ao cinema ("Sicília" e "Crônicamente inviável"), b) o psicanalista lê o jornal e c) notícias dos Estados Gerais

Setembro de 2000 – Miscelânea – a) psicanalista vai ao teatro ("Histórias Roubadas"), b) lê o jornal, c) vai ao cinema (Sylvia Loeb – A humanidade) e d) correspondência.

Outubro de 2000 – Algumas idéias sobre Pornografia.


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