Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Dezembro de 2000 - Vol.5 - Nş 12

Psiquiatria, outros olhares...

CONTO DE NATAL

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Doutor em Psiquiatria pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica),
Doutor em Antropologia pela Universidade de Lyon (França), Professor
Titular de Psiquiatria da Fac. Medicina/UFCe, Diretor do Centro de Estudos da Família.

Mexendo no baú do tempo, descubro esse velho conto que escrevi ainda estudante de medicina. Talvez seja o texto mais exato para estes tempos que nos aproximam da boa nova. No ar. No tempo. Em um novo milênio. Boas Festas a todos.

CONTO DE NATAL

Antonio Mourão Cavalcante (*)

Dizem que Seu Lôbo é um bom pedreiro. Ofício que aprendeu do pai, inda pequeno. Vive disso e sustenta a família de seis filhos. Agora que as coisas não estão boas para ninguém, pioraram para seu Lôbo. Um barraco afastado, a morada. Melhor que nada. Foi ele e os filhos que construiram, nos domingos e folgas.

Mas hoje é sábado e seu Lôbo recebeu o saldo. Está mais na felicidade que do costume de ser. Um resto de conta da semana. Dá para Isabel, a mulher, pagar os fiados da bodega. O mais que sobre, para a semana. Tomou banho. Tirou a cal e o cansaço. Está no livre. Ajeita a colher, o fio de prumo, o nível. Tudo num saco de cimento seco. Amarra com vontade: seu ganha pão, a vida, seu todo. Bem que poderia deixar com o Chico, o vigia, mas o seguro é finado. Dá adeus. Até mais. Sai.

Verdade que seu Lôbo não tem pressa. Destino. Cedo ainda para chegar em casa. E, mais no mais, só a mulher com as chateações, os filhos e as brigas. Lenga-lenga. O fim-de-semana cheio de nada. Vazio. Não paga a pena da pressa. Desliza. Esquiva-se. Sai.

Os colegas até que convidaram para tomar umas. Mas estas umas podem dar em muitas. A rapaziada é sem responsabilidades. Seu Lôbo desconversa. Recusa. Sai.

Espera o onibus. O onibus demora. Seu Lôbo se impacienta. Toma uma. Por desequilîbrio de causa. Desapego de obrigação. Toma. Mas é só esta, pois não é homem de excessos e não vai perder os ferros e não vai chegar em casa em estado de dar mau exemplo, dos vizinhos ficarem com com fuxicos e mesmo a mulher. Nem vai aceitar que lhe aborreçam, muito mais agora que as coisas não andam bem. Uma dose não mata ninguém. Se muito, apressa a fome, agita as tripas. Traz o sossêgo. Equilíbrio e ânsia, a paz do pensar.

Seu Lôbo espera o onibus e o onibus custa. Com esses trocados no bolso bem que podia tomar um táxi. Seria disperdício, com certeza. Fábula besta de pobre que não sustenta dinheiro no bolso. Principalmente sendo ele adulto e pai de família e com responsabilidades. Táxi não. Mas o diabo do onibus demora e não vai ficar asssim.

Bota mais uma! Bebe e repete o raciocínio de que é homem. Que não enche a cara. Que não vai chegar em casa e dar escândalos ou coisa que some do mesmo. Verte tranquilo. Na serenidade da experiência. Vivido, viajado. Como quem viu a vida. Na raiva do onibus. Na força da carne que não vale.

Não resiste a espera. Inda mais agora que é sábado e está livre. Vai caminhando mesmo. Economiza estes duzentos. A pé. Não é novidade. Vazão do costume, rotina. Seu Lôbo segue. Antes, mais uma. Por conta da passagem. Saideira.

Seu Lôbo caminha no desafogo da obrigação. O espaço sem limite. A rua larga, comprida. Avenida. Até aonde a vista dá. Sua trilha. Pela experiência e costume de beber, seu Lôbo sente um pêso diferente. Uma vontade de correr. A agitação da verdade. Vontade de soltar um berro - urro! - estridente, desconcertante. Qualquer. Grito que acordasse velhas lembranças, do tempo de solteiro, sem família. Ou, só por vazão da norma.

Seu Lôbo agora está no esvoaçante da festa. Vê a vida mais brilhosa. Iluminada. Pára e pede mais uma. O caminho é longo e sem esta, talvez, não bote lá. O raciocínio prossegue e as doses. A cachaça é boa pelo conforto e alegria que inaugura em nós. E, gostaria que todos soubessem como ele estava alegre. A felicidade jorrando pelos cotovelos e cantos dos dentes, borbotões!...

Segue indeciso. De longe, vê uma luz grande, no alto. Parece na praça principal. E, é. Segue ainda. Cambaleando. As pernas parecem mais leves. A alma exulta qualquer alegria. Qualquer caminho ou gesto é longo e largo. As paredes parecem róseas, voláteis. Dançam. As pessoas riem e insultam. Seu Lôbo também ri. Já não se importa. Está na felicidade. Comprada. Vendida. Bebida.

Mais próximo descobre. É um poste bem grande e bem alto. Todo iluminado.

Vê bem de perto. No levantar da vista, até o alto, seu Lôbo tonteia. Cai. Cai e dorme.

Estava por saber, na placa, no alto, escrita a mensagem: FELIZ NATAL!

24.12.69


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