Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2000 - Vol.5 - Nş 9

Psiquiatria, outros olhares...

ETNOPSIQUIATRIA, O OLHO NA CULTURA

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Doutor em Psiquiatria pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica),
Doutor em Antropologia pela Universidade de Lyon (França), Professor
Titular de Psiquiatria da Fac. Medicina/UFCe, Diretor do Centro de Estudos da Família.

Estamos interessados na compreensão da loucura ligada à sua dimensão cultural. Isso existe, e, para ilustrar, começo com a história de um paciente. A história de Paulo.

Paulo tinha em torno de 26 anos. Ele deveria aceitar aquela oportunidade. Trabalhar numa empresa tão importante, que ele chamou de "a multinacional nacional". Era uma chance de ouro. Morava numa cidade do interior de um estado vizinho. Ele veio designado para uma cidade do litoral. Trouxe a mulher e uma filhinha.

Nos primeiros meses, até que ele não enfrentou problemas. Era a fase de adaptação ao serviço e às pessoas da região. Ele tinha vindo de fora, mas as coisas não pareciam tão diferentes.

Agora ele estava pleno de dificuldades, que ele preferiu chamar de doença. Na verdade parecia um termo mais adequado. Não se alimentava bem. Tinha insônia, mal-estar, irritação fácil, nervosismo, choro fácil. Estava dando para controlar, mas a doença piorou. Começou a sentir, nas noites, uma falta de ar. Um vexame forte na cabeça. E, até o desempenho sexual foi baixando. Como não agüentava mais, veio até a capital - Fortaleza - procurar ajuda de um médico.

Dito e feito. Em Fortaleza, procurou um clínico geral. A empresa tinha um convênio. Não foi problema. O clínico pediu uma série de exames, sobretudo buscando alguma causa cardíaca. Nada feito. O paciente recebeu do médico o simples e categórico: "O Sr. não tem nada!" Ele ficou ainda mais triste e aborrecido. Então, era grave! Como é que o médico não descobriu qual seria a sua doença? Se ele tinha todos aqueles comemorativos, parecia-lhe uma coisa tão evidente e tão incontrolável. Foi, então, ao serviço social da empresa, que acabou lhe propondo discretamente: "por que você não procura um psicoterapeuta?

A ESCUTA QUALIFICADA

Mais uma vez, dito e feito. Ele se apresenta, diante de mim, como alguém que sofre. Repete sua história. Está preocupado, sobretudo, com o fraco desempenho sexual, já que ainda se sente jovem. Sua mulher é jovem e toda essa história que se conhece muito bem...Está mesmo alimentando a possibilidade de deixar o emprego - o sonho da sua vida! - para voltar aos seus. Lá era muito melhor, confessa.

Pode ter sido uma pista. Fui nela. Mas, como era a sua vida? Tranqüila, responde. Penso, nada de especial. Dentro do meu viés terapêutico, talvez deformado, pergunto logo: e seu pai, sua mãe? Tudo bem, já são idosos.

Cuidam da vida deles e até apoiam o que eu faço. Aí eu não entendi: o que é que você faz? Ele, então, abre o jogo: "Desde a idade dos 18 para os 19 anos eu comecei a me dedicar a um Centro Espirita. Foi uma coisa de obrigação. Criei o meu centro e tinha muita gente que o freqüentava. Quando vim para cá e tive que assumir esse emprego, abandonei tudo. Agora estou desligado dessas coisas". Perguntei, então, se ele não tinha o desejo de abrir um centro onde ele estava morando. "Dá certo não! Primeiro eu não conheço o pessoal daqui. Eu não sei como é o jeito deles. E, agora, está diferente. Como eu estou nesse emprego não posso estar me dedicando às obrigações. O povo parece que é muito católico. Depois, para funcionar precisa de quem freqüente". E você acha que o povo daí não gostaria de freqüentar? Por quê?

Para resumir. Falei que não achava nada demais ele poder abrir um Centro Espirita onde estava trabalhando e morando. Fazer os trabalhos de obrigação que ele mencionava serem necessários. Compreendi a sua aflição e que se ele tinha passado boa parte de sua vida praticando "obrigações", talvez ele pudesse recomeçar agora.

CONSTRUINDO A SAIDA

Pedi que voltasse. Criamos uma certa confiança. Agradeceu-me. Disse que estava melhor por ter aberto o seu coração para falar daqueles vexames que ele estava sentindo. E que havia escutado e entendido o seu problema. Marcamos uma nova sessão para os próximos quinze dias. Desta feita ele volta mais contente e mais tranqüilo. Já conseguira ter relações com a esposa, coisa da qual estava abstêmio depois que tinha chegado àquela cidade. Fala de outras melhoras: "durmo melhor, me alimento melhor e penso que vou ficar bom!" E a parte das obrigações, como ficou? Nem sei dizer se era o psiquiatra ou o antropólogo que questionava... Respondeu-me, de imediato: "Estou conseguindo reunir um pessoal. Tem sete pessoas. Todas são mulheres. Fui conversando devagar e agora a gente se reúne toda quarta-feira... Estou pensando em alugar uma casinha que tem perto de onde moro e, talvez dê certo. Desta viagem, vou até minha terra, lá na minha cidade. Vou buscar umas encomendas." Curioso, pergunto que encomendas. Ele diz: "Umas estátuas e outros apetrechos de umbanda!"

Ainda o vejo dois meses depois. Totalmente bom. Tinha retomado o apetite. Estava feliz. E o terreiro? Ele não gostou da pergunta, talvez porque preferisse chamar de Centro Espírita. Agora tinha nome. Ele me disse: "Mandei abrir um nome na frente (escrever, dar o título). Muita gente já vai lá, quase umas 40 em dias de festa. Tudo legal, graças à Deus!"

COMENTÁRIO

Verifica-se, com certa facilidade, que os conflitos se situam, de maneira básica, no segmento étnico (cultural). Não é uma conduta idiossincrática do inconsciente. A cultura fornece a armadura. Que seria essa armadura? Trata-se dessa reestruturação possível e precária. Essa possibilidade de tornar-se autonormal apesar de heteropatológico. Devereux diz: "Eu não nego que o curandeiro, o xama, o louco, o bruxo, não sejam mais ou menos adaptados. Eu insisto, simplesmente, que eles são adaptados apenas a um setor relativamente marginal de sua sociedade e de sua cultura. Apesar da situação ser institucionalizada, ele agora é alguém, alguém que tem um discurso, que possui até uma linguagem própria, mas ele continua destoante em relação ao seu próprio eu, o que seria a sua história, e, mesmo em relação a sua cultura em geral."

Kroebel diz que todo desenvolvimento cultural tende a um realismo progressivo. Deveríamos ajuntar que como paga, então, dessa defesa, ou dessa reestruturação fornecida pela cultura, fortemente humano, não faz mais que refletir a distorção cultural dele que tende a contaminar até a atitude dos membros das religiões ditas superiores.

Em nosso pretenso saber psiquiátrico, não devemos, apoiados em Devereux e Laplantine, afirmar que esse personagem tenha realizado uma cura no sentido psicoterapêutico, porque, se "eles tiveram a experiência afetiva corretiva, que os ajudaria a reorganizar os seus sistemas de defesa, mas isso não lhes permitisse tomar essa real consciência de si mesmos, o insight, que existiria na psicanálise, sem a qual não seria possível uma real cura."

(Devereux)

Nenhum curandeiro, nenhum bruxo, etc. foi jamais curado neste sentido. Ele estaria apenas num estado de remissão. Assim sendo, com estas defesas e esta estrutura, ele não pode curar senão as doenças que ele pode igualmente suscitar.


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