Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2000 - Vol.5 - Nş 9

Psiquiatria, outros olhares...

A DEMANDA EM TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Doutor em Psiquiatria pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica),
Doutor em Antropologia pela Universidade de Lyon (França), Professor
Titular de Psiquiatria da Fac. Medicina/UFCe, Diretor do Centro de Estudos da Família.

INTRODUÇÃO

É bem conhecida entre nós a anedota do indivíduo que, estando no cais do porto no Rio de Janeiro, é abordado por uma pessoa em pânico. Pede que ele vá urgente a Niterói. "Sua casa está pegando fogo, mulher e filhos em desespero".

Depois de fazer um imenso esforço para pegar o barco, e mais calmo, dá-se conta que não é casado, que não tem filhos e, finalmente, não mora em Niterói...

Quantas vezes, em nossa prática psicoterapêutica também não tomamos "barcos" cujo rumo não questionamos? Quantas vezes não tomamos o rumo errado em função de uma demanda desesperadamente colocada?

Na cabeça a idéia, como terapeutas, que devemos sempre portar lenitivo aos sofrimentos. Foi-nos ensinado, e muitas vezes repetido, que precisamos, a todo custo, diminuir a dor do paciente. Mas, o que é sofrimento em termos psicoterápicos? Qual o papel desse sofrimento na economia geral do doente ou da família?

A DEMANDA

O problema, com o pedido de uma solução, é o que podemos definir como demanda. A família, desde a primeira sessão, tenta formular uma sólida demanda.

Mesmo que a anamnese não esteja suficientemente clara, nem as relações entre os membros totalmente estabelecidas, são quase unânimes em apresentar a situação que desejam consertar. Mostram o problema e desejam uma solução. A demanda pode ser:

- explicitada - quando a formulação é clara, organizada de uma maneira convergente e única. Por exemplo: "nosso filho está se drogando e queremos que ele largue isso";

- vaga - quando não é revelada explicitamente. Por exemplo: "nosso filho é muito rebelde, ninguém sabe porque ele faz isso e não nos obedece".

Obviamente que esta diferenciação é um tanto quanto subjetiva. Mas, não deixa de ser um referencial para a intervenção. Deve-se trabalhar a partir da demanda revelada pela família. Isto é, o contexto tal como ele está sendo apresentado, mesmo que na percepcão do terapeuta possa existir outra realidade, bem mais importante do que a comentada.

Por que trabalhar exatamente a partir da demanda revelada pela família?

a. Esta é a história que ela está contando. Dessa forma estamos respondendo a uma expectativa. Fica subentendido que esta é a maneira como ela deseja ver a situação trabalhada. Há toda uma vontade neste sentido. Não se pode frustrar, logo no início, esta expectativa. Ademais, cabe ao terapeuta distinguir o que seria da ordem de seu desejo, daquilo que corresponde ao interesse da família. Não se está aderindo à versão contada por ela. Trata-se de uma estratégia;

b. por outro lado, partir para a elaboração de outra demanda, poderia acarretar na família reações inesperadas e o desencadeamento de defesas, o que tornaria a posterior abordagem ainda mais difícil. Há que estrategicamente aceitar a leitura proposta inicialmente pela família. O terapeuta não estaria acreditando naquilo que eles estão apresentando como versão, colocando o terapeuta numa posição de suposto saber. Diante de um terapeuta tão eficaz, posto que conhece até do que não é revelado, poderia inibir definitivamente a família, ou mesmo acarretando uma abrupta interrupção da terapia com o cancelamento das sessões subsequentes;

c. trata-se, nessa perspectiva, de qualificar a família. Ela se sentirá reconhecida como competente, capaz de realizar análises consequentes e equilibradas sobre ela mesma. Claro que o terapeuta poderá neste momento revelar de sua ignorância, dizendo, por exemplo, que não compreendeu muito bem que tipo de raciocínio eles teriam elaborado para chegar a estas conclusões;

d. é importante que o terapeuta procure desenvolver, desde o início, uma aliança com a família. O terapeuta não poderá avançar em colaboração e equilíbrio, se não tiver, estabelecido uma forte aliança com a família. Entender a demanda da família a partir do seu próprio discurso nos parece a estratégia mais eficaz.

A CONSTITUIÇÃO DA DEMANDA

Na realidade não podemos separar o inteiro discurso da família. Caberia distinguir, para efeito de compreensão, nas seguintes partes:

- sintomas - consta de diversas situações que estão caracterizando o sofrimento familiar, compreendido no seu sentido mais amplo, que equivale dizer: momentos de ruptura, ocasiões de fugas, ameaça de desequilíbrio e perdas. Trata-se de uma situação de mal-estar insustentável. Quando o terapeuta é procurado, o sintoma tem um caráter agudo. A família está em crise. Ela, sozinha, não está sabendo resolver o problema. Nestas circunstâncias, o terapeuta confronta-se com situações onde os sintomas são por demais evidentes. É comum a frase: "não dá mais para aguentar..."

- causas - dificilmente a família consegue fugir da idéia de buscar causas. Estas, em nossa cultura, estão associadas aos ascendentes familiares. É um tio, o avô, os pais. Por vezes o relato é marcado por um ponto especial na biografia do indivíduo: uma queda quando criança, uma agressão, uma fuga. Os pais vivenciam estas lembranças com muita culpabilidade. Explicação provável para a frequente recusa em comparecer às primeiras sessões;

- hipótese diagnóstica - a busca de uma causa leva a uma hipótese diagnóstica. Significa atribuir ao paciente um rótulo, uma etiqueta. É muito difícil dissociar causa de hipótese diagnóstica e, por consequência, o sentimento enorme de culpabilidade. Insistir na busca de uma causa é um dos mais graves equívocos em terapia familiar, posto que esbarra numa situação sem saída. Além de um relativo sossego - já sabemos o que ele tem! - o diagnóstico reforça uma percepção estática. Paralisa a terapia. Como se numa investigação policial tivéssemos finalmente encontrado o culpado;

- demanda propriamente dita - o discurso da família que vai se estruturando a partir das etapas descritas acima, termina com o apelo claro de uma intervenção saneadora do terapeuta. A família pede uma ajuda precisa: quer ser ajudada especificamente no sofrimento, que diz não mais suportar. Dada a gravidade ou circunstância do caso, pode ser de grande conteúdo emocional. A contra-transferência, para usar um jargão psicanalítico, pode empurrar o terapeuta a situações de desespero, de quase pegar o "barco" que figurativamente vai a porto algum....

A LÓGICA DO DISCURSO

Fica evidente que a demanda se inscreve na lógica do discurso familiar. Ela é parte inclusa. Não é um apêndice. Algo à parte. O mais importante da demanda é a escuta atenciosa, que permite, num momento tão significativo, de tanta fragilidade, compreender a lógica familiar. Será trágica, por exemplo, se a lógica familiar é catastrófica. Será intensa, não tanto pela natureza do problema, mas pelo que representa este sintoma na história da família. Em ocorrência, lembremos o problema dos mitos, dos segredos, dos tabus familiares que dão a um determinado episódio uma contextura simples ou complexa, feliz ou trágica.

Entender claramente uma demanda é saber situá-la, fazendo-o de um modo equilibrado, mesmo que isto não revele tanta eficiência. Saber em que contexto se inscreve este sofrimento familiar. A demanda pode nos dizer muito da família. É uma espécie de fotografia. Um instantâneo.

No caso da terapia familiar sistêmica o cuidado deverá ser redobrado. Para a família o sintoma e a demanda se inscrevem em uma lógica linear, daí porque insistem na busca de uma causa. A lógica causa-efeito.

Para o terapeuta sistêmico a leitura da realidade é feita a partir de uma leitura circular. O grande desafio consistirá em fornecer à família uma interpretação nova, que eles jamais imaginaram. A surpresa age como fator potencializador.

Numa perspectiva dialética o impasse situa-se na existência familiar, como um reconhecimento formal de uma não alternativa. Ela vive a situação como um impasse, concebido como completo, fechado em si mesmo. Não tem saída! A intervenção terapêutica deve ser concebida/imaginada como um elemento novo na dinâmica do sistema familiar, desbloqueando-a em direção à síntese. Não uma síntese/solução, mas um reordenamento/releitura que a família poderá vivenciar. Se estiver preparada, dará esse salto, que implica na redefinição de um novo relacionamento. Neste caso, ela estava madura, pronta. Se a leitura emprestada não funcionar, é porque a família ainda não estava pronta ou a hipótese proposta não era adequada.

CONCLUSÃO

Pelo exposto, não estamos respondendo diretamente ao que foi pedido: curar o doente! (doente?!) Mas, dando um senso a esta demanda. Mostrando como esse problema se articula com o conjunto, o sistema familiar. Isto dito, pode parecer muito frustrante. O terapeuta intervencionista, diretivo, autoritário, dá lugar a um questionador, extremamente prudente e limitado.

É muito importante perceber os limites de uma intervenção. E, a partir desta tomada de posição, estabelecer toda uma possibilidade de abordagem e proposição terapêutica. Limitada, mas consciente e responsável. Felizmente que um psicoterapeuta não é mais que um psicoterapeuta.

INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

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MINUCHIN, S. & FISHMAN, C. H. Técnicas de terapia familiar. Porto Alegre, Editora Artes Médicas, 1990;

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