Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2000 - Vol.5 - Nº 9

Psiquiatria & Espiritualidade

Dr. Erick Messias

Certos assuntos são de difícil abordagem, outros são de difícil desenvolvimento, outros, ainda, são impossíveis de se chegar a uma conclusão. O tema religião e espiritualidade parece reunir todas essas características. Desde que Nietzsche alardeou a morte de Deus, ficou ainda mais difícil encontrar um debate intelectual sério acerca de religião – Freud também colocou mais uma pá de cal nessa cova rasa com O futuro de uma ilusão. Portanto esta coluna não pretende aplacar esse vazio espiritual - que exigiria uma competência nos assuntos da fé que não possuo - mas apenas dar notícia de certas conversas deste lado do planeta e perguntar notícias do Brasil, nossa terra tão cheia de misticismo, sincronismos e anacronismos.

O número de agosto da revista Psychiatric Annals foi dedicado ao tópico psiquiatria e espiritualidade. A revista dá conta de alguns acontecimentos que mostram o ressurgimento do interesse pelos aspectos ‘espirituais’ na prática psiquiátrica. Em 1996, por exemplo, a instituição que fiscaliza e determina os requisitos de uma residência médica – ACGME – determinou que todos os programas de residência em psiquiatria ofereçam cursos acerca de espiritualidade e religião.

A revista também cita alguns conceitos interessantes, como o de "Desabrigados espirituais", uma vasta proporção de pessoas que se encontram fora das religiões estabelecidas mas que mantêm algum tipo de prática ‘espiritual’ ou levam em conta as relações com algum ‘ente supremo’ em seu cotidiano. Essas pessoas seriam vítimas freqüentes de charlatões e cultos ‘alternativos’.. Conhecendo o enorme mercado das curas e ‘produtos naturais’ dá para imaginar o tamanho dessa população. A questão é qual a postura a se adotar no consultório e se há a possibilidade de se estabelecer regras gerais de conduta – do contrário ficaremos sempre na discussão individual de casos – o que pode ser a conclusão final.

Outra proposta foi a inclusão de quatro perguntas básicas na avaliação psiquiátrica a fim de avaliar aspectos espirituais:

    religião é importante para você?

    suas crenças interferem em seu comportamento?

    você gostaria de discutir assuntos espirituais comigo?

    você encontra conforto em rezas e orações?

Uma outra proposta seria a combinação de farmacologia e práticas ‘espirituais’ "Prozac e Reza". Eu mesmo tenho dúvidas acerca dessa proposta, já tendo visto tantos pacientes com delírios religiosos que acredito poderiam ser prejudicados com esse tipo de prática. Há também o eterno problema do diagnóstico diferencial: como reunir crença em certas comunicações com o ‘além’ quando o paciente nos chega "ouvindo vozes"? A solução do DSM IV é consultar a cultura original do paciente para saber até onde o fenômeno pode ser entendido como produto de uma cultura ou até onde é marcador de psicopatologia.

Em relação aos números acerca de crenças religiosas nos EUA, existem diferenças importantes:

Crenças religiosas em psiquiatras, psicólogos e na população geral nos EUA

 

Psiquiatras

Psicólogos

População geral

Acredita em vida depois da morte

48%

54%

71%

Acredita em Deus

73%

72%

96%

Esteve em igreja ou sinagoga, ou templo nos últimos 7 dias

26%

28%

43%

A variação da importância da religião de acordo com o nível educacional também nos informa bastante:

 

Muito importante

Importante

Não muito

Sem opinião

Pós graduado

50%

35%

15%

<1%

Universidade completa

51%

35%

15%

<1%

Universidade Incompleta

56%

33%

11%

<1%

Sem universidade

64%

29%

7%

<1%

Como os números mostram, há uma discrepância entre os psiquiatras e a população geral. Haverá como superar esse abismo? Afinal, um artigo recente no American Journal of Psychiatry mostrou o papel da crença religiosa na melhora de sintomas depressivos. (Koenig, 1998)

Enquanto isso, na corrida presidencial norte americana, religião se tornou um dos debates principais. Com um candidato judeu ortodoxo para vice-presidente, que não faz campanha sábado, e dois ‘born again christians’ discutindo assuntos espirituais e fazendo de Jesus o principal inspirador nas ações e pensamentos da cada um. Religião se coloca novamente no centro do debate nacional norte americano. Nos estádios de futebol americano, protestos para que se reze antes dos jogos – apesar da decisão contrária da suprema corte. Onde ficamos no Brasil, o maior país católico do mundo?

Enfim, termino esta coluna com a observação de que usei muitos ‘parênteses’ ao escrevê-la. Acredito que isto se deu por conta da dificuldade de conceituar certos termos e da confusão epistemológica em que nos metemos quando entramos na selva chuvosa da teologia, com olhos de filósofos vivendo num mundo científico. Cousas de terceiro milênio… pergunta final: estamos, enfim, na Era de Aquário?

Outras leituras

Victor Frankl: Men in search of meaning: from concentration camp to existencialism

Koenig HG, George LK, Peterson BL. Religiosity and remission from depression in medically ill older patients. Am J Psychiatry 1998: 155, 536-542


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