Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Maio de 2000 - Vol.5 - Nº 5

Relações entre transtornos alimentares e transtornos do humor

Dr. Erick Messias

Os chamados transtornos da alimentação, anorexia e bulimia, tem recebido uma atenção desproporcional na mídia americana. Como profissionais ficamos cansados do sensacionalismo e das fofocas holliwoodianas acercas desses problemas. Mas o problema é real e a existência de uma epidemia silenciosa nos campi universitários americanos tem recebido a atenção de pesquisadores sérios e clínicos comprometidos com o tratamento dessas síndromes fascinantes e assustadores, que carregam com elas um potencial letal considerável e uma certa impotência terapêutica.

A ocorrência simultânea de transtornos do humor e os da alimentação traz consigo a pergunta: são eles produtos da mesma origem? Serão os primeiros causadores dos segundos ou vice- versa? Ou ainda, serão fenômenos independentes, entidades nosológicas distintas? Num dos grand rounds de abril discutimos essas possibilidades com Adrian Brown, coordenadora da equipe de transtornos da alimentação da Universidade de Georgetown.

Comecemos pelos números: pacientes com Anorexia Nervosa tem um prevalência entre 52-98% de transtornos do humor no decorrer da vida. Na apresentação, 50 % apresenta algum transtorno do humor. Quanto a bulimia, os números são semelhantes, 25-80% de risco na vida e 40% de comorbidade na apresentação. Ambos os transtornos se iniciam geralmente na adolescência, assim como os do humor.

Um experimento feito na década de 40 por Keys pode nos dar algum luz em relação a esses achados. Esse pesquisador estava interessado no efeito da fome no humor e utilizou voluntários para ‘passar fome’ no seu laboratório. Sintomas? Humor disfórico, irritabilidade, problemas com sono, isolamento social e diminuição da concentração. Ou seja, sintomas clássicos de depressão. Discernir quem é quem nessa apresentação é um trabalho difícil que exige atenção e um bom olho/ouvido clínico.

Em relação a neuro biologia, há muita especulação. Todos os neurotransmissores envolvidos nos transtornos do humor já foram relacionados a transtornos da alimentação: serotonina, norepidefrina, opióides endógenos e melatonina. O aspecto genético também já foi leventado como hipótese e os estudos tem sido contraditórios. Um achado mostra maiores índices de trasntornos do humor em parentes de primeiro grau de pacientes com trantornos da alimentação. Em relação a transmissão, alguns estudos mostram trasmissão independente enquanto outros apontam um risco comum.

O prognóstico também pode ser afetado pela co-morbidade, apesar dos vários estudos não chegarem a uma conclusão comun. De 4 estudos revisados acerca de pacientes com depressão e anorexia, 1 mostrou um prognóstico pior para aqueles com ambos os problemas, enquanto os outros não mostraram um diferença significante. Em relação a bulimia, 2 de quatro estudos acharam um pior prognóstico associado a comorbidade com depressão, enquanto os outros não mostraram diferenca significante.

Quanto ao tratamento, antidepressivos têm sido utillizados em pacientes com anorexia e bulimia, novemente com resultados irregulares, alguns estudos mostram resposta, enquanto outros não encontraram resultos significantes. Em relação a esse fato, a Dra. Brown afirmou que na sua prática clínica ela tem preferido a fluoxetina, por haver mais estudos publicados, mas notou que as doses utilizadas muitas vezes são bem maiores que aquelas propostas para pacientes com depressão.

Conclusões? Transtornos do humor e da alimentação se apresentam muitas vezes no mesmo paciente e, diferenciar um do outro exige atenção e cuidado. A presença desse fator provevelmente altera o prognóstico para pior, o tratamento com antidepressivos deve ser considerado. É preciso lembrar que esses trantornos carregam consigo os maiores índices de letalidade em psiquiatria e que afetam pacientes jovens, aumentado nossa responsabilidade.

Termino essa breve apresentação com um fato curioso. Ao fim da palestra com a Dra. Brown, decidi fazer um pergunta acerca das melhores intervenções psicoterapêuticas com esse grupo de pacientes. Ela respondeu que não há estudos acerca das diferentes modalidades de terapia, e disse que ela tinha uma pergunta para mim: perguntou se eu era brasileiro. Respondi que sim e ao fim da palestra fui ter com ela em particular. Ela então me disse que era brasileira de coração e que tinha sido criada no Rio de Janeiro até seus 16 anos. Tudo isso com um correto português, com um leve sotaque yankee.

Espero encontrar os colegas em Chigaco, e que possamos colocar rostos e vozes nesse nomes recorrentes da nossa comunidade virtual. Inté lá.


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