Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Fevereiro de 2000 - Vol.5 - Nş 2

Psiquiatria Baseada em Evidências

Viés nos olhos de quem vê - Lendo o que não está escrito

Dr Antonio Carlos Lopes

São inúmeras as vezes nas quais observamos discussões intermináveis entre "partidários" de diferentes práticas, filosofias ou correntes de pensamento, no campo da saúde mental. Embora em algumas situações existam evidências que nos permitam tirar alguma conclusão sobre determinado tema (mesmo que isto signifique dizer que no momento não é possível concluir nada), habitualmente encontramos discussões apaixonadas, guiadas às vezes mais por crenças individuais que por dados cientificamente comprovados ou não.

Recentemente, encontrei por acaso na Internet um interessante artigo de autoria de MacCoun, 1998, publicado no Annual Review of Psychology, disponível integralmente na rede através da Intranet da BIREME. Gostaria de resumir os pontos principais levantados pelo autor neste estudo. Segundo seus objetivos,  tentou-se determinar e descrever diferentes "viéses na interpretação e uso de resultados de pesquisa". Mecanismos "motivacionais" e "cognitivos" de viés foram identificados, como também suas possíveis tentativas de correção.

Obviamente, é impossível viver sem um viés de interpretação: a forma como entendemos o que estamos lendo depende, além do nosso grau de domínio teórico do assunto, de (pré-)concepções, crenças, preferências/aversões pessoais conscientes e inconscientes, interesses político-econômicos, etc. Alguns temas particularmente eliciam mais posições "apaixonadas" do que outros, independentemente da evidência disponível. Exemplos: legalização ou não do uso de drogas; institucionalização ou não de pacientes psiquiátricos graves; utilização ou não da psicocirurgia; prescrição ou  não conjunta de medicamentos por um psicoterapeuta. Influenciam na interpretação dos dados de pesquisa, a favor ou contra um tema, fatores como a escassez de evidências robustas sobre uma prática indiscutivelmente superior, o grau de inflexibilidade e "crença" de grupos opositores entre si quanto ao tema, e as conseqüências da adoção ou não de determinada prática.

O viés na interpretação de dados de pesquisas pode ser tanto explícito e consciente, quanto algo inconsciente. Inegavelmente, é mais fácil acusar alguém de estar "pensando erroneamente", do que admitir as incongruências do próprio pensamento, quando comparado a dados empíricos. Uma primeira modalidade de viés é atribuir os resultados conflitantes (e também os "inequívocos") de uma pesquisa à pessoa do autor do estudo, e não à natureza dos dados. Segundo Vallone et al., 1985 e Giner-Sorolla & Chaiken, 1994, citados por MacCoun, se uma mesma cobertura da imprensa fôr apresentada a dois grupos rivais entre si, cada um deles tende a achar que a reportagem favoreceu mais o seu opositor. Curiosamente, quando investigamos as opiniões, por exemplo, de cientistas financiados diretamente pela indústria do tabaco, observamos que a maioria deles reconhece que fumar realmente pode causar dependência e câncer do pulmão (Cummings et al., 1991, citado por MacCoun). Você esperaria isto de um pesquisador financiado por companhias de fumo? Nem sempre aquilo o que esperamos de resultados em uma pesquisa (e do autor dela) é efetivamente aquilo o que observamos na prática. Realizamos freqüentemente juízos de valor antecipados sobre uma pesquisa, muito antes de sua leitura.

Certamente, algum tipo de viés existe quando dois grupos rivais brigam entre si quanto a posições antagônicas. O difícil é determinar se um ou o outro, ou ambos, estão enviesados ou não. Outra forma de determinar viés é a comparação do julgamento de um examinador à medida real daquilo o que é julgado, neste caso, quando o objeto de estudo pode ser medido objetivamente. Por vezes, no entanto, isto não é possível. Podemos pensar em viés, também, quando um examinador hipervaloriza os resultados de um estudo, quando comparados a padrões genéricos de nível de evidência ou cuidados metodológicos mínimos. O oposto também é verdadeiro (a desvalorização dos resultados, apesar de uma boa qualidade metodológica).

As primeiras pesquisas sobre interpretação enviesada da evidência foram realizadas por Mahoney, 1977, o qual ofereceu 5 manuscritos fictícios diferentes entre 5 avaliadores para uma publicação, distribuídos aleatoriamente. As idéias contidas nos artigos, em geral, tendiam a ser contrárias àquilo o que avaliadores aceitavam como correto. Na verdade, todos os manuscritos referiam-se a um mesmo trabalho, com a metodologia empregada idêntica em todos os artigos, mas com resultados e conclusões propositalmente diferentes. Aqueles artigos os quais confirmavam as idéias dos "juízes" foram melhor avaliados quanto a metodologia e resultados, com maiores chances de publicação. Naqueles contrários às posições dos avaliadores, até mesmo mínimos erros tipográficos eram prontamente identicados.

Lord et al., 1979, descrito por MacCoun, compararam as respostas de 2 grupos de estudantes, cada um contendo 24 indivíduos, quanto a pena de morte. Um grupo era composto por estudantes pró-pena de morte; ou outro, por indivíduos contrários a esta prática. Em cada grupo, para metade dos estudantes ofereciam-se 2 artigos fictícios: um a favor da pena de morte, mas com uma metodologia inferior (um estudo de corte transversal quanto a taxas de homicídio entre Estados); o outro artigo, por sua vez, era contrário à pena de morte, com uma metodologia superior (estudo longitudinal de taxas de homicídio antes e após a adoção da pena de morte em um Estado). A outra metade de cada grupo de estudantes recebia, ao contrário, um estudo a favor da pena de morte, com boa metodologia, e um estudo contrário à pena de morte, com metodologia inferior. Ao final, observou-se que a qualidade metodológica de cada estudo foi o que menos influenciou nas opiniões dos estudantes. Estabeleceu-se o chamado "efeito de assimilação enviesada" - cada grupo avaliava melhor todos e quaisquer estudos que concordassem com suas pré-concepções, independentemente da qualidade da evidência. Se os resultados dos artigos sugerissem dados contraditórios ou duvidosos, ao invés dos grupos aceitarem a incerteza empírica dos fatos, observou-se uma polarização radical e extremista das opiniões (a chamada "polarização de atitude").

Estudos semelhantes foram conduzidos em relação a outros temas, como acidentes nucleares não catastróficos, com resultados também semelhantes, tanto em grupos de leigos quanto de especialistas na área de estudo (Plous, 1991, citado por MacCoun). Certos autores, por outro lado, observaram que o efeito de assimilação enviesada é mais comumente encontrado entre aqueles avaliadores com concepções extremistas, do que entre os mais flexíveis (Edwards & Smith, 1996; McHoskey, 1995; Miller et al., 1993 - citados por MacCoun).

MacCoun, posteriormente, tenta dividir a interpretação enviesada da evidência em 5 grandes tipos, de acordo com 3 características principais: intencionalidade - o quanto o avaliador continua expressando o viés, apesar de consciente da sua presença; motivação - o quanto o viés advem dos valores ou preferências do avaliador, independentemente disto ser consciente ou não; e justificação normativa - o quanto o viés é "defensável", segundo um conjunto de normas, regras, ou raciocínios.

A primeira proposta de protótipo de viés é a fraude - absolutamente intencional, consciente, motivada pelas mais variadas razões, de ordem econômica, política, ou com o mero objetivo de obter vantagens pessoais, etc. O segundo protótipo é a "advocacia" - a utilização apenas daquelas evidências a favor de uma idéia. O terceiro, denomina-se "viés frio" - ocorre sem a intenção, é inconsciente e aparece quando o avaliador busca incessantemente uma acurácia. O "viés quente", por sua vez, é sem intenções e talvez inconsciente, mas o avaliador deseja que certo resultado prevaleça. O último protótipo, "processamento cético", é menos estudado, referindo-se a uma interpretação não enviesada da evidência, mas com interpretações diferentes entre juízes devido a padrões diferentes de medida.

Obviamente, inúmeros outros tipos de viés, "quentes" ou "frios", podem ser enumerados, como o "viés de confirmação" - procura ativa por dados que confirmem uma hipótese (por exemplo, se a hipótese é de que o eletrochoque cause mais efeitos colaterais que medicações, a busca ativa apenas daqueles trabalhos com dados negativos à ECT). MacCoun descreve também a chamada "contaminação mental" - tendência a interpretar e filtrar os dados de uma pesquisa, de acordo com uma teoria na qual acreditamos. Na medida em que os dados estão em dissonância com aquilo o que temos como certo, tendemos a pôr em descrédito uma pesquisa. Fecham-se prematuramente (ou alongam-se excessivamente) as conclusões do avaliador sobre um tema. Criam-se argumentos, os mais justicáveis e "racionais" possíveis para defender uma idéia, mesmo quando ela se opõe ao que os estudos medem objetivamente.

Prefiro parar por aqui, para não me estender demais. Outros temas são discutidos no artigo original de MacCoun, como "padrões estatísticos", ou "práticas corretivas de viés", mas não pretendo abordá-los. Sugiro àqueles os quais se interessem pelo tema que tentem obter o artigo na íntegra.

Concluindo, em termos práticos, embora por vezes os dados falem "por si próprios" em alguns artigos, sempre é útil nos perguntarmos sobre COMO estamos interpretando aquilo o que foi lido anteriormente. Freqüentemente o que concluímos sobre um tema pode contrastar radicalmente com o que a prática demonstra objetivamente.

Bibliografia:

MacCoun RJ. Bias in the interpretation and use of research results. Annu Rev Psychol 1998; 49:259-87.


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